24 de dezembro de 2015

Os Ruídos de István

A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.

Adélia Prado

O cerrado é um canto antigo. Parece haver mais passado guardado aqui que no resto do mundo. É como curva de rio leitoso, onde o tempo vai se agarrando pelas margens, marolando em vez de correr ligeiro. É um passado que, de tanto andar arrastado, resvala no presente que chega. É uma antiguidade impregnada na alma de tudo o que habita essas paragens, é um eco que ressoa do oco das coisas.
Perambular pelo cerrado não é como vagar pelas ruas da Europa, o tempo guardado nas esquinas de lá tem uma forma determinada: a História. Esse tempo europeu, histórico, tem cara, tem forma, tem jeito, tem começo e tem fim. O tempo do cerrado não; é como a radiação cósmica de fundo, da origem do universo, um ruído que está em toda parte e em todos os lugares, oscilando da mesma maneira, marcando não um tempo qualquer, específico, mas contando o tempo de todos os tempos, desde o seu início.
A ancestralidade do Cerrado vem de dentro para fora, não está na casca, mas na seiva... As árvores aqui já brotam arqueadas pelo passado acumulado, brotam artríticas e curvadas. O tempo não corre por fora das coisas que nascem no Cerrado, corre por dentro. Ou talvez, simplesmente, o tempo tenha se enroscado, ao longo das eras, nos galhos retorcidos da vegetação, que se espalham como mãos de feiticeiras, cheias de dedos tortos e magros, colhendo o passado, formando esses novelos de pretéritos que tecem o rendado da vida no planalto. Para aonde quer que se vá, há o tempo, envelhecido, envelhecendo.
O chão debaixo de nossos pés... de tão antigo... até a poeira é gasta. Os grãos são pequenos, minúsculos, largados. De tanto que se bateram pelo solo já perderam a forma, o cheiro, a textura, já perderam sua história e até o seu peso. Por qualquer vento eles se lançam no ar. Talvez, um dia, tenham sido montanhas vermelhas, penhascos, desfiladeiros, cravados no chão, que ardiam ao pôr do sol. Hoje, são só o pó.
  E o cerrado é também um velho silencioso. Não sei o que aguarda ou o que contempla, mas o faz quieto. Como o retrato de meu avô, pendurado na parede, como meu pai, como eu. É como se tudo já tivesse sido dito por aqui. E foi dito tantas vezes e de tantas maneiras que também as palavras se gastaram e perderam o som, a melodia, o sotaque. De velhas, viraram um grunhido, um nó na garganta, um ruído abafado, um silêncio.
As palavras, poucas, ditas no Cerrado são antigas. Não circulam por aqui os verbetes novos do idioma. É sempre um falar que já foi falado. E de ser assim, é um falar calado.
Quando cheguei a esse canto do mundo, para trabalhar numa secretaria judicial, tive essa impressão de que tudo já havia sido dito. As paredes ecoavam palavras e frases repetidas, viciadas. Eu é que não as tinha ouvido, então eu faria perguntas antigas, desenterraria dúvidas já respondidas e alguém repetiria as respostas desgastadas... Com a menor quantidade de palavras possível, na fórmula mais enxuta, elaborada ao longo de eras, como a poeira do Cerrado. E depois que essa resposta ancestral fosse mais uma vez ouvida naquele cartório judicial, voltaria o silêncio das coisas já ditas.
Não estava ali para aprender nada de novo sobre a Justiça. A Justiça que tinha para ser aprendida era uma justiça velha, repetida. Os advogados vinham ao balcão perguntar coisas que já haviam perguntado e os servidores levantavam-se para responder respostas que já haviam respondido. Eu estava ali para aprender esse mantra, esse jogo de repetição.
Ainda que tudo debaixo do sol apenas se repita, ainda que esse instante não seja novo, chegamos ao presente de nossas vidas, estranhamente surpresos com o acontecimento de coisas passadas e as vivemos com o frescor e o tremor da novidade. O enfado não pesa sobre a memória, nem sobre o passado. Ele habita o presente que muito se prolonga.
