1 de março de 2015

O Cão

    Ao concluir meu curso de filosofia, na Universidade Federal do Paraná, intuí que jamais seria um professor. Aos vinte e um anos eu não sabia se seria ou não um educador, se muito, pressentia que meu rumo, fosse ele qual fosse, havia de ser outro. Intuí como os cães, se postos sobre um muro alto, intuem que não têm em si as aptidões necessárias para lograr uma queda suave. O cão intui que não é gato e que não é ave.
    Quando criança, coloquei meu cachorro, um vira latas de pelo marrom e negro, no muro de casa. Parado sobre a largura do tijolo, pernas trêmulas, nada no cão lhe indica que possa vencer aquela altura, o rabo adere ao corpo, a ponta procurando a barriga, tenso, o focinho tateia o vazio, sua natureza grita-lhe que não salte; embora sequer lhe sussurre uma alternativa. E o cão não salta. Eu olhava o bicho, intrigado se depois de muito parado viria algo além do que eu via sobre o muro.
    Anos depois, também algo em mim, entre as entranhas, gritava que eu não era feito para a sala de aula, para os alunos, para o ensino. O que quer que fosse que estivesse fazendo aquele estardalhaço, por certo não me apresentava nenhum outro caminho possível, apenas berrava-me que eu jamais seria um professor. Era um brado oracular, sem justificativas racionais, mas que me orientava, tal qual o fazia com o cão sobre o muro. E assim, ao final de quatro anos de formação universitária, orientada para o ensino, não ousei dar sequência a uma possível carreira acadêmica.
   Vejam bem, nada me impedia de ter como profissão o magistério, seguir uma carreira. O que a intuição me dizia era que, mesmo que eu me tornasse um professor assalariado, mesmo que eu desse aulas, mesmo que eu tivesse um título, alunos, uma sala, um quadro, ainda assim, eu não me tornaria um professor, por não haver nada em minha natureza que me tornasse capaz de ensinar.
    Era um cão na navalha do muro.
    Aprendi coisas as mais arrebatadoras naqueles quatro anos de faculdade. Tive professores e amigos que me conduziram pelos becos mais tortuosos que eu jamais ousara trilhar. E embora tivesse aprendido a aprender, o ensino, o outro lado da maquinaria, não me entrava na alma.
    Por isso, meti-me em outros afazeres, em outros caminhos, que me levaram para outra cidade e me consumiram os parcos recursos financeiros. Nesses anos de vaguear aprendi, mas não suponho que tenha ensinado. E quando, enfim, minhas economias se acabaram, busquei um emprego e, ironicamente, o único que consegui, foi o de professor de inglês numa pequena escola de idiomas no subúrbio do Rio de Janeiro.
    O cão sobre o muro, retesado e ganindo, quando a fome aperta, se coça. Ensaia colocar uma de suas patas para fora, balança-a no ar, encolhe-se, solta outro ganido abafado, treme as ancas; a pata traseira desloca-se um pouco para o lado, apoia-se em falso na quina do tijolo e desce arranhando a parede – o lastro que o mantinha no prumo, se vai –, o corpo pende em direção ao vazio, a cabeça dá guinadas a esmo, tentando recuperar o equilíbrio, o rabo descola do corpo e repete o movimento do pescoço, as unhas se fincam no vento, a espinha arqueia, se retorce no ar e o bicho cai.
     A escola de inglês ficava na Tijuca, a cinco quadras da Igreja São Francisco Xavier, Zona Norte, longe das areias do Rio de Janeiro. O calor que ali se sentia vinha do asfalto, o vento, dos escapamentos dos ônibus. A pele escurecia não pelo bronzeado, mas pela fuligem que colava no suor de nossos corpos. Não era uma franquia de um grande curso de idiomas, com mensalidades caras, nem era frequentada por alunos da classe média carioca.
     Meus alunos vinham das escolas públicas da redondeza.
    O percurso que eu fazia, todas as tardes, do metrô até a escola, sob um calor asfáltico, era o mesmo que o feito pelos alunos, que chegavam de ônibus. Às vezes via-os caminhando de mochilas à minha frente, às vezes podia ouvir seus bochichos a poucos passos atrás de mim.
     Uma vez na sala de aula, tinha sérias dificuldades em ensinar-lhes inglês.
     O cão, em queda, que até aquele momento intuía que não era gato, agora o sabe.
