12 de outubro de 2015

O Olho de Genaro

O sexo, disse ela, não se faz nem com o corpo nem com a alma.
Faz-se com o corpo que está debaixo do corpo.

Mia Couto

Do mais inanimado sono, de um dormir primo da morte, despertou-lhe a dor. Era como se um anzol lhe tivesse fisgado o fundo do olho direito e, por uma linha tensionada, puxasse o órgão de ver para dentro da cabeça. Tinha um pescador dentro da caveira. Alguém pescara-lhe o olho, podia sentir, na outra ponta da linhada, o caniço envergado, trepidando no vazio, enviando um código morse que viajava pela linha de pesca esticada até o anzol fincado em sua retina. A mensagem dizia: "Desperta".

Acordou doído, já com as pálpebras cerradas, sem abrir os olhos. A escuridão, agora, era outra... latejava. A vista, que a noite inteira nadara folgada pelas trevas da inconsciência, sentiu o solavanco a puxar-lhe firme numa única direção, rumo à superfície. O anzol varara o couro do olho de fora a fora. Em vão, tentou desvencilhar-se. O globo ocular, esférico como uma bola de bilhar e liso igual bagre ensaboado, espremia-se contra as pálpebras que não achavam um vinco por onde agarrá-lo, escorregavam-se um no outro enquanto o anzol, cravado firme na córnea, puxava o órgão arisco para dentro do crânio, querendo despregá-lo da órbita. A luta era boa, mas o olhar estava fisgado de jeito.

Por entre as pregas de dor que deformavam o rosto escapou uma lágrima. Era o inconsciente que espirrava para fora. O olho se debatia igual uma tainha. Nova fisgada. O anzol repuxou, sentiu a linha esticar e a ponta do caniço envergar, tremelicando, redigindo-lhe outra mensagem em código Morse, que partiu do caniço para a linha tensionada, da linha esticada para o anzol, do anzol para o olho: "Desperta". Abriu os olhos.

Entre lágrimas, viu seu quarto. Com medo que a dor aumentasse, que o anzol lhe rasgasse a córnea, não moveu o olho. Virou a cabeça, girou o corpo, apontando todo seu ser para a direção que queria ver. Viu seu amor, que ainda dormia. Ver, doía.

A dor no olho tomara-lhe o rosto, de assalto, tomara-lhe a cabeça. Sentia que sobre o pescoço tudo o que tinha agora era um olho fisgado. Tudo era dor.

Fechou os olhos para evitar movê-los, o mundo sumiu, permaneceu a dor. Ergueu-se e, às escuras, como pôde, dirigiu-se ao banheiro, ao espelho, em verdade... precisava ver o seu olho. Apoiou-se na pia, apalpou a parede até acertar o interruptor, abriu as pálpebras. A imagem, embaçada por lágrimas empoçadas, não trazia nada de novo.

Molhou o rosto com cuidado, mal relando os dedos na pálpebra. Recorreu ao papel higiênico para secar a face. Queria evitar o atrito da toalha. Queria evitar qualquer coisa que o fizesse sofrer mais.

Reabriu os olhos. A imagem era clara. Não havia nada em sua vista direita. Não estava avermelhada ou inchada, nada de estranho nas pupilas, a diferença, se alguma havia, era que seu reflexo não sentia dor. A dor da fisgada estava só no olho que via, não no olho refletido. Sentiu inveja de sua imagem espelhada. Sentiu inveja daquela réplica que não doía.

Se estivesse no espelho, se fosse apenas o seu reflexo, não estaria em dor. Fechou os olhos.

Nova puxada no anzol. Uma longa e duas curtas, uma curta, três curtas, uma curta e duas longas... "Desperta". Sentia que o globo ocular se enterrara alguns milímetros dentro da cabeça. A dor irradiava. Com as mãos, apertou o crânio, pressionou as têmporas com os polegares, massageou o pescoço, bateu a testa contra a palma direita... em vão. Era uma dor impalpável.

"Desperta".