De fardos amarrados com fitilho, sacaram pilhas de processos para que eu os numerasse, naquele primeiro dia de trabalho. Era um batismo, era uma maneira de afundar-me nas páginas da burocracia, em seu mar de símbolos jurídicos. Afundei-me. Os números, infinitos, se repetiam. A caneta corria solta, sem pensar, só seguindo a ordem crescente dos dígitos; petições, despachos, laudos, decisões, agravos, sentenças, até que as folhas do volume se acabassem. E tudo recomeçava. Não havia dúvidas. Não havia perguntas. Então as coisas se davam caladas.
No meio de um desses números, a caneta saiu do traço. Um susto. Um estrondo no cartório interrompeu o silêncio. Foi como se tivessem me arrancado, de súbito, de dentro das páginas. Emergido do transe burocrático, respirei. Eis o batismo. Alguém deixara cair uma pasta de ofícios. O papel pesa. O registro do passado, as palavras velhas, carregam lá sua gravidade. O sacramento burocrático coloca sobre os ombros do burocrata o peso da Máquina, tal qual o batismo põe no lombo do cristão o peso dos Céus.
Olhei o número mal feito, um traço comprido indicava o abalo sísmico causado pelos ofícios. Após a pausa, voltaram todos a seus afazeres. Quem estava ao telefone, voltou a falar, quem folheava algum processo, voltou a pesquisar, quem andava para alguma prateleira, retomou o caminho, quem digitava algum ofício, continuou a frase. Nisso, antes que eu me pusesse a numerar as páginas novamente, um dos funcionários do cartório chegou próximo a minha mesa.
Era a primeira pessoa que me dirigia a palavra como um colega e não como representante da instituição. Até aquele instante eu havia falado com o diretor de secretaria, com o Juiz e com o chefe da seção, que me apresentaram o trabalho, a estrutura física, descreveram a hierarquia, ou seja, eram partes da máquina burocrática arranjando-me dentro das engrenagens.
Aquele sujeito não. Aproximara-se como uma pessoa e não como um cargo.
Chamava-se Aloísio e trabalhava há dezenove anos na mesma função. A fotografia no crachá pendurado ao redor do pescoço – tirada no dia em que ingressara no serviço público – era uma espécie de marcador do tempo. Podia-se ver a distância que separava o rosto de agora e o rosto de então. Aloísio já não era a mesma pessoa. Um daqueles dois rostos se desfigurou com os anos. Teria sido o do crachá ou teria sido aquela cabeça que agora servia de cabide para o retrato antigo?
Dei uma olhada no meu próprio crachá e pressenti que o tempo do cerrado e da burocracia logo fariam de mim um Aloísio, pressenti o futuro tornando-se passado. Em pé, ao lado de minha mesa, esse servidor comentou:
- "Esse barulho, há uns tempos atrás, teria dado problema".
- “Como assim?" - perguntei.
- “Nunca ouviu a história do Juiz István?”.
Como não poderia deixar de ser, uma lenda, uma história antiga, um passado. Provavelmente contada e recontada infinitas vezes naquela secretaria, como uma oração, e que eu, recém chegado, desconhecia. “Não, nunca ouvi”.
- “Foi um dos Primeiros Juízes que passou por aqui, era um húngaro”.
- “Hum.” – resmunguei e voltei a numerar as páginas, sabendo que a história continuaria, por força do hábito, sendo contada de uma maneira específica, litúrgica, invariável, forjada ao longo de décadas, independentemente da quantidade de atenção que eu desse à ela.
- “Quando ele chegou, parecia uma pessoa normal. Igual você, assim. Só que era alto, branco, gordo, bochechas rosadas, entrava na secretaria já suado – o clima daqui castigava aquele corpo adaptado para o inverno – dava bom dia, conversava um pouco, ia para o gabinete e ficava lá.  Quando saía, já no final da tarde, falava alguma coisa, despedia-se de todos e ia embora.
“Não durou três meses; começou a ficar esquisito. A bem dizer, ninguém sabe o que foi. Dizem que foi o silêncio do Cerrado, as frases secas, com palavras murmuradas. O tempo esticado também. A lonjura de casa. Torceram a alma do magistrado, igual torcem o pé de murici. De dentro para fora.
  “Os primeiros sintomas, do que eu me lembro, foram discretos. Diminuíram os cumprimentos, as trocas de palavras. O húngaro passou a cruzar reto a secretaria, suado, direto para sua sala. Resmungava alguma coisa se lhe dirigissem a palavra. Atendia os advogados, quando esses apareciam, mas sempre com respostas lacônicas. Tirava dúvida dos servidores. Nas audiências, invariavelmente, falava. Precisava perguntar o que as testemunhas tinham visto, ou ouvido, não tinha saída, mas perguntava sempre as mesmas coisas, na mesma fórmula, sem palavras novas e com frases curtas. Era o Cerrado lhe adestrando a fala. Fora isso, entrava mudo, saía calado. Era o Cerrado lhe adestrando o silêncio.