     A dificuldade advinha do fato que eles não sabiam português, não sabiam matemática, não sabiam geografia, não sabiam história... parecia não haver nenhum conhecimento sedimentado ao qual o novo idioma pudesse aderir. Esse, suponho, seja um dos problemas centrais de uma educação fundamental precária. Não se constrói nada sob um terreno pantanoso.
    Sentia que havia um completo despreparo para a vida – meu? Deles? – e aquilo me exasperava, pois sentia que eu não era capaz de suprir aquela lacuna.
    Certa tarde, trilhando o caminho da igreja até a escola, deparei-me com um corpo estendido na rua, cravado de tiros no peito. Os carros desviavam do cadáver que assava retorcido no asfalto. O sangue que escorrera do corpo já estava seco, formando um mapa escuro ao seu redor. Há quanto tempo estava ali?
     Sabia que os alunos veriam aquela cena quando se dirigissem à escola. Onde estariam a polícia, ou o corpo de bombeiros?
    Na sala de aula, ninguém comentou o defunto. Estranhei. Perguntei-lhes se haviam visto a cena a um quarteirão dali. Responderam-me com normalidade:
     - “Tá ali desde manhãzinha professor. A gente viu quando tava indo para a escola”.
     - “Desde manhã? A polícia não veio?”
     - “A polícia que matou, professor. O cara foi roubar um polícia que parou de carro no sinal. Levou um monte de tiro. Deixaram ele ali, desde manhã, pra mostrar o que acontece com bandido”.
     Nisso, outro aluno emendou: “É, mas vai ter volta”.
     Eu não sabia o que dizer e balbuciei: “Vai ter volta? Como assim?”.
    Vem o baque. O fuço do cachorro encontra o chão. Dá para ouvir o estalo das gengivas. O bicho cai de lado, os pelos desabam e a anca do animal quica no chão. “Caim!”. Um susto. O cão se põe de pé e aquele instinto que o manteve parado por tanto tempo, agora manda que se afaste do muro. E o cão se vai, andando torto.
     Cachorro não é gato.
     Aí aconteceu algo que me chamou a atenção. Dois meninos de 13 anos que não sabiam ainda fazer uma conta simples de soma ou divisão, contaram-me toda a história do tráfico na comunidade em que moravam. Sabiam quem mandava, “o cabeça”, quem era o braço direito na comunidade, quem comandava o tráfico do presídio, quem havia sido “apagado”, quem provavelmente iria suceder as pessoas que agora estavam no poder, etc. Eles conheciam a hierarquia do tráfico com a familiaridade que os personagens de Shakespeare conhecem a hierarquia da coroa britânica e a recitavam com a naturalidade com que um bom cristão conhece a história de Jesus.
  Havia uma certa reverência em relação aqueles traficantes.
     O corpo no asfalto? Era membro de uma facção. Ia ter volta.
    Entusiasmados com meu interesse no assunto, mostraram-me as músicas que costumavam ouvir no ônibus. Eram funks “proibidões”, músicas que exaltavam traficantes e suas vitórias sobre a polícia do Rio de Janeiro.
    Minha aula não encontrava aderência naqueles alunos porque eu não sabia o que eles haviam aprendido até então. Eu não sabia o que eles sabiam. Existia naquelas crianças um conhecimento muito bem sedimentado, mas não o conhecimento que eu esperava, não o conhecimento que eu tinha.
    Não bastava ensinar-lhes inglês. Era preciso criar um mundo em que o idioma fizesse sentido para eles. Um mundo fictício, mas possível. Um mundo que estivesse ao alcance daquelas crianças, próximo à sua realidade, mas que lhes abrissem novos horizontes. Um mundo novo, mas alicerçado nas estruturas que se consolidaram neles, não em mim.
   O cachorro se vai, para o outro lado da casa, para longe do muro, para longe do menino que o colocou no muro.
  Tive, ao longo de minha vida, grandes professores que foram capazes de criar essas ficções e transportar-me para outras realidades. Naquele dia em que um homem foi morto perto da escola, eu soube que não era capaz desse tipo de engenharia. Não muito tempo depois, larguei o emprego.
   Hoje, quase uma década depois, trabalho num cartório judicial no centro-oeste do país. Não crio mundos, não ensino; se muito, cuido para que a ordem do mundo fique como está.
    Longe de tudo, o cão lambe as feridas.