Arqueou o pescoço para trás. Contara as fisgadas. Sabia o que significavam. Quando criança, ganhara de seu pai um livro de enigmas e nele haviam duas páginas explicando as origens e o funcionamento do código Morse. Aprendeu aquele novo alfabeto de pontos e traços que podia ser "escrito" de infinitas maneiras: com luzes, batidas na madeira, assobios, na tecla do piano, com rabiscos no papel.... Aprendeu tão bem aqueles caracteres que passou a ler as mensagens que o mundo lhe deixava em código Morse. Uma sequência de casas e prédios era uma mensagem, sendo as casas os sinais curtos e os prédios os sinais longos. O mesmo raciocínio valia para uma fila de pessoas e, até mesmo, para os planos de um filme... tudo era traduzível. Tudo era Morse.

Às vezes a mensagem, em si, não fazia sentido e então era preciso decifrar o significado desse outro código enviado cifrado pelo mundo. Era a tradução da tradução.

A mensagem que se repetia em seu olho naquela manhã, embora decodificada e clara, não fazia sentido. Já estava acordado. Mais desperto que nunca. Além disso, que dor era aquela que conhecida o código morse? Como era possível uma dor saber?

"Desperta".

Faltaria ao trabalho. Ligou para seu oftalmologista e descreveu-lhe, em poucas palavras a dor, agendou um atendimento para dali a quarenta e cinco minutos. Era urgente. Entre espasmos oculares, ligou também para a repartição pública informando que não iria, mas levaria um atestado médico no dia seguinte. "Não é nada sério", acrescentou para evitar especulações no cartório.

Despertou a esposa e, buscando não alarmá-la, disse num tom brando:  "Preciso que você me leve ao médico. Tenho alguma coisa no olho. Não sei se consigo dirigir". A fala calma adiantou até ela perceber a contorção de dor que se seguiu. A mulher alarmou-se.

Dez minutos antes do horário agendado estavam na sala de espera do consultório.
Foram atendidos prontamente. "Veio contorcendo-se de dor no carro, de casa até aqui". Adiantou-se a esposa.

- "O que aconteceu?" - perguntou o médico.

- "Não sei. Fui dormir, estava tudo certo. Acordei com essa dor".

- "A dor é constante ou intermitente?"

- "Ela é constante e intermitente... ela não para, mas durante a constância ela dá uma variada".

- "E como é essa dor? Você consegue descrevê-la?"

- "É como se um anzol tivesse fisgado o fundo do meu olho direito e alguém estivesse puxando".

Respondia com custo cada pergunta. Queria apenas que lhe prescrevessem um remédio para a dor. Uma injeção no olho, que fosse. "O senhor não tem nada para essa dor?".

Ao que o médico lhe perguntou: "E como é esse anzol? E essa tal fisgada? Como são?".

Prostrado de dor, curvou-se sobre a mesa do oftalmologista, apoiou o cotovelo direito na superfície, o antebraço perpendicular ao tampo, cerrou o punho, esticou o dedo indicador e, arqueando-o levemente, fez a forma de um gancho. Para imitar a fisgada, fechou o arco do indicador algumas vezes, como se chamasse alguém.

- "Assim. É assim que é".

O médico sentou-o num aparelho similar a um arreio e, tal qual um espeleólogo, examinou-lhe a caverna do olho, atrás de rastros geológicos, de fissuras ou pinturas rupestres que contassem a história daquela cavidade escura. São adivinhadores de sinais, esses médicos.

- "Não há nada de anormal" - concluiu.

- "De onde vem essa dor, então?"

- "Não sei".

São adivinhadores de sinais, esses médicos.

O médico prescreveu-lhe um analgésico, uma série de exames e repouso.

No retorno para casa passaram, ele e a esposa, numa farmácia. Entupiu-se das pílulas assim que as pagou.

Entrou no apartamento e, ainda com dores, meteu-se na cama. Depois de alguns minutos o analgésico bateu.

A dor cedeu. Conseguia pensar. Conseguia ver. Era, de novo, um homem e não uma dor.

Sentia o anzol no fundo do olho, mas era como se a linhada estivesse frouxa. O pescador soltara o molinete, dava linha ao peixe fisgado. O órgão nadava em paz em sua órbita.

