27 de outubro de 2016

O Poço

Move-se toda uma cidade, mas não se move um poço.”

I Ching

     Sobre o chão duro e seco caíram as picaretas, as pás e os homens. Os homens e suas ferramentas… Onde uns acabavam, onde as outras começavam, não se distinguia, como no quadro de Braque.
         Estavam todos imbuídos num destino – todas as coisas, todos os seres, todos os seres das coisas, todas as coisas dos seres, todo o ser dos seres, todas as coisas das coisas. Ao todo, o que se tinha ali era tudo e tudo tinha como destino o fundo.
        Cavavam um buraco no mundo. Braços, carnes, ferros, cabos, pernas, paus, ombros. Desabavam sobre a rasura impenetrável do solo e a cada golpe, um novo fundo.
           Os metais gritavam contra a dureza do que é raso.
           E as rasuras se iam amontoando ao redor do fundo.
           E os homens e as picaretas e as pás, sujos de terra, se afundavam no próprio destino.

          No solo seco, povoado de pedras, procuravam água.
          Não sabiam quando o fundo seria fundo o bastante.
          Ao meio dia, começaram a descer baldes amarrados pelas alças por cordas puídas, para retirar o raso de dentro do buraco.
        As cordas dobravam-se e abriam sulcos nas beiradas do furo feito na terra, como rugas numa pele ressecada. Os baldes voltavam pesados de rocha e seca. 
          A aridez era ampla e era também funda.
         Olhei para dentro do buraco e o sol já não alcançava os homens que buscavam seus destinos. Não mais se divisava o que era o que, o breu da terra os engolira.
          E a terra tem uma escuridão particular, que não é só a falta de luz… é um escuro de entranhas, como se estivéssemos dentro de um bicho vivo, é um escuro que nos sente. Quem já esteve fundo o bastante numa gruta, conhece a sensação. De vez em quando, é possível sentir o breu se mexer.
          Lá no fundo das vísceras, ouvia-se o barulho dos metais contra o chão duro.
          Afundavam-se os homens e suas ferramentas.
          De tempos em tempos emergiam dois corpos empoeirados e suados, arfando, e logo outros dois se abismavam para continuar enchendo os baldes de terra.
        Eu tinha, então, oito anos e começava a duvidar da empreitada. Via a mesma dúvida nos rostos dos homens que despontavam exaustos de dentro do buraco, no som das picaretas, no modo como as pás se inclinavam, nos baldes amassados cheios de terra seca, nas cordas tensionadas, mas aos oito anos, sentia que duvidava sozinho.

         Eu estava excluído daquela atividade de homens adultos com ferramentas. Eles estavam todos unidos entre si, pelo mesmo destino, pelos mesmos receios, pelo mesmo cansaço e o que os unia, não me alcançava.

         No meio da tarde, um grito. Colocamos todos nossas cabeças dentro da boca daquele buraco. No fundo, segurando uma pá, enxerguei meu pai. Os homens, ao redor do furo, olharam em silêncio para o abismo, como se qualquer barulho os atrapalhasse a enxergar. Logo avistaram algo e o grito se replicou.
          Eu forçava a vista, mas só via o breu. O que todos eles viam que eu não? De repente, lá no fundo da terra seca, no escuro, um brilho. Você olha, mas não tem certeza do que vê. Era a água que minava. Uma água impossível.

        Os homens, as ferramentas, os baldes e as cordas comemoravam, sibilando soltos pelo ar. “Encontraram-se”, pensei. “Era o encontro com o destino”. Um destino do qual eu não participara, um que não me pertencia, não me alcançava. E no meio daquela alegria, aos oito anos, senti-me só e sem rumo.

