21 de janeiro de 2016

Jun

      Ao longo da infância, dessa que me resta na memória, quase todas as férias escolares tiveram um só destino, a casa da minha avó materna, que morava na cidade mais quente do Estado de São Paulo.
      O desembarque na rodoviária, fosse dia ou fosse noite, era sempre como se meter na frente de um forno aberto. A baforada, corpulenta e com vontade, alcançava-me ainda na escada do ônibus.
      Sentia-me como uma moeda que o diabo tivesse pinçado de dentro daquela condução apinhada de almas e que ele agora botava na frente da boca semiaberta para soprar e depois dar um lustro, esfregando o tostão baforado entre o indicador e o polegar.
      O sopro cálido era um abraço sem corpo, sem aperto, sem braço, sem mãos. Era um abraço que não relava, mas envolvia. O hálito do diabo me rodeava, depois me engolia. A água que cercava a cidade e deixava o ar sempre úmido, diziam, era muito rica em enxofre, que fazia o pelo ficar brilhoso e a pele lisa – coisa do demo.
      Mas eu não ligava lá para o tinhoso. Eu tinha sido batizado naquela cidade e mesmo sem ir muito às missas, minhas tias, devotas, davam testemunho de que eu fora benzido conforme a tradição e que minhas culpas e pecados estavam purificados. Meu corpo estava fechado.
      Viesse o calor de onde viesse, ainda dentro do ônibus, eu sacava os casacos e entrava no bafo.
      E era pisar no chão da rodoviária que o ar quente e úmido se apertava contra o rosto, como uma esponja áspera e grossa que ardia a pele e me arrancava uma careta. Não duvido que fosse o diabo lustrando o tostão encontrado. Deixa ele, que o corpo é benzido! Dois segundos depois, a careta virava um sorriso; estava de férias. Era assim que eu chegava em Pereira Barreto, numa baforada.
      Na casa dos parentes tinha sempre, e antes de tudo, que cumprimentar a matriarca, minha avó materna, num ritual que a cada viagem se repetia criando, ao longo dos anos, uma pequena tradição pessoal entre mim e a anciã.
      Todas as vezes que me via diante daquela senhora algum parente que me acompanhava dizia: “Obachan, sabe quem chegou? Sabe quem é ele?”.
      A velha mulher olhava para mim por alguns segundos – longos e longínquos segundos – e respondia.
       Não me recordo de ela ter acertado a resposta uma única vez sequer. Tudo o que é lembrança que tenho de minha avó é de uma pessoa idosa, esquecida de um bocado de memórias, inclusive das que pudesse ter de mim.
      Suspeito que Obachan tenha morrido sem saber quem eu era. Havia um fosso em suas recordações onde eu sempre caía e do qual nunca logrei sair. Era uma fenda funda demais e escura demais, onde a luz da memória não alcançava o leito… por mais que ela olhasse, longamente, e vasculhasse aquela cratera, não me via. Olhava, mas só enxergava o que encontrou Dante à beira do abismo do Círculo Primeiro do inferno:

“Escuro e profundo era e nebuloso,
tanto que, por volver o rosto ao fundo,
lá nada distinguir era forçoso”.

       Cada uma das vezes em que eu fiquei diante da matriarca da família, cada uma das vezes que lhe perguntaram se sabia quem eu era, cada uma das vezes que ela parou longos instantes para vasculhar sua memória esburacada, fitando-me com seus olhos pequenos, ela acabou supondo que eu era “Jun, filho de Esther”.
        Meu nome é Henrique e minha mãe se chama Lilian.
       Alguém sempre a corrigia, ela parecia se lembrar de alguma coisa naquele sentido “Ah! Henrique… a Lilian já tem filho desse tamanho?”, mas eu logo voltava para o fosso de suas lembranças. Dava-lhe um abraço e beijava-lhe a face enrugada.
       Minha avó tinha uma pele fresca. Sempre achei os corpos dos velhos mais frios. Suponho que sejam moedas que o diabo não se dá mais ao trabalho de baforar e lustrar.
       No mormaço daquela cidade, Obachan era essa árvore, de tronco enrugado e sombra constante, onde a temperatura era sempre mais amena. De tempos em tempos eu me sentava embaixo de sua copa, mas ela não se dava conta de que eu estava lá. Não sabia que eu era um fruto de seus galhos, de suas raízes, de sua seiva.
       Ela não sabia que eu também, do fundo do abismo de suas lembranças, a olhava, por longos instantes, tentando descobrir quem era aquela senhora, que nunca me reconhecia e, ainda assim, era minha família.
       O calor da rodoviária e o frescor da pele trincada de Obachan sempre marcaram a chegada a Pereira Barreto. Isso e a tradição de nos olharmos sem nunca nos vermos. “Jun, filho de Esther”.
        Agora, minha mãe tem uma irmã chamada Esther, que tem um filho chamado Jun.
         Minha avó me confundia com um primo.
        Jun era parente, só que era desses parentes distantes. Não falo de uma lonjura genética, não. Nem de distância religiosa porque, se não me engano, em meu batismo, nesse que fechou meu corpo para o calor de Pereira Barreto, ele foi o padrinho. Ele testemunhou a purificação das minhas culpas e pecados e deve ter se comprometido a guiar meu espírito naquilo que meus pais faltassem.
         Deve, porque eu não me lembro, mas minhas tias dizem que eu fui batizado de acordo com as tradições. Assim sendo, ele devia ser uma classe de guia espiritual, um Virgílio de Dante, um mateiro da selva moral. Mas como eu nunca me atinei para essas formalidades religiosas, não tenho certeza se foi ele mesmo… Convenhamos, nem mesmo Dante reconheceu Virgílio quando este lhe apareceu no deserto:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

