25 de fevereiro de 2016

Ondas Gravitacionais

A detonação rasgou a noite e o mundo.

-Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Mia Couto


       Vejo nascer na tela do computador um borrão, que logo ganha os contornos de um menino de três anos. As pausadas e gordas notas musicais – sempre as mesmas, intercalando graves e agudos – indicam o raiar de uma chamada de vídeo. A luz se ajusta, a imagem adquire nitidez. O menino ganha um rosto e uma voz.

         Sorrio ao vê-lo. Sorrio todas as vezes que o vejo surgir desse embaralhamento de pixels.

       Os limites da câmera digital são estreitos demais para aquela criança que se forma na janela do aplicativo, logo ele escapa e sai da imagem. Vejo seu vulto passar e, após alguns instantes, retornar para o mundo miúdo da câmera. É meu sobrinho, Pedro, que segura um pequeno cobertor azul.

        - O que é isso na sua mão? - pergunto e a pergunta se perde na tela vazia, inanimada.

      Pedro já sumiu de novo do vídeo. Não nasceu para viver numa baia, dentro das apertadas margens impostas por uma webcam. Vive solto. O enquadramento da câmera, as bordas da imagem, ainda não são cercaduras para ele. Um dia, certamente, vai esquecer que foi tão livre e não sentirá falta do mundo que desborda da imagem e, então, nesse dia triste, o espaço daquele minúsculo olho digital irá acomodá-lo confortavelmente. Infelizmente. Mas não agora. Agora a baia não lhe basta.

      - É a naninha – responde ainda fora do quadro.

       Dali um segundo reaparece com o cobertor azul. O traz junto ao peito. Seus dedos, que ainda estão brotando, se afundam no tecido. Para na frente da câmera, aperta o cobertor e se vai.

       Naninha é o sono de Pedro. Carrega aquela coberta azul como se fosse uma parte de si. Como se largar aquilo significasse nunca mais dormir e perder os sonhos e o acalanto do descanso.

       Na tela do computador, enquanto aguardo que retorne, vejo um pedaço do cômodo da residência de meu irmão. Olhando para aquela fatia de uma parede estática, lembro de minha infância.

        Lembro? A lembrança é um vestígio muito vago, quase invisível, quase inaudível.

      Eu também, na pré-história de minha meninice, carregava algo junto ao meu peito. O que era? Um lenço? Um cobertor? Um filhote de cão ou de gato? Meus dedos se afundavam naquilo, como se fosse uma parte de mim. Como se perdê-lo, fosse perder-me de mim. O que era?

        A imagem quase se forma na memória, mas antes que ganhe contornos, se desfaz.

     Parece algo tão distante, um evento ocorrido há bilhões de anos. Sinto como se eu tivesse me agarrado aquilo antes mesmo de eu nascer, antes mesmo de nascer o mundo. Aquela textura entre meus dedos, sentia-a como uma coisa que sempre existiu. O que era?

       Ah, sim... Não lembro a cor, o tamanho ou o cheiro daquilo, mas lembro que era uma tristeza.
Eu tinha uma tristeza, como Pedro tem sua naninha. Eu a carregava para todo o lado. Trazia-a junto ao meu peito, segurava-a com meus dez dedos, como se fosse parte de mim. Isso há bilhões de anos.

      De tudo, de tudo, lembro que essa tristeza crescia, mas crescia diferente das coisas que crescem. Porque tudo o que cresce, cresce para fora, para o alto, para os lados, cresce ganhando espaço, como as árvores, como a História, como o Pedro. Mas essa tristeza não, essa tristeza ela crescia para dentro, como se diminuísse, mas, na verdade, estava é adensando.

       É difícil explicar, mas era desse jeito que era.

       Quanto mais ela crescia, mais eu tinha que fincar meus dedos para que ela não me escapasse.

      No fim, essa tristeza cresceu tanto para dentro de si, que o seu dentro ficou pequeno. Ficou tão pequeno que, para continuar crescendo, a tristeza caiu para dentro de mim. Ela precisava de um outro dentro. E nesse desabar, abriu um furo na minha alma.

       Foi um mergulho. Nunca mais a vi.

       O que sobrou dela foram as marolas do seu pulo para dentro do meu dentro.

       Essas vagas se espalharam pelo meu espírito, enrugando a sua superfície.

       Hoje, bilhões de anos depois, lembro-me desse evento ancestral e sinto que me esqueci como era aquela tristeza.