         Entre esse evento de minha infância e o que lhes quero narrar, passaram-se dez anos… uma silenciosa adolescência.
       Lembro-me ainda dos ruídos dos ônibus e das pessoas que chegavam e saíam do terminal rodoviário, o chiado de destinos que se cruzavam, sem jamais se tocarem.
          Estávamos eu e meu pai, de pé, aguardando a partida da condução que levaria meu irmão mais novo, S., para São Paulo, onde cursaria Economia.
        Enquanto S. despachava as suas bagagens, notei meu pai perdido em pensamentos. Agora aquilo, por certo, era curioso – ao menos para mim –, porque meu pai é um homem que vive sempre no presente, no momento, não muito dado a devaneios. O passado, como a poeira de um carro de bois, parece nunca alcançá-lo e o futuro parece trotar sempre no limite das rédeas que o presente segura com firmeza. Os pensamentos de meu pai sempre tiveram esse aprumo de um condutor de carro de bois.
           Vê-lo daquele jeito, ruminando ideias longínquas, dava até um desassossego. Mas, como todos os estranhamentos que já vivi com meu pai, não me perdi em especulações. Empilhei mais aquela estranheza entre as coisas desconhecidas.
           S. despachou suas malas e retornou para nossa companhia.

       Como sempre ocorreu nas esperas em família, ficamos os três fisicamente próximos, de pé, formando um pequeno triângulo a uns dez metros do ônibus, mas sem trocar palavra. Por entre nós, circulavam apenas os sons da rodoviária. Meu irmão vigiava o motorista, meu pai seguia perdido em seus pensamentos e eu os olhava. Não podíamos estar mais distantes, mas mantínhamos a proximidade física.
         Às vezes, em alto-mar, vemos alguns gravetos à deriva, sem se tocarem, mas flutuando sempre juntos. As olas do mar, os ventos, as marolas das embarcações, nada os afasta nem os aproxima e por onde quer que vaguem naquela vastidão dos oceanos, por alguma razão, vagam próximos uns dos outros.
           Assim é que esperamos as esperas em família, derivamos juntos, sem nos tocar.

           Logo foi feita a chamada dos passageiros com destino a São Paulo.
         Cada um dos três moveu-se um pouco, apenas para sinalizar com o corpo que era chegada a hora da partida, mas sem sair do lugar. Foi como uma marola entre os gravetos.
           Passado esse leve tremor, meu irmão quebrou o silêncio.
           - “Eu vou lá”.
          Aquela frase trouxe meu pai de volta ao presente. Recompôs-se e disse:
           - “Tá bom. Então… boa viagem. Cuidado, heim”.
           S. embarcou no ônibus e o triângulo se desfez.
          Ficamos eu e meu pai olhando o automóvel manobrar, ouvindo os ruídos das rodas, do motor e o apito da ré que se misturavam ao burburinho da rodoviária.
        Quando olhei para ele, notei que, apesar de tentar se conter, um de seus olhos estava mareado. Não chegou a chorar, mas foi possível ver o brilho de uma lágrima trepidar em sua vista.
       Foi como ver aquela água antiga minar no fundo do poço cavado na terra seca, reluzindo na escuridão.
           Era uma água impossível.
           Desviei rápido o olhar.
           Eu jamais vira meu pai chorar. Jamais o vira sequer oscilar em razão dos ventos das emoções. Por falta de maior interesse ou simples imaturidade, sempre o tive como o solo seco e duro que se vê na rasura de um terreno árido.
           Sempre imaginei que todos os japoneses eram assim.
       Imaginava que ele - como os outros imigrantes - abandonara sua terra natal, sua família, sua cultura, seus amigos e viera embrenhar-se no Cerrado brasileiro aos vinte e poucos anos de idade justamente por conta dessa secura de emoções, pela aridez do seu caráter. Por isso estranhei a lágrima.
         Mas, tal qual o devaneio testemunhado havia poucos minutos e como tudo o mais que sempre envolveu o comportamento paterno, classifiquei aquilo como desconhecido e voltei minha atenção aos ruídos da rodoviária. Empilhei aquele pensamento no canto das coisas inescrutáveis… como empilho os livros que já tentei ler mil vezes, mas me são tão estranhos que, quando vejo, estou apenas lendo as palavras, sem ter qualquer ideia do que se passou nos parágrafos anteriores… Macbeth, Finnegans Wake, Tractatus… a pilha de minhas incompreensões se agiganta, mas eu aprendi a resignar-me diante dela.