Os servidores sentiram a mudança. Sempre sentem, não tem jeito”.
Nesse ponto de sua fala, Aloísio chegou mais perto de minha mesa e falou como se me repassasse um ensinamento milenar: 
- “Porque se o humor do magistrado é igual tempestade, a nossa percepção é igual fio esticado de crina de cavalo. Qualquer variação na umidade do ar e a tensão muda. Você é novo aqui, ainda não percebeu, mas vai ver que é assim. A gente sente tudo no ar, igual bicho.
“Depois disso, o silêncio foi só aumentando. O húngaro decidiu que as dúvidas e os pedidos seriam passados direto para o seu assessor, por escrito, que, no final do dia, iria ter com ele. O Juiz, diariamente, repassaria suas decisões a esse servidor, que disseminaria as informações.
“O assessor acumulava pilhas de bilhetes durante o dia e numerava-os no verso, em ordem crescente. Ao entardecer, com folhas em branco, também numeradas, ia ao gabinete do doutor István, onde lia os bilhetes e anotava as respostas de acordo com a numeração.
“Os demais servidores, é lógico, apertaram o assessor para saber o que estava acontecendo. Não estava acontecendo nada. O doutor István estava apenas adotando um novo método de trabalho, uma nova dinâmica, dizia. Não estava acontecendo nada. Se muito, as decisões estavam ficando concentradas no final da tarde.
“Ao final de três dias nessa sistemática, o diretor pediu que os bilhetes fossem mais concisos porque o Juiz se mostrava irritadiço com mensagens muito longas. A leitura de bilhetes muito extensos estressavam os ouvidos do húngaro. Assim, estabeleceu-se um limite de palavras por bilhete e, para que todos padronizassem as dúvidas, publicou-se uma portaria estabelecendo os critérios a serem adotados na redação de cada nota encaminhada ao Juiz.
“Hoje, olhando para trás, a gente percebe que já era alguma coisa” – explicou Aloísio – “só que na hora, não parecia nada, parecia só um rearranjo da papelada”.
“Mas ainda assim, em alguns casos, quando aquela quantidade de palavras não era suficiente para descrever o problema e formular a pergunta, a gente ia falar com o Juiz lá no gabinete. O húngaro ouvia nossas dúvidas e considerações como se estivesse com dor de cabeça. A mão na fronte, os olhos baixos, respostas secas e curtas. Passou o tempo, veio outro comunicado. Os pedidos e as perguntas, agora, mesmo as mais complexas, tinham que vir por escrito, nada de conversa com o Dr. István no gabinete. Alterou-se a redação da portaria, ampliando o limite de palavras por bilhete ‘nos casos estritamente necessários’. Pouquíssimas eram as pessoas admitidas no recinto do magistrado. Advogados, o diretor de secretaria, o assessor. As determinações eram seguidas à risca, no entanto, ninguém sabia o porquê daquilo tudo.
“A tempestade soprava e o vento, trazendo a notícia da chuva, partia-se no fio da crina do cavalo. Estava todo mundo à espera do caldo entornar.
“Não demorou muito, enquanto ainda nos acostumávamos a redigir os bilhetes naquelas palavras contadas, o húngaro mandou chamar o diretor do cartório. Queria saber que tanto andava ruidosa a secretaria judicial. Parecia ao magistrado que havia aumentado o número de pessoas no cartório, o que não foi confirmado pelo diretor. Então, o húngaro, baixou uma portaria definindo que as mulheres não deveriam trabalhar de salto alto e os homens somente poderiam usar sapatos com solado de borracha, a fim de diminuir o ruído da secretaria.
“A portaria foi publicada no diário oficial numa segunda-feira. Na quarta-feira, o juiz István mandou emendá-la. Foi adicionado um novo artigo à norma, que dizia o seguinte: “As regras acima não se aplicam aos servidores que optarem por trabalhar descalços ou de meias”. Na sexta-feira daquela semana as pessoas já estavam pisando diferente. Tanto homens como mulheres andavam com passos mais largos para diminuir o número de vezes que encostavam os pés no chão e, inconscientemente, as pessoas passaram a ficar mais vigilantes quanto ao andar do outro. 