As mensagens em código cessaram.

Tinha agora o resto do dia para si.

Sentiu vontade de ler algo... Algo. Contemplou as estantes. Esperava encontrar o que desejava, fosse o que fosse. Nesse vagar, percebeu que havia uma pequena mancha em sua vista, uma sombra translúcida que se movia pelo campo visual.

Esse pequeno desconforto tinha, mais ou menos, o diâmetro do seu polegar. Esticou o braço e posicionou o dedão ao lado da mancha que oscilava no espaço, como um fantasma.

Fechou o olho direito. A mancha desapareceu. Era uma falha na vista destra, a cicatriz do anzol refletida no mundo. Estivera ali desde o começo? Passara despercebida em razão da dor? Como o oftalmologista não mencionou aquela óbvia alteração?

Fechou o olho esquerdo e contemplou a sombra que se projetava na estante. Atrás da mancha havia um livro, o mais magro da prateleira. Aproximou-se. A mancha manteve-se sobre a lombada. Abriu então o olho esquerdo que leu: "O Velho e o Mar”.

A mais bela história de pesca que já ouvira. Riu-se. Era como se a mancha tivesse escolhido o livro. A mancha tinha um saber e agora tinha também uma vontade.

Lembrou-se com carinho do velho Santiago, do pescador que fisgou um Merlin.

Tivesse Santiago lhe fisgado o olho, a noite teria sido muito mais longa... Um pensamento cruzou-lhe o espírito, um medo. Talvez Santiago estivesse na outra ponta da linhada... Talvez estivesse apenas descansando... A pesca, nesse caso, estaria longe do fim. Estremeceu ante a promessa de uma dor por vir.

Abriu o livro, uma edição antiga de papel jornal amarelado, folheou as páginas, a mancha seguia a assombrar-lhe a vista. A cada linha, a sombra ocultava uma palavra. Leu algumas páginas desconsiderando o que a penumbra do anzol escondia.

A leitura ficou truncada. Estranha. Difícil. Cheia de buracos, como a realidade. Largou Hemingway, ficou com Santiago na cabeça.

O sol se punha. Foi até a varanda para ver o dia morrer. O céu estava em chamas e no ponto onde o fogo ardia, a mancha meteu-se como um eclipse. Contemplou o crepúsculo, ora com o olho direito, ora com o esquerdo, ora com ambos, tinha um furo na vista, por onde um pedaço da realidade parecia vazar.

Lembrou-se de outro velho marinheiro, o velho Francisco, Mestre de Saveiro, que em sua última viagem no Valente disse: "Meus olhos já se gastaram. A luz do mar come os olhos da gente".

Foi até o espelho do banheiro, olhou-se como a um estranho. Sabia que aquela imagem não carregava a lembrança da dor matinal, nem qualquer outra recordação, era um seu duplo sem passado, uma imagem que era apenas no presente. Em certo sentido, talvez, o homem no espelho fosse mais verdadeiro que o homem diante do espelho. Sobre o reflexo do olho direito estacionou a sombra. Exatamente sobre a porção de si que desejava olhar. A sombra comia-lhe a vista. "Ele me vê por inteiro e eu, eu que sou eu, não me vejo. Pode?".

Ouviu chegar a esposa. Foi ao seu encontro e, diante da companheira, parou de súbito. "Que cara é essa? O que houve?" - perguntou-lhe a esposa estranhando-o. Sobre o rosto da mulher, pousara a mancha.

- "Amanhã, sem falta, vamos fazer esses exames que o médico pediu... Tem alguma coisa me embaçando a vista". Terminou a frase e a dor retornou. Correu para os comprimidos.

"Desperta". Sentiu a fisgada. Era Santiago que voltava a puxar a linhada. Arqueou o corpo em dor, cerrando os olhos com força. Engoliu as drágeas a seco e depois foi buscar uma torneira.

Até o medicamento fazer efeito, o anzol fincado na córnea castigou-lhe, sem preguiça, a vista destra. O medo se concretizava, seria uma pescaria longa.

À noite, sonhou.

