13 de setembro de 2015

A Faca de Porcelana

    Nasci em uma família de estrutura matriarcal. Lembro-me que, das poucas vezes em que estive com todos os meus parentes reunidos, tios, sobrinhos, primos distantes, netos, etc., tais encontros se deram ao redor de minha avó materna.
 
    Em torno dessa ancestral figura feminina eu acompanhava, como um astrônomo, os planetas e cometas familiares orbitarem numa harmonia cósmica que parecia infinita e imutável.
    Estranhos inúmeros, pessoas de quem eu mal me recordava, que eu conhecia mais de retratos que de alguma convivência, iam chegando, aos poucos, ao recanto matriarcal e, como um feitiço, os laços familiares se iam recompondo. A gravidade do astro mãe reunia aqueles corpos celestes e dava forma ao sistema familiar.
    Ao redor da matriarca, todos eram parte de algo singular, todos se viam unidos por laços invisíveis, todos iam à igreja da cidade, todos eram religiosos, todos rendiam reverência a um Deus. Mesmo os que não acreditavam, mesmo os que, como eu, não rezavam. A mãe de todos mantinha a unidade e a fé formal daquele grupo social.
    Em torno da anciã, mais mulheres organizavam aquilo que denominavamos família. Decidiam o que cabia a cada um, não por autoritarismos, mas pela atração gravitacional que exerciam. Essa lei universal que rege os corpos no vazio do espaço.
    O arranjo todo lembrava as casas de mães de santo, descritas por Jorge Amado.
   Aos homens, cabia-lhes trilhar as órbitas definidas pelo jogo gravitacional fixado pela matriz matriarcal.
   Acompanhei, ao longo de minha infância e adolescência, o envelhecimento e a morte dessa estrela mãe.
   Ao falecimento do astro seguiu-se o lento desarranjo do sistema. Os planetas desgarraram do centro de gravidade que os unia e lançaram-se, órfãos, num universo em expansão. A família espalhou-se pelo espaço, os planetas rearranjaram-se em torno de outros centros de gravidade. E aqueles que eram desconhecidos, voltaram a sê-lo.
    Quanto aos meus, uns poucos, reorganizaram-se em torno de uma outra matriarca. Uma tia, uma nova ialorixá, de nome bíblico, Esther.
    Essa mulher, essa anciã, representava no novo arranjo gravitacional, o resquício de religiosidade que, tal qual um convidado prestes a despedir-se, habitava uma família cada vez mais secular. Tia Esther alimentava a fé de nosso pequeno clã. Acreditava por nós. Orava por nós. A religiosidade, para mim, teve sempre a face de uma mulher, nunca a de patriarcas barbudos segurando cajados.
    Essa tia Esther, certo dia, deu-me de presente uma faca, de lâmina branca, lapidada em porcelana. Disse-me que, ao contrário das lâminas de metal, a porcelana jamais perdida o fio. Seu corte era infinito.
    Agora, para que essa anciã presenteava-me com uma lâmina branca e eterna?
    A faca enfiou em meu espírito essa dúvida. Do corte, escorreu o sangue oculto, a infinita linha matriarcal de minhas veias.
     Mas essa longa linha enovelou-se num enigma impenetrável, tornou-se um coágulo.
    Quando, pela primeira vez, fui cortar, com aquela lâmina branca, um pedaço de carne, lembrei-me de Abraão.
     Do que me recordava da narrativa bíblica, no momento em que o patriarca ia sacrificar seu filho, seu único filho, deus chamou-lhe duas vezes pelo nome. "Abraão! Abraão!". O que evitou a carnificina.
     Tenho sérias dúvidas sobre as narrativas em que deus fala o que quer que seja. Não creio que deus exista e, ainda que exista, não creio que fale... Ao menos não com essa ferramenta tão rudimentar que são as palavras.
     Então, no dia em que fui fatiar aquela peça de coxão mole, ocorreu-me que talvez não tivesse sido a voz de deus a interromper Abraão.
    Talvez o patriarca tivesse visto seu reflexo em cada um dos lados da lâmina que empunhava. Quem gritou foram as faces polidas do punhal: "Abraão! Abraão! ".
    O velho viu a imagem de si refletida nas duas faces da faca. Viu quem ele estava se tornando ao dirigir a lâmina contra o próprio filho.
    Dois sacrifícios foram evitados pelas imagens espelhadas no corte do punhal. O do filho e o do homem refletido na faca, que, por certo, acabaria por morrer também.
    Isso tudo porque a faca de Abraão era metálica.
    Em minha faca de porcelana, nada se vê além da brancura opaca, nada se vê além da cegueira láctea descrita por Saramago.
    Enquanto eu cortava a peça de carne imaginava o que aquela brancura escondia. Qual reflexo eu não estava vendo. O que estava sendo sacrificado sem que eu me desse conta.
    Deus não chamaria meu nome. Não naquela lâmina.
    Cortei a carne, rompi a capa de gordura, limpei-a dos resquícios de nervos e, para minha surpresa, após todo o processo, a lâmina não perdera o fio. A faca tinha um corte infinito.
    Onde trabalho, na secretaria de um juízo federal, também temos facas brancas de cortes sem fim. São as intermináveis lâminas de papel: decisões, sentenças, ofícios, mandados...
   Nessas lâminas opacas de papel eu também não me vejo. Ninguém se vê. A deusa da justiça, a matriarca Têmis, é cega, não porque lhe vendaram os olhos, mas porque a sua lâmina é branca e sem reflexo.
    E no manuseio diário dessas laminas lácteas algo se perde, algo é sacrificado sem nos darmos conta.
    O que não vemos refletido nas lâminas de cartório é a própria justiça. É o que se sacrifica em secretaria todos os dias.
    No uso diário das facas judiciais, não há uma voz que brade e interrompa o insensato sacrifício. A carnificina corre solta. Sangra-se diariamente a Justiça, sem preguiça.
   Essas lâminas brancas ocupam-me os dias. A matriarca de minha família presenteou-me com o símbolo de meu ofício.
   Tendo cortado toda a peça de carne, aquele quilo de coxão mole, parei por um instante, para ouvir algum chamado tardio, um grito que me trouxesse de volta a mim. Aguardei... Nada.
    O sacrifício fora consumado.
    O que morrera naquele altar? Que parte de mim fora sacrificada sem que eu me desse conta?
    Desde esse dia, não há uma só refeição que eu não prepare com essa faca de fio infinito e, a cada vez, tento enxergar, na lâmina matriarcal, o reflexo de Abraão, tento ouvir os chamados que impeçam a lâmina de cair, atroz, sobre o sacrifício que não vislumbro.