25 de março de 2015

Estrada para Corumbá

"Não há fogo no inferno".
Papa Francisco, 2015.

     Nasci no ano de 1982, sob o signo de cão do horóscopo Chinês, numa península formada pelo entroncamento dos rios Tietê e Paraná. Sob esse céu canino e sobre a terra peninsular, apenas nasci. Muito longe dali, ao sul, cresci numa cidade fria, nublada, sem estrelas e sem rios, abaixo do Trópico de Capricórnio.
    Vinte e sete anos depois, por conta de um cargo público num cartório judicial, parti em direção ao centro-oeste do país. Num outro Brasil, um Brasil longínquo, que fazia mais parte de meu imaginário que de meu mundo.
    Fato é que o preenchimento das vagas na administração pública remaneja, sem pena, as almas no tabuleiro burocrático continental. Os servidores públicos vagam entre uma jurisdição e outra movidos pelos incentivos do Estado.
   A mim, couberam-me mil e tantos quilômetros rumo ao vazio demográfico do cerrado, a serem vencidos na poltrona de um ônibus da viação Andorinha, com a promessa dum crachá e dum carimbo.
   No letreiro, atrás do para-brisas da condução, lia-se o nome do destino: Corumbá.
 Sentado, resignado, olhando a paisagem que se repetia pela janela, imaginava o que me aguardava naquele lugar inóspito, longe de tudo, e do qual eu, se muito, ouvira falar um pouco.
   Lembrei-me dum poema que narrava a chegada de Alexandre, o macedônio, ao final do mundo, após cruzar toda a Ásia. Não sei quem escreveu aqueles versos, mas recordo que o final do mundo era guarnecido por uma muralha e ali, do alto da muralha, afirmava o poeta, um espírito, vindo do além, tomou a forma dum guerreiro em armadura,  e lançou ao rei um palmo de pó, simbolizando o que lhe aguardava para além daqueles portões: a morte. Sete palmos de terra.
     Alexandre ignorou o sinal, ou não o entendeu.
    Pois aquela nau metálica sobre rodas da viação Andorinha guiava-me rumo ao meu fim de mundo, ao meu destino, escrito havia tantos anos, num céu de cão.
    Trinta e duas horas numa jornada em que a temperatura parecia aumentar a cada palmo percorrido.
    Por volta da  vigésima segunda hora rodada sobre o asfalto brasileiro, paramos para almoçar. No nada. Estávamos a duzentos quilômetros do município mais próximo, cercados de mato e terra.
  A única construção ao longo da estrada - na verdade uma lânguida faixa de pixe que se esticava pelo cerrado - era o velho posto de gasolina onde estávamos prestes a fazer nossa refeição. O resto era poeira e um mato baixo, retorcido.
    Acompanhando a estrada erguiam-se infinitos postes que levavam energia elétrica para o final do mundo. Distantes uns quarenta metros uns dos outros, eles mediam o vazio sem fim.
    Nessa grande ausência, pouco depois que paramos, o motorista informou que o ar condicionado do automóvel estava quebrado. Ficaríamos presos ali por um tempo. A resignação que me enferrujava a alma fez com que eu ignorasse a notícia. 
 Não demorou muito, parou no acostamento, um tanto longe do posto, uma carreta, seis eixos. Imensa. Onde parou, ficou, como se estivesse à espera de algo.
     Esperava o que naquele deserto?
  Eu estava sentado sob a primeira sombra que havia encontrado. O calor me tirara por inteiro o apetite. Não me animei a acompanhar os demais passageiros ao restaurante. Contemplei longamente aquele automóvel encostado na estrada. Imaginei que alguém fosse saltar da boleia do caminhão. O motor desligou e o bicho silenciou. E foi só.
    Ninguém saiu. Ninguém entrou.
  Enquanto suava, parado, olhava aquela paisagem imutável, atravessada pelo asfalto e pelas linhas de transmissão de energia elétrica penduradas nos comportados postes enfileirados ao longo da estrada. O ar quente baforava indolente sobre o corpo entediado. Após um tempo sem fim, vi, ao longe, chegar um cachorro.
   De onde vinha? Até onde eu sabia vinha do inferno. Da fresta no chão por onde vazava o calor que me assombrava. Era o cão do cão, supus. 
