17 de maio de 2016

O Urim e o Thummim

“God does not play dice”.

Albert Einstein

    Houve um tempo em que Deus forneceu respostas às perguntas dos homens.

   Ah, sim... Esse tempo existiu; quando criador e criatura tinham ainda algum assunto em comum, quando ainda habitavam o mesmo mundo, dividindo suas angústias e suas necessidades, quando ainda precisavam falar entre si.

    Isso tudo foi antes de se afastarem, de tornarem-se estranhos uns ao Outro, de estarem sempre em cômodos distintos, desviando os olhares, evitando os trajetos alheios... Antes de se tornarem mutuamente desnecessários. Mas esse tempo de conversas existiu… entre o Gênesis e o Deuteronômio.

    Foi, por certo, um período de dúvidas e incertezas, de ambos os lados. Para onde ir? O que fazer nesse lugar recém-criado? Como habitá-lo? Como ser no meio de uma criação desprovida de sentido? Como inventar os sentidos? Os homens perguntavam, erguendo os braços aos céus, porque verdadeiramente desconheciam as respostas. Estavam sós em suas dúvidas. E Deus respondia para certificar-se que seria ouvido como a única verdade. Estava só em suas certezas.

     Eram duas grandes solidões que se enxergavam uma na outra, num mundo que ainda ecoava como um lar desabitado, sem mobílias, sem quadros ou esculturas, sem lembranças. E uma solidão não queria ser a outra, supondo-se menos só, supondo bastar-se.

    Homens e Deus escoravam-se em ombros estranhos para não mergulharem no isolamento alheio. Os homens, porque Deus lhes parecia muito profundo e não sabiam nadar. Temiam o afogamento. Deus, porque os homens lhe pareciam muito rasos e não poderia afundar. Temia fraturar-se na falta de fundo humana. Para se manterem afastados, apoiavam-se um no outro, como lutadores de Judô.

    Nesse medo mútuo, de desequilíbrio, tremiam, tocavam-se, agarravam-se, olhavam-se nos olhos, fitando órbitas vazias e precisavam comunicar-se de alguma forma para não caírem.

    Houve um tempo em que os homens bailaram com o criador ao som das esferas celestes, na sala de um mundo vazio.

    Muitas gerações passariam antes que Deus desse seu salto de fé e mergulhasse na rasura humana, tornando-se carne, dando cabo ao baile.

    Mas nessa época de inseguranças, da qual lhes falo, Deus ainda agarrava-se para não cair e ponderava muito suas palavras. Quem é só precisa ser safo. Não podia ser mal interpretado, pois um passo em falso dos homens poderia significar a sua queda. Por isso, nesse tempo, somente dava respostas diretas a perguntas específicas. As respostas de Deus eram despidas de enigmas.

    Ouvia-se Deus, não pela boca de um cristo. Não. Mas por pedras… as respostas eram sólidas e firmes, tão firmes que nelas se podia apoiar.

    Muito antes de falar por parábolas, para aqueles que tivessem ouvidos para ouvir, muito antes de falar para a imensidão surda do deserto, Deus falou a quem lhe dirigia perguntas inequívocas e que exigiam uma resposta determinada.

     Mais que ter ouvidos para ouvir, era imperioso querer questionar.

    Isso porque também os homens se equilibravam para não cair. As perguntas e a interpretação das respostas garantiam-lhes o equilíbrio que precisavam para não mergulharem nas profundezas do criador. Não queriam palestras ou divagações, queriam respostas. 

    Ah, sim... este foi um tempo em que Deus falou para homens que não eram como nós e para uma fé que não se assemelhava a esta que se professa hoje. Falou para homens que duvidavam com todas as suas forças e com todas as suas forças acreditavam.

    Como Jacó quando, às margens do Rio Jaboque, lutou com Deus.

   Na capoeira com o divino, levantando pó no breu de um mundo recém-criado, numa luta que varara uma noite sem fim, antes de romper a aurora, Jacó – ferido no ciático – gritou: “Não te soltarei se não me abençoares”.

   Somente uma alma que deseja uma resposta honesta suporta o parecer das pedras.

  Aos que sabiam perguntar Deus tinha duas respostas: Sim… ou Não. Nesse tempo em que os homens eram senhores de seus problemas, Deus falava pouco.

  E essas duas únicas palavras de Deus, por demasiado curtas, eram lidas em um par de rochas chamadas “Urim” e “Thummim”, que, segundo consta nas Escrituras, iam penduradas no peito de Aarão, cobrindo-lhe o coração. Cabiam na palma de um homem e eram lisas, polidas pela eternidade, mais antigas que o mundo, porque precederam o mundo… “No princípio era o verbo...”.

