19 de novembro de 2016

O Homem Quântico

Not here! - not here! I have been here too many years,
Have Stumbled about the darkened room for a door,
Seeing only the phantom shafts the moonlight clears,
The broken bars of silver along the floor.

(...) And I am alone.
Not here, old shadows – I know you, all too well!

Edmund Wilson Jr.


     Um pouco antes de despertar, Baal sonhava com uma piscina. Era uma construção retangular, funda e vazia, aberta no chão, estava limpa, como se a tivessem acabado de lavar, azulejos polidos e tudo. O curioso – digo, o que chamava atenção de Baal em sua piscina onírica – é que dentro dela não havia uma gota d'água.
     Dava-lhe um mal-estar ver a piscina esgotada, um sentimento de desolação, de abandono e, ao mesmo tempo, aquele espaço amplo e desocupado, incitava na alma a sensação de liberdade. Era como ver barcos tombados na areia de uma praia deserta, sem mar, secando a céu aberto, tal qual as pinturas a óleo de Calderari.
     No sonho, Baal corria descalço, com terno tweed e gravata borboleta, estendia os braços como se fossem asas cheias de penas e pulava dentro daquele buraco quadrangular. Chegou a sentir seu pé direito dando um último impulso contra a borda da piscina, os dedos em forma de garra, acompanhando o arco da sola, para ganhar altura e mais alcance. Prendeu a respiração, como se mais ar nos pulmões o ajudasse a flutuar. Dada a profundidade daquele vão, o voo e a queda foram longos. Baal mergulhou no vazio e bateu seu peito contra o piso duro e frio de azulejos brancos.
     Com essa pancada nos pulmões, Baal acordou, quase sem fôlego.
     Abriu os dois olhos e tudo estava escuro.
     Ficou confuso. Não era um escuro qualquer, não era o escuro do seu quarto, era um escuro outro. Acordara, ou desmaiara? Tinha certeza de que a piscina não passara de um sonho. Quando fora a última vez que realmente tinha pulado numa piscina? Mais de catorze anos, com certeza. Muito antes de arranjar seu emprego na Secretaria de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, antes de namorar Tereza, antes de se separar de Tereza, antes de mudar-se para o apartamento em Niterói. Por que nunca fora a uma piscina com Tereza?
     De olhos abertos, deitado em sua cama, Baal só via o breu… um breu desses tão ortodoxos que ignorava, por completo, a ideia de claridade, um breu que talvez só seja dado aos cegos ver.
     Teve medo, parecia que o que lhe faltava não era luz, mas a vista.
     Desde pequeno, nutria o pavor de ficar cego. Depois que lhe contaram, quando criança, que a urina do sapo cegava, Baal nunca mais passou perto do anfíbio e evitava, com firmeza de propósito, lagos e lagoas. O mesmo aconteceu quando lhe disseram que não devia olhar diretamente para o sol, sob pena de nunca mais enxergar nada. Tornou-se uma criança que desconfiava dos dias ensolarados.
     Nem mesmo os conhecimentos científicos aprendidos na escola serviram para afastar suas desconfianças. O pavor da cegueira encurralou muito de sua infância.
     “O dia já deveria estar nascendo”, considerou no negrume do cômodo. As luzes da cidade, a essa hora, já era para estarem estampadas no teto de seu quarto. Pensou se não seria noite ainda, se o sonho não lhe teria furtado a noção do tempo. Afastou como pôde a ideia da cegueira e a lembrança do sapo.
     Tinha impressão de que estava acordado. Mas acordara mesmo, ou só agora começava a dormir? De olhos abertos na escuridão, calculava se não estava apenas imerso num repouso inquieto, em que os estados mentais da vigília e do sono se confundiam. Piscou. O breu de dentro era igual ao breu de fora. Estava acordado, refletiu sem muito rigor lógico.
     Apalpou o próprio corpo e sentiu a regata e o velho calção com que se deitara na noite anterior. Niterói andava quente nessa estação do ano. No sonho estava de terno e gravata borboleta. Apalpou o pescoço e não a encontrou.
     Não dormia bem já fazia alguns dias. Andava angustiado com tudo, qualquer bobeira lhe apertava o peito. Uma palavra com a qual encucasse, se a ouvisse na boca de algum infeliz ou a lesse perdida num relatório, bastava para lhe dar palpitações.