Sonhou que estava no fundo do mar e, dali, podia ver a superfície. Era dia, via o sol e a luz mergulhando com dificuldade na água, como se perdessem o fôlego à medida que afundavam. Via o fundo de um barco flutuar pela realidade líquida, era o barco de Santiago. Ao longo do comprimento da embarcação, via o enorme Merlin amarrado, vencido pelo velho homem do mar. A pescaria terminara. Do fundo do mar, entretanto, não conseguia ver o pescador. Via tubarões nadando em círculos, logo abaixo do barco, e abocanhando cada porção do peixe fisgado por Santiago.

Acordou. O olho direito doía. Sentiu o repuxo, o anzol, a linha retesada, o código Morse... "Desperta". Já era quase de manhã. Encolheu-se em agonia.

Engoliu mais alguns comprimidos. Fechou os olhos, a fisgada permanecia funda em sua vista direita. A puxada era contínua. Santiago era como uma força da natureza, incontível. A dor, a dor seguia a direção da linhada.

Esperou os analgésicos fazerem efeito e partiu para se submeter aos exames.

No laboratório, enquanto lhe escaneavam a cabeça, perguntou ao médico: "O que temos dentro do olho?"... Era uma curiosidade, nunca havia pensado no assunto. Na solidão do escâner ocorreu-lhe a dúvida.

- "Água e sal" - foi a resposta.

Água salgada. Como o mar. Temos um mar nas vistas, pensou. É onde Santiago pesca.

Perguntou ao médico acerca da sombra. Examinaram lhe o olho. Acharam algo, pois todos os estranhos vestidos de branco ficaram mais graves e pediram-lhe que fizesse mais exames. Chegaram a enfiar uma agulha na sua vista... Achariam o anzol de Santiago?

Pensou em mencionar a mensagem em código Morse, mas achou melhor não. Não precisava, agora, com dor, ter que se ver com um psiquiatra. Guardou o segredo de infância. A sombra já os tornara sombrios o bastante. Não precisavam saber que a sombra falava.

Dispensaram-lhe dizendo que aguardasse o resultado dos exames.

O que era a sombra que lhe ocupava a vista? Teria que aguardar o resultado dos exames. Não sabia nada sobre si. Saiu tão ignorante sobre sua condição quanto entrara. São adivinhadores de sinais, esses médicos.

A mancha seguia. Tomou analgésicos de forma preventiva, para evitar a fisgada. Os remédios não eram para o seu corpo, não eram para a sua dor. Os comprimidos eram para entorpecer Santiago, para que o velho lhe desse um pouco mais de linha, para que afrouxasse o anzol cravado no olho, antes da próxima puxada.

No dia seguinte foi trabalhar. Estava bem, dizia a todos, fora apenas um mal-estar. Ao ligar seu computador, notou que a mancha estava um pouco maior e mais negra. A sombra do anzol estava mais nítida e sólida, como se fosse meio dia, como se o sol estivesse a pino no céu do seu olho.

Ao redigir ofícios, despachos e mandados, durante o expediente, notou que a sombra escondia de si algumas letras... Era como se o buraco em sua vista engolisse as palavras.

O furo parecia reescrever suas linhas. Digitava "ofício n° 21"; a mancha ocultava as três primeiras letras e o segundo número, lia " cio n° 2"... Logo o pensamento ia para as cadelas, tinha duas fêmeas, vira latas, que entravam no cio ao mesmo tempo... Nesse período os cães de rua incomodavam no portão. Dormia mal. Uivos, latidos estridentes, cachorros se batendo contra as grades. Queria matar um. Inútil. A força do cio era como uma ordem, um ofício do Tribunal Superior, tinha que ser cumprido.

Voltava à redação do ofício.

Aquele furo o desconcentrava de seus afazeres. Arrastava-o para longe. Dirigiu-se à enfermaria. Alegou conjuntivite. Arranjaram-lhe um tapa olho.

Passou pelo expediente apenas com a vista esquerda. Às cinco para as cinco, sentiu novamente as fisgadas: "Desperta". Tirou o tampão, abriu o olho direito. O furo ainda estava lá, agora com dor.