“Naquela sexta-feira, Adélia, uma estagiária, por esquecimento, veio com sapatos de salto alto. Não chegou à sua mesa e o telefone do diretor tocou. Era o húngaro. Queria saber quem estava descumprindo a portaria. O diretor voltou aflito, explicou a situação, e a menina trabalhou descalça naquele dia.
“No sábado, alguns servidores se encontraram, por acaso, na loja de calçados, pesquisando preços, modelos e solados.
“Na outra segunda-feira o diretor de secretaria foi chamado, mais uma vez, ao gabinete do juiz. Conta-se que o húngaro pediu para ver o solado do sapato do diretor pois não era possível que uma sola de borracha fizesse tanto barulho. Reclamou do barulho da impressora. Na época, havia duas impressoras matriciais na secretaria. Era impossível silenciá-las. Dessa reunião, o diretor de secretaria saiu de meias e com mais uma portaria determinando que fosse colocada sobre a impressora uma caixa de isopor para que se abafasse o ruído das impressões.
“A caixa de isopor mais espessa que encontraram à época foi uma dessas de transportar pescados. Cabia certinho a impressora, mas tinha cheiro de pacu. Lavaram-na como puderam e passaram a imprimir as sentenças, os ofícios e cartas no silêncio daqueles isopores. Pelo cheiro, era como se tivessem pescado as decisões.
“Agora, tendo em vista a dificuldade de se impor o novo tipo de calçado aos advogados e advogadas e também às testemunhas que compareciam às audiências com os sapatos que queriam, foram requisitados tapetes tanto para a sala de audiências quanto para o gabinete do Juiz István.
“A Administração, evidentemente, não mandou os tapetes de imediato. Algum burocrata da capital quis saber porque uma secretaria no cerrado precisava de tapetes. O húngaro, então, solicitou uma perícia técnica das características acústicas da sala de audiência e de seu gabinete. Os resultados foram encaminhados à Administração, que, mais uma vez, não enviou os tapetes, alegando que os resultados técnicos não evidenciavam a necessidade da aquisição.
“István determinou, por meio de outra portaria, que uma nova perícia, mais apurada, fosse feita nos recintos. Um grupo de técnicos da capital foi deslocado até os confins do cerrado para fazer a medição exata dos decibéis saídos dos saltos dos sapatos a que se achavam submetidos os ouvidos que passavam pela sala de audiências ou pelo gabinete. Analisaram-se os sons de inúmeros tipos de saltos e solados. Era curioso ver aquele monte de gente estranha, calçando e descalçando sapatos e andando de lá para cá. Os experimentos, é óbvio, tiveram que ser feitos nos horários em que o húngaro não estava. 
“Os resultados, com inúmeros gráficos e siglas e termos técnicos foram encaminhados à Administração com novo pedido de tapetes. Depois de uma semana de espera, mais uma vez, a resposta foi negativa. Os burocratas da capital não se convenciam da necessidade de se comprar tapetes para amenizar os ruídos da burocracia.
“O juiz, sabendo da nova negativa, por meio de um bilhete ,ordenou ao diretor que lhe trouxesse uma interpretação médica dos resultados dos testes acústicos. O diretor, para atender a demanda, abriu uma licitação para a contratação de alguém que interpretasse os tais resultados. Foram destacados três servidores especialmente para a supervisão do processo licitatório. Ao final, contratou-se um médico otorrinolaringologista e especialista em medicina do trabalho que, por uma pequena fortuna, confeccionou um elaborado laudo explicitando os impactos dos ruídos na saúde dos trabalhadores.
“O húngaro, mais uma vez, solicitou os tapetes à Administração, enviando junto o laudo médico que demonstrava a urgência da aquisição dos itens.
“Reza a lenda que os burocratas da capital, ante a insistência, concluíram que seria mais barato comprar os tais tapetes para o húngaro que pagar as incontáveis perícias para decidir se eram ou não necessários.
“Antes do final do semestre aportou na frente do prédio um caminhão cheio de tapetes. A Administração, por precaução, encaminhou vinte por cento a mais que o total requisitado pelo húngaro. Sobrou tapete.