         Só que, ao contrário de tudo o mais, aquela lágrima oscilando no olho de meu pai, perturbou-me.
       Aquele quase choro não fazia sentido. Meu irmão ia para São Paulo... São Paulo! Coisa de quatrocentos quilômetros. Não era o bastante para aquela lágrima, ao menos não nos olhos daquele japonês de cinquenta anos avesso às sentimentalidades, não na aridez daquele caráter.
          Enquanto caminhávamos para o carro, deixando para trás as plataformas dos ônibus, as gentes e os ruídos, eu tentava entender de onde minara aquela água. Que devaneios tinham sido aqueles, tão profundos, que cavaram tanto a alma de meu pai a ponto de encontrar aquela lágrima?
        Como sempre, não consegui pensar em uma resposta e, como sempre, no silêncio de minha adolescência, não me ocorreu perguntar.
          Assim como fantasio que sempre terei tempo para ler os livros que não li, costumo acreditar que sempre poderei perguntar as questões que não formulei.
            Retornamos ao carro e às nossas vidas.

           Durante dez anos pensei naquela lágrima.

         Em minha solidão, costumo me demorar em minhas ignorâncias. Costumo dar-me tempo, como se o tivesse às pampas. Dez anos é o tempo que passo ruminando as dúvidas cativas. Os livros não lidos se acumulam, as perguntas silenciadas se enfileiram.

         Um dia, concluí que jamais teria a resposta se não interrogasse meu pai especificamente sobre aquele assunto.

           Peguei um avião e fiz uma visita aos meus pais.

          Num momento a sós que tive com ele, na sala de jantar da casa onde eu crescera, perguntei-lhe por que naquele dia, há uma década, ele chorara na rodoviária ao se despedir do seu filho mais novo.

        Olhou-me por um instante. Ele sabia do que eu estava falando. Eu sabia que ele sabia. Aquela quase lágrima não se apagara de suas lembranças.

         Recostou-se na cadeira e fitou longamente um ponto fora da janela da sala, como se relembrasse os pensamentos nos quais se perdera naquele dia longínquo, entre os ruídos das plataformas de ônibus. Depois mirou-me como se pensasse na melhor maneira de dizer o que se passava em sua cabeça.

          Contou-me uma história curta.

          Explicou-me que era o filho homem mais novo de sua família – uma família rural do Japão – e que, aos vinte e três anos, decidira migrar para o Brasil.

          Em suas primeiras palavras, senti que ele cavava um solo duro e seco.

       Contou-me dos motivos que o levaram a tomar aquela decisão, de como se sentia no Japão quando jovem, seus receios, suas expectativas. Descreveu-me como, aos vinte e três anos, colocou todas essas coisas na balança para fazer a escolha de largar tudo para trás e contornar o globo.

          A picareta estalava contra o terreno árido.

          Eu ouvia.

        - “É… foram essas coisas que eu pensei quando S. estava indo embora para São Paulo” - disse, querendo dar um desfecho àquela conversa.

          Parou a narrativa. Olhou-me. Sabia que não era só aquilo. Era preciso cavar mais fundo.

        Fiquei em silêncio, boiando ao seu lado como um graveto no mar. É assim que esperamos as coisas em família.

         Após alguns momentos, entendendo que o meu silêncio era o silêncio da espera, retomou o fio da meada.

          Desceram os baldes atados às cordas para retirar a secura do fundo.

         Contou-me que no dia de sua partida do Japão, pouco antes de embarcar, seu pai lhe teria dito:

         - “Sinto que essa é a última vez que nos veremos”.

        E foi a primeira vez que o viu chorar. Disse-me que estranhou as lágrimas nos olhos de seu pai, mas, aos vinte e três anos de idade, não deu razão às palavras do velho emocionado. Sentia em seu íntimo que era muito jovem e que, em algum momento, retornaria ao Japão e à sua família. Sentia que tinha tempo. Por fim, explicou-me:

       - “Naquele dia, na rodoviária, lembrei-me da despedida de meu pai. Percebi que, aos cinquenta anos de idade, despedindo-me do S., meu filho mais novo, eu jamais retornara ao Japão. O tempo passou mais rápido que eu esperava. Ele estava certo. Naquele dia, lembrei da última vez que vi meu pai.”.

         Parou novamente a narrativa e, olhando-me, concluiu: “Por isso eu chorei”.


        Era a água impossível que minava. Então, mais uma vez, na sala de casa, lembrei-me dos homens que vi cavarem um poço, quando tinha oito anos de idade.