     Era como se sua angústia andasse a esmo, procurando qualquer coisa com que implicar. Baal sentia que já não possuía nenhum controle sobre esse sentimento.
     No dia anterior mesmo, no restaurante por quilo, ao pagar por sua refeição, pediu à caixa que incluísse em sua comanda um bombom, desses que ficam dispostos sobre o balcão, ao lado de chicletes e balas. Escolheu um Sonho de Valsa. Pois o modo como o doce estava embrulhado o angustiou. Não o abriu, meteu-o no bolso. O chocolate poderia derreter, é verdade, mas desse jeito não olhava para aquele plástico retorcido nas pontas. No trabalho, deixou o bombom sobre a sua mesa e, sempre que olhava o embrulho, sentia um aperto no peito e um suor frio parecia querer lhe escorrer pelas têmporas. A mera perspectiva de destorcer as duas extremidades da embalagem, para liberar o doce, o desacalmava. Mirando o bombom, soltou a gravata borboleta com a qual sempre ia para o escritório e enfiou o doce numa gaveta, para conseguir trabalhar. Mas mesmo agora, em seu quarto, no escuro, longe do trabalho, ao lembrar do doce engavetado, o ar lhe parecia faltar.
     Essas angústias se acumulavam há dias.
     Não era para menos que suas noites fossem intranquilas.
     No breu, retomou o ar, ajeitou-se na cama, fechou os olhos como se dormisse e a piscina voltou a aparecer, toda branca, com manchas branco-escuro e branco-claro. Estava pranchado no piso da piscina, com queixo e peito colados no azulejo. No fundo, junto com Baal, havia algumas folhas secas de Aroeira. Já não sentia o aperto no peito. Respirou, deixando as narinas inflarem.
     Ergueu-se no fundo da piscina e tateou, com os pés descalços, os encontros dos azulejos frios e secos.
     - “Ô cacete… que diabo...”.
     Era o sonho que voltava, ou ele que acordava com os olhos cerrados?
     Como podia aquilo? Baal via mais de olhos fechados, sonhando, que com eles abertos.
     Estava num sono leve, sabia que estava dormindo. Nesse lusco-fusco onírico, abriu os olhos e voltou à escuridão de seu quarto. Fechou-os e voltou ao fundo esbranquiçado da piscina.
     Abriu de novo os olhos. Trevas. Ergueu-se da cama, foi apalpando seu caminho pelo quarto até a janela e percebeu, desapontado, que tudo na cidade estava escuro, os prédios, as avenidas, a baía de Guanabara, nem no céu havia uma estrela sequer acesa. Tudo era breu. Tocou o vidro, imaginando que, em algum momento veria o tênue reflexo de seus dedos na superfície transparente. Em vão.
     As ruas estavam negras, não havia carros, nada.
     Baal tentou abrir a janela, pois começava a suspeitar que, talvez, não houvesse mais o “fora”, queria sentir a brisa do mundo que não via. A janela estava emperrada. Forçou-a, mas a fraqueza do sono ainda não passara. Largou mão e permaneceu em pé, diante de um retângulo que imaginava na escuridão.
     Enquanto tentava divisar algo, ouviu um estrondo no meio do quarto, como se um armário tivesse caído na sua cama. Levou um susto porque o escuro, quando fala, anuncia sempre algo pavoroso. Chegou a dar um pulo, movido pelo instinto de sobrevivência. Agradeceu às trevas por não deixar ninguém testemunhar aquela descompostura. Refez-se e tateou em direção ao barulho que acabara de ouvir, buscava um pedaço do teto que talvez tivesse se desprendido, algo pesado, afundado no colchão. Não encontrou nada. Ao redor do móvel, tudo parecia inalterado. Sentou-se na cama, cabreiro.
     Aquele barulho, se estivesse dormindo, certamente o teria acordado. Parou por um instante para aceitar a verdade de seu raciocínio. Por exclusão, com certeza estava desperto, agora não poderia haver mais dúvidas quanto a isso… e não enxergava... E se estava em estado de vigília e ouvira aquele barulho, tinha que haver algo caído em sua cama, era real.
     Tateou, tateou e não encontrou nada. Além de cego, pensou Baal, delirava?
     Deitou-se. O delírio era outro medo que tinha desde pequeno… porque ver coisas demais, afinal de contas, era também uma forma de cegueira.
     Pensou em Tereza, se ela estivesse ali, explicaria o que estava acontecendo. Tereza sabia ancorar as coisas na realidade e, desse ponto fixo, com o auxílio de uma lógica incisiva, esclarecia qualquer assunto a qualquer um. Tereza era como Arquimedes: “Dê-me um ponto de apoio e uma alavanca e moverei o mundo”.