   Naquela época, o inferno ainda tinha fogo e o fogo haveria de escapar por aquele canto do Brasil.
   Enfim, era um cachorro magro, de fuço comprido. Balançava as orelhas assimétricas de vira-latas. Não pisava no asfalto que ardia. Não era burro nem nada. Vinha pela terra vermelha batida, com um pedaço de osso entre os dentes - a costela de algum condenado. Parecia sorrir.
   A cada poste parava e inspecionava a área, sem largar o osso, para depois seguir seu rumo.
   Até que, próximo ao posto, cavou um buraco onde largou, com cuidado, a costela que trouxera do além.
  Agora, dentre todos os postes do infinito, por que justamente aquele?
   Escondeu seu tesouro e voltou de onde viera. Até sumir no horizonte.
    Assim que o cão desapareceu da vista, ouvi a porta do caminhão se abrir. Saiu da cabine um homem de pele tão ressecada quanto o solo em que pisou, talvez possuísse pouco mais de meio século de vida. Tinha à mão uma barra de ferro. Na boca, um cigarro apagado.
   Esse sujeito atravessou a estrada vazia e caminhou até o poste ao pé do qual estava enterrado o osso.
   Com a barra de ferro, violou aquele sepulcro. Sacou da cova a lasca de osso, bateu-o algumas vezes contra o poste para tirar o excesso de terra e guardou-o no bolso da calça. Com o pé, empurrou a poeira de volta para o buraco.
  Sem mais, retornou sorrindo ao caminhão. Sentou-se atrás do volante e abriu a janela.
 E a paisagem voltou à sua imutabilidade.
     A sombra onde eu me refugiara há muito não dava conta do sol, a fome não me vinha e o ônibus seguia aguardando conserto.
    Era de desistir.
   Duas horas de um aborrecimento inesgotável se passaram até que, mais uma vez, apontou no horizonte o cão. Retornava do inferno.
    Vinha com o fuço rente ao chão e o rabo em riste. Seguia o próprio rastro, repisando a trilha de postes.
    Veio vindo, veio vindo, até chegar ao lugar onde deixara o osso. Cheirou ao redor do poste para se certificar e cavou com vontade. 
    Com as patas dianteiras erguia uma nuvem de poeira de quase um metro de altura. Cavou e cavou até que a vala ganhou dimensões que engoliram o cão por inteiro.
  O cachorro saiu do buraco desapontado. Olhou ao redor, ponderou que talvez tivesse se enganado de poste. Eram todos tão parecidos, idênticos, quase. Dirigiu-se ao poste anterior e pôs-se a cavar, ressabiado, parando para cheirar a cada quatro ou cinco cavocadas.
     Acompanhei esse martírio por mais dois ou três postes, quando o motorista me informou que o ar condicionado do ônibus estava consertado e que iríamos seguir viagem.
     Antes de embarcar, quando o cão já ia longe, vi o homem, com um cigarro apagado na boca, saltar do caminhão e enterrar, na vala original, a lasca de costela.
    Ainda pude vê-lo retornar à boléia, com um sorriso no canto da boca, sorrindo de si para si, e ouvir o barulho da partida do motor.
    Quando o ônibus retomou seu rumo ao meu destino burocrático, nos confins do Brasil, pude ver, através da janela, pela última vez, o cão a cavar a terra ao pé de um dos infinitos postes, rumo a Corumbá.
     Aquele bicho, como o guerreiro de Alexandre, viera dar-me um aviso, anunciar meu destino. Dizia-me que, tal qual ele buscava em postes idênticos e repetidos até o inferno, o seu osso, também eu, no cartório burocrático, na repetição infinita dos procedimentos judiciais, das petições, dos ofícios, dos carimbos, procuraria, até o inferno, um sentido para a loucura das repartições públicas.
    Como o macedônio, ignorei o sinal, ou não o entendi.
    O ônibus chegou ao ponto final, ao canto mais desgraçadamente quente do País.
    Ao caminhar pela cidade, procurei por alguma fenda no chão, o lugar por onde estivesse vazando o inferno e por onde escapara o cão. Não encontrei.
    Não havia um mundo abaixo do fim do mundo onde eu viera parar. Não havia o dono do cão.
    Foi assim que, em Corumbá, muito antes do anúncio papal, descobri: Não há fogo no inferno.