      Pedro passa pela tela do computador, com a coberta entre os dedos, arrastando-a pelo quarto. Sorrio, vejo de novo a parede sem movimento.

      Sentado na frente do notebook, contemplando a superfície tranquila dos meus pensamentos, não vejo nenhum vestígio do naufrágio daquela tristeza para as profundezas de mim. Não há nada, ao menos na superfície, que indique a ocorrência daquele trágico acontecimento. Anos luz nos separam. É como se não tivesse acontecido. Como se a tristeza jamais me tivesse navegado. Como se nunca tivesse sucumbido ao próprio peso.

       Numa das janelas do navegador, ao lado da janela por onde espreito meu sobrinho, um sítio de notícias informa que, nesta semana, foi ouvido o barulho de um buraco negro.

      Uma estrela morreu e caiu para dentro de si, há bilhões de anos. As ondas desse afundamento chegaram aos ouvidos dos cientistas. As imagens que ilustram a reportagem são lindas, seduzem-me. Pego-me detido por longos instantes contemplando aquelas fotografias. Vejo nelas a tristeza que esqueci.

     Como eles podem ter ouvido um naufrágio tão distante? Como eles podem saber que o que ouviram foi realmente aquele naufrágio e não outra coisa qualquer? Como?

       Despeço-me de meu sobrinho e desligo o aplicativo. Um acorde distorcido e gordo marca o fim da conexão.

       Clico na notícia para saber mais sobre esse evento astronômico.

       Construíram, durante décadas, um ouvido nos Estados Unidos para ouvir somente esse tipo de naufrágio. Um ouvido seletivo, isolado do mundo, capaz apenas de sentir as marolas das estrelas que se afundam para dentro de si.

       Lendo a reportagem, acho curioso o método científico utilizado para dar vida a esse órgão de escutar. Tiveram, antes de tudo, que ensurdecer o ouvido. Só depois de surdo ele passou a escutar as ondas gravitacionais. Levaram mais de quarenta anos para fazer um ouvido deixar de ouvir. Quarenta anos para lapidar o silêncio.

       A ciência é cruel com os sentidos.

       Primeiro, esse ouvido foi ensurdecido para os sons do ambiente, os carros, os pássaros, o uivo dos lobos, as vozes, mas ele ainda ouvia outros barulhos. O ouvido escutava o ar, quando o ar se mexia. Então, sufocaram aquele ouvido e colocaram-no numa câmara de vácuo. Mas o ouvido ainda ouvia. Como Beethoven, esse ouvido mecânico escutava as vibrações da Terra e das ondas do mar, sentia o tremor de suas notas. Por isso, tiveram que ensurdecer o equipamento para todas essas coisas, e ele deixou de ouvir o mar, a rotação da terra e a dança das placas tectônicas, o coração do planeta. Só que o ouvido ainda não estava surdo para tudo. Ele podia escutar as ondas de rádio e as ondas eletromagnéticas de um trovão do outro lado do oceano. Quanto mais surdo ele ficava, quanto mais o afundavam no silêncio, mais ele parecia ouvir. Daí deram um jeito de ensurdecê-lo também para essas ondas invisíveis que vagueiam pelo mundo.

        Então, depois de toda essa violência e depois de quase meio século de segregação, o ouvido ficou só, afundado no mais absoluto silêncio, no cárcere da ciência. E, nessa falta de mundo, ele ouviu alguma coisa, ouviu o ruído de uma estrela quando caiu para dentro de si. Ouviu o mergulho de um sol, acontecido há bilhões de anos.

        O ouvido, agora, só ouvia os mortos.

      Penso em minha tristeza. Que se afundou há tanto tempo para dentro de mim. Imagino se eu conseguiria ouvir as ondas de seu naufrágio.

      Talvez, para escutá-las, eu tenha antes que ficar surdo para as coisas do mundo. Talvez, para escutá-las, seja preciso essa violência científica, essa segregação, esse encarceramento… Talvez tenha que ensurdecer-me para a terra, para chuva, para o vento, para as ondas do mar, para o uivo dos cães, para os acordes das chamadas de vídeo que anunciam as palavras de Pedro.

        Talvez, para ouvi-las, tenha que construir, por quarenta anos, esse cárcere silencioso.

        E o que é tudo isso, essa surdez, senão cair para dentro de mim e tornar-me a tristeza que tanto tento escutar?