26 de novembro de 2015

O Pequeno Macedônio


Às crianças que, como eu, não entendem as
Estátuas que moram dentro das igrejas.

Eu nunca acreditei em anjos.
Eu acreditava em gente e acreditava em pássaros. Separados. Mas sempre desconfiei daquelas asas, cheias de penas, coladas nas costas de homens feitos na pedra, guardados nos cantos das igrejas.
Quem tinha asas, parecia que estava sempre parado, sem muito lugar para ir. Eu achava que aquilo não devia ser coisa boa. Nem para as asas coladas no homem. Nem para o homem colado nas asas.
Os anjos, para mim, eram invenções de deus que não tinham dado certo, e foram ficando de lado.
Como se alguém, um dia, numa garagem, tivesse tentado colocar duas rodas numa prancha de surfe. Depois de pronta a cirurgia, viu que a prancha deixou de servir para as ondas e as rodas deixaram de servir para a rua. E a prancha com rodas ficou num canto, atrás de alguma coluna, como ficam os anjos nas igrejas. E sempre que alguém passa, se pergunta: “Será que roda? Ou será que flutua?”.
Na minha cabeça, os anjos eram uma geringonça. Um pássaro que não canta colado num homem sem os pés no chão.
Até que um dia eu conheci um anjo e descobri porque eles são essa confusão entre gente e pássaro.
Isso foi quando eu era pequeno. Na minha escola, um dia, chegou um menino da Macedônia. Ele falava uma língua que ninguém entendia.
Nós não éramos amigos. Aliás, amigo, amigo, o Pequeno macedônio não tinha nenhum.
Todo recreio ele saía correndo para o parquinho e sentava-se no último balanço e ali o menino ficava durante todo o intervalo. Sozinho, falando palavras que pareciam inventadas. Tinha pernas curtas, que mal tocavam o chão. Então ele falava balançando as pernas.
Em frente ao balanço do Pequeno Macedônio existia um escorregador amarelo.
Certo dia, nesse escorregador, pousou um pardal e o Pequeno Macedônio meteu-se a conversar com o passarinho.
- “Como se chama, passarinho? Meu nome é Sasko e eu venho da Macedônia. E você, de onde vem?”.
O pardal, que não falava macedônio, não respondeu. Inclinou a cabeça para um lado, depois para o outro e ficou ali, olhando para um lugar qualquer do céu, esperando que o vento mudasse de direção. Enquanto isso, Sasko continuou falando com aquelas palavras inventadas.
Alguém tinha inventado aquelas palavras para Sasko decorar? Ou será que Sasko inventava elas na hora?
- “Eu queria poder voar como você, eu voaria até a Macedônia. Mas eu só consigo me balançar um pouquinho, porque meus pés não alcançam bem o chão”.
Sasko olhou para o lado e viu que as outras crianças balançavam-se bem alto porque uma empurrava a outra. Elas gritavam “Mais alto! Mais alto!”. Só que Sasko não entendia aquelas palavras repetidas. Parecia divertido, só que o Pequeno Macedônio brincava sozinho e as pontas dos seus pés só triscavam a areia.
- “Você pode me ensinar a voar, passarinho? Você empurraria meu balanço se fosse um menino igual a mim?”. Mas o pardal não respondia. Virava o pescoço e prestava atenção no vento.
Foi quando um outro menino se aproximou de Sasko e perguntou: “Quer que eu te empurre?”. Sasko, que só entendia macedônio, não compreendeu uma só palavra. Encolheu-se um pouco porque não sabia o que o menino tinha dito. As palavras podem ter vários significados. Bons e ruins, nem sempre é fácil saber.
Então o menino empurrou um pouquinho o balanço de Sasko e o Pequeno Macedônio sorriu. O sorriso é uma coisa que todo mundo entende.
O novo amigo continuou empurrando e Sasko disse: “Veja só passarinho, eu também estou voando!”. O menino não entendia uma só palavra do que Sasko dizia.
A brincadeira parecia boa, só que esse garoto não era um bom amigo, era um menino que tinha um espinho de crueldade espetado no coração. Entre um empurrão e outro, o menino decidiu fazer medo ao Pequeno Macedônio e começou a lançar Sasko com cada vez mais força.
No começo, Sasko gostou da brincadeira, e disse: “Olhe passarinho, eu também tenho asas!”. Mas logo começou a ficar assustado, porque o outro garoto dava mais e mais impulso e o balanço ia alto demais e rápido demais.
As mãos do Pequeno Macedônio, que seguravam as correntes do balanço, começaram a suar e a cada empurrão elas deslizavam um pouco.
Quando o balanço passava voando perto do chão, Sasko quase sentia os grãos de areia se levantarem e um vazio parecia encher sua barriga. Dava medo ter asas.