“Assim, nos lugares de maior trânsito, o juiz determinou que fossem colocados um tapete em cima do outro, para que se abafasse mais o ruído dos passos. Os excedentes deveriam ser colocados no cartório. O diretor de secretaria e o assessor passaram o dia analisando o fluxo de gente, pelo cartório, pela sala de audiências para definir onde os tapetes deveriam ser colocados.
“Durante uma semana o telefone do diretor tocou incessantemente. Era o húngaro definindo, de seu gabinete, o reposicionamento dos tapetes para reduzir, de modo mais eficiente, os decibéis que rondavam o cartório. Perdi a conta de quantas vezes paramos todo o trabalho para trocar os tapetes de lugar. Mas no fim, para te dizer a verdade, tudo ficou mais silencioso.
“Mas aí, começaram outros problemas. Com os sons dos sapatos e das impressoras abafados, outros ruídos passaram a tomar conta do ambiente. As vozes dos servidores e dos advogados, a campainha do telefone, o barulho do folhear dos processos pareciam ter aumentado de volume.
“O ouvido dos servidores, ao longo dos meses, foi ficando apurado. Eu mesmo, Aloísio, que nunca escutei muito bem, passei a perceber cada barulhinho da secretaria. Um cochicho não passava despercebido. Então, quando começamos a achar a campainha do telefone alta e perceber até o barulho das folhas, nós sabíamos que mais uma portaria estava para sair e que o telefone iria tocar.
“Você veja só, a Justiça não é só uma ideia. Não pode ser. Porque uma ideia não faz barulho, não tem som. Foi preciso vir um húngaro trabalhar aqui, na quietude do cerrado, para eu perceber, depois de dezenove anos, que a Justiça é barulhenta, cheia de ruídos e que é difícil silenciá-la. Como Kepler conseguiu ouvir a música dos planetas, vendo-os dançar, eu pude ouvir as notas da Justiça, no silêncio do doutor István.
“Mas, como eu dizia, o doutor István estava decidido, e baixou outra portaria. Mandou trocar todos os aparelhos telefônicos por aqueles de surdo que acendem uma luz ao invés de tocar a campainha. No começo foi o caos, os servidores estavam condicionados a não olhar para o aparelho, mas a ouvi-lo. Choveram reclamações que ninguém atendia o telefone. Inclusive, muitas dessas reclamações não devem ter sido registradas, justamente porque ninguém atendeu o telefone. Diversas reuniões foram feitas para tentar solucionar o problema.
“Havia apenas um estagiário, chamado João, que sempre atendia o novo telefone, mesmo que estivesse longe do aparelho, entre as prateleiras de processos, sem mesmo poder ver a maldita luz piscando. Ele parecia pressentir que alguém chamava e parava o que estava fazendo para ir atender o telefone. Quando estava muito ocupado, avisava a todos, “o telefone está tocando!”. E era batata! Quando olhávamos para o aparelho a luz estava a piscar. Era um dom, um milagre. Foi apelidado de João Batista, por sua capacidade de profetizar as chamadas telefônicas.
“Até que numa das reuniões, pediram a João que explicasse como aquilo era possível. Ao que o estagiário explicou que toda vez que a luz se acendia, indicando a chamada, era possível ouvir um pequeno “tec!” lá dentro do aparelho.
“Ninguém acreditou no estagiário. O pobre pregava no deserto. Mas era a única alternativa que se tinha para resolver o problema dos telefonemas não atendidos. Fez-se silêncio sepulcral na secretaria para que a teoria fosse testada. Ligaram para o aparelho e apuramos os ouvidos aguardando o som profetizado por João. “Fazei Penitência porque está próximo o Reino dos céus”. De fato, a cada vez que a luz se acendia, um levíssimo “tec!” era ouvido dentro do telefone. João estava certo. Não demorou muito, todos os servidores encontravam-se adestrados para ouvir o sinal da chamada, além, é claro, de já andarem com passos largos e calculados para evitar qualquer ruído. Éramos como os cães de Pavlov.
“Na mesma tarde em que os servidores descobriram o segredo de João, a luz do telefone se acendeu, o diretor foi novamente chamado ao gabinete do doutor István. O húngaro estava incomodado com as conversas em secretaria. Mas já não havia conversas, as pessoas sequer se dirigiam umas às outras. O que havia eram sussurros. Só que ainda assim incomodavam o Juiz.