A dor era a mesma, mas Genaro começava a acostumar-se a ela. Era uma espécie de companheira, ela o unia ao velho Santiago, que navegava só no mar infinito de seu olho direito.

Enquanto dirigia, notou que a sombra crescera. Olhava para os retrovisores e o buraco ocupava cada um dos reflexos. Não via o que vinha de trás. Dirigiu olhando apenas para frente, inseguro, assombrado por automóveis e motocicletas que surgiam inesperadamente para depois sumirem no trânsito. Atrás de sua vista, apenas as fisgadas do anzol e a dor que, em código Morse, repetia: "Desperta ".

Chegou em casa esgotado, como se tivesse dirigido mil quilômetros. Entupiu-se de comprimidos.

Banhou-se e, durante a ducha quente ouviu pela última vez, naquele dia, a mensagem em código Morse: "Desperta". Via a água escorrer-lhe pelo corpo nu e sobre sua pele via o furo que transitava entre os membros, ora uma perna, ora outra, ora um braço... A vista destra esburacava-lhe todo o corpo.

Deitou-se, fechou os olhos, concentrando-se no anzol que descansava frouxo em sua retina. Sentiu o corpo de sua esposa encostar no seu. Era um corpo inteiro, quente, macio. Não abriu os olhos, para não perfurar com a sombra de sua vista o prazer que se aproximava.

Lembrou-se do sonho, dos tubarões que abriam buracos no peixe fisgado por Santiago. Olhava tudo do fundo do mar.

Era agora o Merlin, pescado por Santiago e devorado pelo desejo.

Os lábios quentes e úmidos roçavam a pele que há pouco, no chuveiro, vira perfurada... Sua esposa encontraria com a boca os vazios da vista, a boca o perfuraria? Não. O calor úmido engoliu-lhe o membro.

No balanço daquela travessia, no gosto salgado e úmido das vagas infinitas, lembrou-se dos amores amados a bordo dos Saveiros de Jorge Amado. O sexo tinha o gosto do mar, tinha a água do mar, vinha em ondas, rebentava no continente... ondas longas, ondas curtas, ondas longas, ondas curtas, tinha a brisa úmida, a espuma, e para além da rebentação, a imensidão desconhecida.

Abriu os olhos. Estava cego da vista direita.

Não sentia dor. Os efeitos dos remédios ainda não tinham passado. Não quis importunar a esposa. Beberam água na cozinha. Lembrou que o médico estava marcado para o dia seguinte.

Tentou dormir, mas agora tinha a noite dentro de si, do lado direito. O mundo que tentasse dormir. Genaro agora era a noite, que velaria o sono dos outros.

Na manhã seguinte foi ao consultório médico, saber dos resultados dos exames.

O oftalmologista atendeu-o e perguntou se havia alguma alteração desde a última consulta.

- "Comecei a ver uma sombra na vista direita. Ela ficou mais escura e maior com o tempo. Hoje, acordei cego do olho direito".

O médico examinou-lhe as vistas e disse: "É... Isso confirma o resultado dos exames. Dentro do seu globo ocular direito está nascendo outro olho".

Após uma pausa, que Genaro não ousou interromper, prosseguiu: "Você não está conseguindo enxergar porque esse olho interno cresceu muito rapidamente e tomou conta da sua vista".

- "Isso tem cura?"

- "A cirurgia é muito arriscada, há grandes chances de você ficar cego. É completamente desaconselhável".

- "Mas cego eu já estou ".

- "Tecnicamente não. Você não está cego. Acontece que, agora, tudo o que você enxerga é o seu próprio olho... O olho dentro do olho, que cobre tudo".

- "O que dá no mesmo, não? É uma cegueira."

- "Há uma diferença, você não consegue ver?".

- "Não".

- "Genaro, você está vendo um olho que cobre toda a sua retina. Embora não enxergue nada, você, tecnicamente, está vendo. É como se, entre você e o mundo houvesse uma parede negra, colocada a poucos centímetros de seu rosto. Você enxerga, mas não vê nada."

- "Ou seja, dá na mesma".