O menino que empurrava o balanço começou a se perguntar quando Sasko iria gritar, e quanto ele iria gritar e como ele iria gritar de medo.
Sasko estava com medo. E o medo era tanto que não conseguia respirar. Sentia que seu corpo às vezes se desprendia do balanço. Tentou esticar um pouquinho as pernas para tentar encostar no chão, mas o menor movimento fazia parecer que seu corpo ia cair. As correntes rangiam muito e o outro menino seguia empurrando.
Cada vez que as mãos do garoto tocavam o balanço, Sasko sentia que ia perder o equilíbrio e as correntes balançavam, e suas mãos se apertavam contra os elos de ferro.
O Pequeno Macedônio queria gritar, mas o grito estava engasgado na garganta. Ele estava petrificado, em pânico de cair, de se soltar, do chão, do alto.... Pelo seu corpo passavam calafrios e o outro menino seguia curioso para saber o que sua maldade poderia causar no Pequeno Macedônio.
De repente, Sasko conseguiu gritar na sua língua. “Para! Para!”.  Sasko tinha já os olhos cheios de lágrimas. Mas o outro menino não entendia macedônio e, sentindo que Sasko estava com medo, empurrou mais forte -  pois o espinho da crueldade espetava-lhe o coração. Estava contente em ter ouvido o grito de Sasko.
E então esse menino começou a se perguntar quando Sasko iria chorar e o que faltava para o grito virar choro, e empurrou mais uma vez o balanço.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Sasko, mas saiu voando, porque o balanço estava rápido demais e o vento que o pardal estava esperando tinha começado a soprar. Era um vento que vinha de longe e que o passarinho sabia que iria chegar. O pardal virou a cabeça mais uma vez e, sentindo que o vento mudaria de direção, deu um passinho para o lado.
Sasko não podia ver, nem ouvir, mas sentia que um sorriso de maldade crescia no rosto do menino que o empurrava. Era um sorriso grande e largo que ia tomando conta do rosto do menino a cada empurrão. E o sorriso crescia tanto que uma hora parecia que todo o menino era só esse sorriso e as duas mãos que empurravam o balanço.
E como esse menino com espinho no coração não percebeu o choro de Sasko, achou que ainda estava muito devagar e muito baixo o balanço e então deu mais um empurrão, mas desta vez o vento que o pardal esperava ajudou e também empurrou, e Sasko foi tão alto e tão rápido que as correntes que seguravam o balanço arrebentaram.
O balanço foi arremessado para longe e se espatifou contra o escorregador amarelo do parquinho, onde havia pousado o passarinho. O barulho foi ensurdecedor. As correntes chacoalharam pelo ar durante muito tempo porque o vento agora soprava mais forte que nunca.
O vento era agora uma ventania, que fez todas as crianças saírem do parquinho.
O menino com espinho no coração, começou a procurar Sasko. Ele estava curioso: Queria saber onde o Pequeno Macedônio tinha caído, queria ver se Sasko estava machucado, ou se estava, enfim, chorando. Estava mais curioso que o vento, que fuçava tudo.
Olhou em volta, mas não encontrou o Pequeno Macedônio. Andou ao redor do balanço, perto do gira-gira e nada. Enquanto procurava o menino pensava: “O que será que vai acontecer depois que Sasko chorar?”.
Procurou mais um pouco até que, debaixo do escorregador amarelo, ele viu alguma coisa. A areia levantava com o vento e era difícil de enxergar. Chegando mais perto, ele viu um passarinho morto. Era o pardal, e olhando bem o pardal o menino viu que o passarinho tinha a cara de Sasko. Do lado do passarinho, na areia, o menino viu as gotas de lágrima do Pequeno Macedônio.
E quando ele viu as lágrimas, a curiosidade acabou. “Ele chorou”.
O que iria acontecer depois que Sasko chorasse?
Depois que Sasko chorou, não teve mais Sasko, nem teve mais balanço. As palavras no parquinho voltaram a ser as mesmas. Não havia mais palavras inventadas, nem palavras novas. Não tinha mais o macedônio sem amigos, nem o amigo que ele nunca mais poderia ter.
E o espinho que estava no coração do menino, perdeu a força e secou e caiu. E o sorriso de crueldade que ocupava toda a sua cara diminuiu, e agora era possível até ver o seu rosto.
Não era um rosto cruel. Era um rosto triste.

Sasko tinha asas, mas não podia voar. Não era um menino, nem era passarinho. Era um anjo, uma geringonça que deus colocara no mundo para ajudar aquele outro garoto com um espinho no coração.