14 de fevereiro de 2015

Whistler, British Columbia

    Cresci ao pé de um pai silencioso. Recordo-me que sua quietude soprava como uma brisa gelada, que descia do alto de uma circunspecção que eu não compreendia e me encrespava a espinha.
  Com os anos, adaptei-me, acostumei-me ao silêncio e aos tremores que me causavam os deslocamentos do ar frio. Aprendi que nem sempre os ventos sopravam com a mesma intensidade ou na mesma direção. O ar gélido às vezes era mais seco, às vezes mais denso, às vezes quase não se movia, às vezes assobiava em minhas orelhas, às vezes forçava-me a procurar abrigo, às vezes convidava-me a sentir o frescor na alma cansada da reclusão.
    Seu silêncio era uma companhia constante, confiável, que me proporcionava a experiência de estar só, sem estar verdadeiramente sozinho.
    Lembro-me de rabiscar incontáveis folhas em branco tendo-o ao outro lado da mesa, sem exprimir uma só opinião. Prestava atenção, sem dizer nada, traço após traço, folha após folha, até que se passasse a eternidade.
    Certa vez, peguei uma folha, fiz um ponto no centro, coloquei-a de lado e comecei outro desenho, em outro papel. Ao que ele me perguntou: “Só um ponto?”. Conseguira sua atenção. Foi uma conversa que se findou tão rápido quanto havia começado, de volta ao silêncio que soprava da outra ponta da mesa.
   A quietude de meu pai tinha suas nuances, podia preceder um “não”, gestar um pensamento ou encerrá-lo, podia ser um silêncio de aprovação ou de desapontamento. Era um silêncio múltiplo e infinito.
    Tornei-me habituado àquela quietude, sem nunca realmente compreendê-la.
  Aprendi a conviver com tal frieza incômoda, mas ela sempre se manteve como um elemento estranho a mim, um vento do qual eu ora sentia necessidade de me proteger, ora abria o peito para senti-lo encher meus pulmões e arder em minhas as narinas, mas que não fazia parte de mim.
   Agora, esse estranhamento tem uma razão de ser. O silêncio de uma pessoa, por mais que nos dê indícios do que se passa em sua alma naquele instante, não nos conta histórias, não nos revela o passado. O silêncio, insondável, nos permite reagir, mas não nos permite entender.
    Cresci sem saber a história de meu pai. Sabia que ele havia saído de sua terra natal aos vinte e três anos e nunca mais voltara. Cresci sem saber seus motivos, sem saber sobre sua infância, sobre seu crescimento, sobre seus desejos, suas frustrações, sobre seus irmãos ou seus pais... Meu pai envelheceu silencioso como uma montanha.
    Então, nessa velhice, já com seus sessenta e poucos anos, um dia convidou-me para uma viagem a outro hemisfério do globo, para conhecermos um de seus irmãos mais velhos e para me ensinar a esquiar, um hobby que ele tivera em sua juventude e gostaria que eu experimentasse.
    Aceitei, pois, em anos, aquela era a primeira vez que ele me convidava a espiar um pouco de seu passado.
   Em janeiro viajamos para Vancouver, Canadá. Vinte horas de viagem e, pela primeira vez, encontrei alguém da família de meu pai, um tio. Era um galho de minha árvore genealógica que, para mim, havia sido podado antes mesmo de meu nascimento e agora brotava como um truque de mágica, sem respeitar o tempo do crescimento vegetativo, lançando-se em caules lenhosos.
   Os dois eram estranhamente parecidos, as mãos, as maçãs do rosto, a maneira de olhar quando acometidos por alguma dúvida, o suspiro de resignação... Agora, o leitor pode apontar a obviedade de minha constatação, afinal se trata de irmãos. Acontece que aquela similaridade física, aquela proximidade visual não foi algo que me foi permitido aprender ao longo de anos de convivência familiar. Não era algo com que eu deveria estar habituado. Foi uma surpresa.
    No hotel, sentados no sofá do apartamento, observei aqueles dois homens velhos, tão parecidos, que há quarenta anos não se viam, conversando. O diálogo era entrecortado por longos silêncios. Ora de um, ora de outro.
    Vê-los conversar era como observar peixes-boi no Rio Negro. De vez em quando algumas bolhas de ar perturbam a superfície d'água e vemos emergir as narinas e os olhos do mamífero amazônico. Depois, o rio volta à sua quietude espelhada. Assim era a conversa daqueles irmãos.
    Da cozinha do apartamento via-os trocando silêncios, que, de tempos em tempos, eram rompidos por palavras que emergiam tão cuidadosas quanto desapareciam. Eram como duas montanhas antigas soprando ventos gelados que corriam pelos seus vales.
  Prestando atenção, percebi que os silêncios diziam tanto quanto as palavras. Eram silêncios variados, cujos sentidos eu havia aprendido ao longo de minha infância. Enquanto aguardava a água do chá ferver, relembrava os momentos de quietude que dividi com meu pai. Vendo-os ali naquele quarto de hotel em Vancouver, aos poucos me dei conta que era capaz de entender o que se passava entre eles. Eles se falavam por meio de suas quietudes e eu, inesperadamente, os compreendia.
    Então o silêncio que, por tantos anos, causou-me estranheza ante meu pai, o silêncio que era apenas de meu pai e tornava-o um estranho para mim, tornou-se-me familiar.
    O silêncio ao qual eu passara minha vida inteira apenas reagindo, sem entendê-lo, era a minha história, era a história daquela família que após quarenta anos voltava a se comunicar silenciosamente. O silêncio era uma tradição da qual eu não havia me dado conta. Uma tradição tão forte que atravessara hemisférios, atravessara gerações e ainda se mantinha.
    Não podia negar que eu mesmo me tornara um homem de silêncios. Eu herdara uma tradição que somente agora, passadas três décadas, começava a compreender.
     Dois dias depois, eu e meu pai viajamos para Whistler, uma montanha a duas horas de Vancouver, onde eu aprenderia a esquiar.
     Pela primeira vez em minha vida vi a neve e ela era muito mais bonita e serena que eu imaginava. Pela primeira vez em minha vida estive diante de montanhas tão imensas e elas fizeram-me sentir a força da natureza de uma maneira que eu jamais havia experimentado. Pela primeira vez em minha vida esquiei e, pela primeira vez, senti-me livre no frio.
    Equilibrando-me sobre aquelas duas ripas, tendo diante de mim a rocha infinita, coberta de neve, senti o vento gelado descendo pela face da montanha. Perdido na paisagem branca, senti uma paz consoladora; embora tudo fosse desconhecido para mim, tudo me parecia familiar, o frio, o silêncio, a montanha. A presença muda e inquestionável da rocha que se erguia por todos os lados era como a companhia paterna em minha infância.
    Então, como fiz a vida inteira ante o silêncio de meu pai, ao pé de quem cresci, desci a face de Whistler com meus esquis, apenas arranhando a superfície da rocha insondável, da imensidão branca e silenciosa, sentindo o vento frio rasgar-me as narinas e encher-me os pulmões. Aquele pico, cravado num canto do Canadá, era a metáfora de minha vida.
    Hoje estou de volta à repartição pública, a este outro silêncio, a este outro frio ao qual, dia a dia, me habituo e compreendo.