“O silêncio era tanto, que até o murmurar se ouvia com nitidez. Você já esteve no mangue? O silêncio do mangue é assim, silêncio de santuário, silêncio tanto que dá para ouvir as conchas dos mariscos se abrindo.
“O diretor saiu de lá com mais uma portaria, determinando que se falasse no expediente apenas o absolutamente necessário e em voz baixa. Não se elencou na norma o que seria considerado absolutamente necessário. Exteriorizar uma dúvida era absolutamente necessário? Talvez sim, talvez não. Dependeria da dúvida. Um recado deixado por telefone? Um lembrete sobre o registro de ponto? Ninguém sabia estabelecer o que era ou não era ‘absolutamente necessário’. O conceito virou uma ameaça pois a definição, no fim das contas, só viria no momento da pena ou da absolvição. Na dúvida, calava-se. 
“Logo, as portarias começaram a produzir seus efeitos jurídicos. Um estagiário esqueceu de colocar o isopor sobre a impressora e foi advertido, por escrito. Uma servidora riu da piada de um advogado no intervalo da audiência e foi transferida para outro setor. Eu mesmo, Aloísio, um dia, fui carregar um processo antigo, e deixei cair um de seus volumes num pedaço de chão sem tapete. Peguei três dias de suspensão. Cada uma dessas penalidades era antecedida pelo piscar da luz do telefone. O juiz ouvia tudo.
“O silêncio dos outros é um cativeiro.
“Ficávamos atentos sempre a qualquer ruído, aos murmúrios da Justiça, como um refém que não tira os olhos de seu carcereiro. Aguardávamos a próxima portaria. Se alguém ouvia um ruído duvidoso, logo levantava o indicador (era o sinal convencional entre os servidores para expressar a pergunta: ‘Vocês ouviram isso?’), todos olhavam para o dedo e depois para o telefone, à espera da luz se acender. Os dias se arrastavam nessa tensão, medida no pelo da crina do cavalo.
“Um ano depois da chegada do húngaro, uma nova portaria foi publicada. O diretor nos chamou com um gesto para vermos a publicação. Em silêncio, a passos largos e cuidadosos, nos amontoamos ao redor do diário oficial. Eu ainda me lembro do cheiro do jornal. Dizia que o Juiz István havia sido removido para outro Estado.
"Nos olhamos todos, era o absolutamente necessário, e voltamos aos nossos afazeres, prestando atenção no estalo do telefone, cuidando ao folhear as páginas dos processos, vigiando o tom de voz, andando tirando os pesos dos pés. Ao final da semana, o Juiz se foi, sem se despedir, em silêncio. Nada havia mudado de verdade. As portarias continuavam valendo, com toda a força normativa. Continuávamos sob a ameaça de uma insanidade que não era apenas do húngaro, mas que se tornara nossa.
"No fim do expediente eu deixei cair, sem querer, um grampeador no chão. Petrifiquei. Todos os servidores esticaram o pescoço para ver o que havia acontecido. Vi os rostos preocupados, tensos, a respiração presa na garganta. Olharam-me e logo viraram-se para o telefone, aguardando a luz piscar, o “tec” abafado vindo de dentro do aparelho, a chamada do húngaro para saber que barulho havia sido aquele.
"Só que não havia mais húngaro. O doutor István já não estava mais entre nós. E nós sabíamos que a luz não se acenderia e, mesmo assim, parecia que ela poderia piscar. Aguardou-se em silêncio, por uma eternidade, e a luz do telefone permaneceu apagada. Até que uma servidora caiu em prantos, contidos, silenciosos, abafados, cobria a face e soluçava com todo o corpo. Chorou além do expediente, além do absolutamente necessário.
“O silêncio perdurou por anos, até que, um dia, não mais o ouvimos. Os ruídos da Justiça demoram a voltar, voltam aos poucos, sem que a gente se dê conta.
"Essa pasta que caiu agora aí, teria dado problema naquela época. E os tapetes, se você for visitar os arquivos da Justiça, vai encontra-los lá, aos montes, enrolados como pergaminhos, cheios de pó. As últimas provas da passagem do húngaro por aqui.”
Assim Aloísio terminou sua história e voltou à sua mesa. Eu segui numerando a pilha de processos que tinham me passado, ouvindo cada ruído que a máquina burocrática fazia, um ruído que, até então, me parecia ser silêncio.