        O caso é que o afastamento da gente era de outro tipo. Era um desencontro de caminhos. Nossos tempos eram outros e eram outros também os nossos espaços. Jun era mais velho que eu, uns doze anos, talvez, não sei. Mais? Menos? Até hoje não sei sua idade, e sempre morou em cidades diferentes. Acho que não nos encontrávamos porque éramos estranhos um ao outro. Não tenho muitas recordações com esse primo.
        Uma das poucas lembranças que guardo, já meio apagada, é dele falando a respeito de frutas.
       Ele não falava de frutas como as pessoas normais: o preço do quilo da maçã, o sabor do melão, se está verde ou maduro, se tem agrotóxicos, se é época, quais vitaminas têm, nada disso.
        Jun era engenheiro mecânico e quando falava de frutas ele desfrutificava a coisa toda. Elas perdiam o sabor, a época, os preços, as propriedades medicinais, as calorias e se transformavam em problemas matemáticos, em variáveis e incógnitas. Dado um certo estado de coisas, como era possível saber o peso do abacate e o volume da melancia?
        Se não me engano, nesse dia esfumaçado na minha memória, ele tinha acabado de voltar de uma seleção de doutorado para a Universidade de Michigan e explicava um dos problemas matemáticos que teve de resolver.
        Eu estava no início da minha adolescência e não entendia nada do que ele dizia. Nada, além do nome das frutas.
        Fiquei estarrecido, meio abestado. Tentava prestar atenção em cada palavra daquela conversa e eu sabia que falava em português, sabia que se tratava de um punhado de frutas, mas era incapaz de entender o que, efetivamente, estava sendo dito. Como era possível eu não entender uma história sobre frutas?
        Para mim, Jun falava de um outro mundo, tão diferente, que nem as frutas eram as mesmas.
        Enquanto ele falava, ria.
        E não era um sorriso de algo engraçado ou um sorriso irônico. Suspeitava que fosse um sorriso de prazer, de contemplar e compreender esse tempo e esse espaço onde os abacates e melões eram de outro sabor.
       Quanto a mim, eu passava alheio ao que ele falava, mas lembro-me que, pela primeira vez em minha vida, eu me dei conta de que existiam outros mundos, com outras possibilidades e que se eu encontrasse um mundo igual Jun havia encontrado o dele, até um abacate colocaria um sorriso em minha cara e eu falaria apaixonadamente sobre melancias.
        Jun me mostrou que existia esse tipo de... amor, acho que é a palavra. Um amor que para você sentir, tem que antes criar um mundo e depois se apaixonar por ele. 
         Por isso, pertencíamos a mundos diferentes. Sempre pertencêramos. Jun tinha o dele e eu, adolescente, tinha o que me deram.
         E de serem as coisas assim, encontrava-me mais com Jun nos esquecimentos de minha avó, em Pereira Barreto, do que na vida. Na mente desgastada da matriarca era onde nossos caminhos se entroncavam. “Jun, filho de Esther”. Em Pereira Barreto, nos longos olhares de minha avó, guardados pelo corpo fresco e enrugado, eu me encontrava com uma família que eu não conhecia. “Jun, filho de Esther”.
         O esquecimento, ao seu modo, também aproxima quem está distante.
        Acontece que depois que minha avó morreu – e isso vai mais de década – nunca mais me chamaram Jun. E então esses encontros que eu tinha com meu primo no calor diabólico de Pereira Barreto, protegidos pelo batismo e pelo frescor da pele de Obachan, foram enterrados com a matriarca.
         Nossos mundos se apartaram de vez pela década que se seguiu.
         Ano passado, Jun, filho de Esther, faleceu.
        Quando soube de sua morte, senti como se a família que nunca cheguei a conhecer tivesse aumentado.
        Sentei-me para tentar lembrar quem era essa pessoa imprecisa que eu só encontrava no olhar longínquo de minha avó. Cavoquei a memória, busquei partes, resquícios, rastros, mas não logrei montar uma pessoa inteira, uma memória completa e, como Dante, gritei:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