   Talvez aquelas pedras tivessem sido montanhas, planetas, polidos à exaustão até adquirirem aquelas precisas feições rochosas das palavras de Deus… o “Urim” e o “Thummim”.

   O verbo, muito antes de fazer-se carne, foi pedra. “Urim”, do babilônio, significa comando ou ordem. “Thummim”, oráculo.

    Essas pedras tinham a forma de dados, cada uma com seis faces. Eram a voz de Deus, estavam no mundo muito antes do próprio mundo. Feita a pergunta, eram lançadas e quando pousavam no chão, o criador falava. Sim ou não. Apenas.

     Agora, falar pouco não significa pouco falar.

   Isso, acredito, é o que há de mais interessante nesse jogo de dados lançado por Deus. As duas pedras, como já disse, tinham cada uma seis faces. Assim, cada vez que se lançava o “Urim” e o “Thummim”, tinha-se trinta e seis possíveis combinações.

    Deus tinha trinta e seis formas de dizer sim e outras trinta e seis maneiras de dizer não. Para cada uma das perguntas formuladas pelos homens havia um sim, ou um não específico. Interpretar as pedras era um sacerdócio.

    Com a queda de Jerusalém, em 586 a.C, sob os destroços do templo de Deus, perderam-se os dados.

    Nunca mais os encontraram e sobreveio o silêncio secular.

   Milênios depois da jornada bíblica dos dados de Deus, coube a mim encontrar o “Urim” e o “Thummim” perdidos.

    Tinha meus cinco ou seis anos de idade. Foi por essa época que comecei a perceber que haviam águas profundas nas quais eu não poderia cair… era o mundo inacessível de meu pai, onde eu não saberia nadar, um mundo introspecto, intimidador e que parecia olhar toda a criação de cima para baixo.

    Também por essa época, dei-me conta que meu universo era, até certo ponto, refratário àquele homem. Minhas dúvidas eram-lhe mais distantes que a origem do mundo.

     No interior de um automóvel, no inverno de Curitiba, evitávamo-nos.

    Como os primeiros habitantes de um mundo recém-criado – desse cosmos infinito da relação pai e filho – não nos conhecíamos. Éramos estranhos um ao outro.

    O que significávamos nesse universo? O que devíamos fazer? Como deveríamos ser? Como ser pai? Como ser filho?

   Tateávamos, buscando no outro quem deveríamos ser. Pai e filho... eram conceitos vazios que precisavam ser preenchidos. Assombrava-nos a solidão da criação, lançando sobre nós a penumbra de uma ignorância milenar, de um pavor original.

    Eu perguntava sem saber ao certo como um filho deveria perguntar. Meu pai respondia sem saber ao certo como um patriarca deveria responder.

     Estávamos sós em nossas ignorâncias.

    No carro, meu pai dirigia lançando-me, ocasionalmente, olhares pensativos, que logo se desviavam e se espichavam pelo asfalto que se estendia à nossa frente. De meu assento, eu erguia o pescoço para ver para onde aquele olhar tinha ido, depois voltava às minhas tralhas.

     Éramos duas solidões habitando um mundo recém-criado.

     As conversas tinham a extensão temporal de um lance de dados que, ao fim, sentenciavam: Sim ou não.

    Meu pai falava pouco. Era um oráculo. E aquelas respostas binárias frustravam-me. E nessa frustração dediquei-me ao sacerdócio tal qual Aarão; aprendi a ler as inúmeras faces de cada sim e de cada não.

     Um sim com um sorriso era diferente de um sim cansado. Um não desapontado era diferente de um não respeitoso.

    Um não introspectivo podia significar: “Isso não é para mim, não me diz respeito, mas nada impede que seja algo importante para você”.

     Um sim condescendente, por sua vez, podia significar: “Se quiser, faça, mas você acredita mesmo que é isso que você quer?”

     Haviam inúmeras manifestações do binômio, trinta e seis formas de se dizer sim e outras trinta e seis formas de se dizer não.

    Do banco do carona eu contemplava as palavras que ecoavam no interior frio do carro e tentava desvendá-las, pelo seu tom, pelo instante em que haviam sido ditas, pela respiração que as precedia ou sucedia, pelo tipo de silêncio que as anunciava ou as sepultava…


   E assim, aos poucos, milênios depois da queda de Jerusalém, desenterrei o “Urim” e o “Thummim” dos escombros da cidade de Deus.