- "Veja bem... Sem a cirurgia é possível que esse novo olho atrofie, é possível que ele regrida e volte apenas a ser uma mancha, ou mesmo, que suma. Acho que nós devemos aguardar um pouco".

São adivinhadores de sinais, esses médicos.


- "Mas e as dores?".

- "Nós estamos falando de um órgão que está crescendo vertiginosamente. Essas dores são esperadas".

Pensou em retrucar: "Só que essa dor fala!", mas calou-se e saiu.

Estava cego da vista direita. Não estava cego, um olho lhe cobria o olhar... E não via nada.
Andou a esmo até encontrar uma praça e sentou-se num banco. Olhava o mundo passar enquanto tentava sentir o olho que, agora, tinha dentro do olho, tentava vê-lo, tentava sentir seu tamanho, sua textura, seu peso, em vão. Imaginava que cor poderia ter esse olho.

E, no meio dessa longa espera de olhar perdido, sentiu, de novo, as fisgadas. "Desperta".

Era Santiago que, do meio do oceano de suas vistas, mandava-lhe uma mensagem que não compreendia.

Esse Santiago não fisgara um Merlin, mas um olho, um olho que o deixava cego, esse Santiago sabia código Morse. O código de sua infância. A língua de sua meninice.

Quando pequeno, Genaro tinha um outro idioma, que usava para falar de um mundo que não existia, ou existia apenas para si, o mundo de sua infância... Para falar desse mundo, para falar nesse mundo, Genaro precisava de uma língua própria. Uma língua que desaprendeu para deixar de ser criança e tornar-se humano.
           
“Desperta”, repetiu a dor em código Morse.

            Com os olhos fechados, sentado no banco, engoliu mais alguns comprimidos.

            Enquanto aguardava a dor passar, como quem aguarda a fatalidade do destino, duas mãos lhe cobriram os olhos. Não eram suas, eram dedos quentes que se encaixavam em suas órbitas. Fora um movimento planejado, tocaia. Aguardou uma dica, uma voz, mas nada. Sentia apenas a respiração calma próxima aos seus cabelos.

            Esperou mais alguns instantes. O silêncio era resoluto, não cederia. Pousou suas mãos sobre aquelas que o cegavam, elas pareciam ter aplacado a dor, ou foram apenas os comprimidos? Apalpou-as até os pulsos. Sentiu a pulsação calma, ritmada. Pressionou levemente os ossos salientes que sucediam às pulseiras.

            Não tinha pressa para saber quem lhe cegava, havia uma certa inocência, uma inutilidade naquela tentativa.

            Correndo as mãos sobre as pulseiras, lembrou-se da primeira vez que enviou uma mensagem em código Morse. Foi uma mensagem escondida, quase proibida, para sua professora de educação artística no segundo ano do ensino fundamental, uma mulher que achava belíssima e que tinha os ossos da pulseira levemente salientes. Na aula, a professora lhe pedira que desenhasse o mar.

            Recordou-se que desenhara um mar encrespado, cheio de ondas, com crinas de espuma, ondas longas e curtas, longas e curtas, que se alternavam e cavalgavam e enchiam a folha de papel canson. E as sequencias das vagas encrespadas formavam a mensagem, escondida no mar revolto, que transbordava para sua tutora nas artes. E o mar que desenhou dizia: “O mar é escuro e infinito”.

            Ninguém entendeu o que queria dizer. As pessoas olhavam e viam as ondas. A professora olhou e viu as ondas, mas ninguém enxergou o que as ondas diziam. Somente ele, Genaro, via o mar escuro e infinito abaixo das ondas. Genaro lembrou que, em sua infância, nos anos de código Morse, falou e viveu sozinho, num mar escuro e infinito, como o Merlin de Santiago. O desenho ficou pendurado na parede da sala por alguns dias e depois desapareceu.

            Sentado no banco, com os olhos vendados, chorou. Chorou a solidão que vivera dentro do código que criara para si. As lágrimas escorreram pelas palmas encaixadas em sua órbita. As mãos acariciaram lhe as pálpebras e a face. Genaro abriu os olhos.

Via.


            O olho dentro do olho, de repente, se abrira.