         O ano virou e concluí que só tenho uma memória realmente nítida de meu primo.
         Dois anos atrás encontrei-me com Jun. Em Pereira Barreto. Pela primeira vez na vida, nossos caminhos se cruzaram nessa cidade sem o intermédio de Obachan.
         Estávamos na cidade para o Bon Odori, uma celebração japonesa em homenagem aos mortos.
         Enquanto as pessoas dançavam em círculos e cantavam canções repetidas infinitamente, numa mímica da eternidade, ele tentou me explicar o que estava pesquisando em seu trabalho, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
        Como no caso dos volumes e pesos dos melões e melancias, não entendi muito bem o que ele queria dizer. Jun falava de um futuro e de um estado de coisas que ainda não existia. Era um mundo possível, que precisava ser construído teoricamente, para depois ser percorrido. Mas Jun falava como quem fala de uma praia que está logo ali, depois da primeira quebrada para a direita e só não pode ser vista porque ainda não chegamos na curva. E esse estado de coisas que existia em sua cabeça o entusiasmava, como se ele já sentisse o cheiro do mar, a brisa e a areia.
         Enquanto ele falava, ao sons do taikô e dos garçons transitando com tigelas de comida japonesa, Jun sorria. Era o mesmo sorriso de contemplação de um mundo onde os melões e abacates são diferentes, Jun olhava para o seu mundo, para um tempo e um espaço que eu não enxergava, e sorria… com uma tigela de Udon à sua frente.
          E com esse sorriso, como quem tentasse explicar a estranheza do que lhe passava na mente, ele me disse: “O que eu pesquiso só vai ter aplicação na indústria, se tiver alguma, daqui a pelo menos quinze anos”.
         Quinze anos. A quebrada para a direita estava longe.
         Quinze anos era muito mais tempo do que os médicos lhe haviam dado de vida. A doença o levaria antes: em dois.
         E eu pensei comigo: “Falta chão até a curva. Talvez Jun não veja a praia”.
         E, no entanto, enquanto o Bon Odori se espichava pela noite quente de Pereira Barreto, ele contemplava o que havia me dito e sorria um sorriso satisfeito. Os quinze anos que a vida não lhe daria, ele os tinha diante de si, realizados, concretos, como uma tigela de Udon.
         Não tenho certeza se Jun foi meu padrinho de batismo. Suponho já ter ouvido algo nesse sentido em conversas de família, mas nunca me atinei. O que acontece é que, talvez, no dia em que me livraram de minhas culpas e pecados, à beira da pia batismal, ele tenha se comprometido a guiar meu espírito onde meus pais faltassem.
         Se lhe impuseram esse fardo, bota aí que ele cumpriu o acordado.
        Vá lá que nossos caminhos não tenham sido trilhados juntos, ou que jamais tenhamos nos conhecido, mas ele apontou como é que se abre uma picada na mata fechada. Ele sabia ler os rastros de outros mundos para além de onde esse mundo se esgota. Mateiro velho, ensinou-me a ver mundos. Jun, filho de Esther, tornou-se um Virgílio, que disse a Dante:

“que tu me sigas e serei teu guia,
daqui levando-te a lugar eterno (...)”
      
           Obachan, no abismo de sua memória, enxergava mais do que eu supunha.
         A velha era danada. Naquela escuridão toda dos buracos de sua memória, quando lhe perguntavam se me reconhecia, não se dava ao trabalho de responder quem eu era; ela, mais do que ninguém, sabia olhar as fendas de suas lembranças, então dizia logo é de quem eu precisava; e me indicava, todas as vezes, o mateiro certo da família para me ensinar a abrir minhas próprias trilhas, o meu padrinho.
          Obachan repetiu a resposta a vida inteira, na esperança que eu entendesse, na esperança que aquilo me entrasse na cabeça: “Jun, filho de Esther”.