     Tereza não estava ali e a realidade, por isso, tornava-se movediça. Recapitulou alguns seriados médicos que vira na TV, tentado lembrar o que poderia causar cegueira temporária ou delírios. Coágulos, envenenamento, fungos… só lhe ocorriam essas expressões vagas, sem muita serventia. Com um sorriso no rosto, Baal recordou-se das caras e bocas que fazem os atores, fingindo estarem cegos e delirantes, as expressões dessas duas condições são parecidas, até… além disso, nenhum diagnóstico.
     Perdido nesses pensamentos, fechou os olhos e, como se o sonho voltasse, viu-se novamente com os pés sobre os azulejos. Para sua surpresa, dentro da piscina alguém havia jogado uma caixa. Era uma caixa de metal pesada que, com o impacto, chegou a abrir uma fenda no piso.
     Era aquilo que caíra em sua cama…e viera parar em seu sonho. Sonhava? Parecia tão desperto… Como aquilo podia ter varado sua cama e entrado em seu sonho? Sonhava? Tateou o objeto frio, estava um tanto amassado pela queda. Era uma caixa de metal maciça, pesadíssima… queria ver tirar aquele trambolho de aço de dentro da piscina.
     Empurrou-o, mas o objeto não se moveu. Olhou para o céu para ver se enxergava seu colchão furado e a escuridão de seu quarto, mas onde deveria haver céu, somente céu havia.
     Como podia algo cair na sua cama… e aparecer em seu sonho?
     Numa das faces do objeto metálico, Baal achou uma porta emperrada. Tentou abri-la, para espiar o que tinha dentro. Em vão.
     Analisou a tranca. Como toda a estrutura de metal amassara um pouco com a queda, criou-se uma pequena fresta na região da fechadura e, inspecionando o mecanismo, Baal percebeu que se tratava de uma tranca diferente. Havia uma lingueta por dentro... só dava para vê-la pela fresta mínima que o amassado no metal criara. Quando a luz conseguia se esgueirar por aquela fenda, refletia na chapa de metal fixada por dentro da caixa. Aquele ferrolho é que precisava ser puxado. Só com essa lingueta retraída seria possível puxar o manete que ficava do lado de fora e abrir a caixa. Não havia chave.
     Era um negócio de doido, uma caixa que tinha que ser aberta por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Tentou puxar o ferrolho pelo vão criado com a leve deformação da estrutura metálica, mas suas unhas sequer entravam na fenda, de ínfima que era. Ao tentar algum apoio contra a superfície da caixa, sua mão escapou e, com isso, Baal bateu os dedos no manete de metal. A dor lancinante o acordou.
     Viu-se, de novo, no breu de seu quarto. Colocou os dedos na frente dos olhos, mas não enxergou nada. Tocou-os, apertou-os. A mão não doía.
     Pensou no sonho que acabara de ter, a piscina, a caixa de metal, a tranqueta. Tereza não ia dar conta de explicar aquilo, de ancorar a caixa de metal, o barulho, na realidade.
     Olhou em direção à janela, mas o breu era tanto que parecia não haver fora. Ergue-se, decidiu ir à cozinha tomar um copo d'água. Tateou seu caminho até a porta e onde ela deveria estar, não estava. Tateou um pouco mais à esquerda e à direita, supondo uma margem de erro, mas não a encontrou.
     Ampliou o raio das apalpadelas que dava na parede, agora supondo estar no lugar errado do quarto. Nada. Até o momento em que, a certa altura inesperada da parede, sentiu uma superfície gelada e lisa. Nunca tinha visto aquilo ali.
     Era uma prancha de metal longa e chata, talvez tivesse dois metros de comprimento e, pelo menos, cinquenta centímetros de largura. De espessura, talvez tivesse um centímetro. Tratava-se de um objeto pesado. Apalpando-o, ponderou como poderia estar suspenso na parede. Com cautela, buscou movê-lo, sem sucesso.
     Numa das extremidades, vindo de trás da chapa de metal, notou um lume esbranquiçado, frio como a luz da lua e tão tímido, mas tão tímido, que quase não se notava, não fosse a absoluta escuridão que o envolvia. Não era exatamente uma luz… era uma fraqueza nas trevas, como o último lugar onde o vaga-lume piscou, antes de acender novamente mais adiante.
     Queria enxergar de onde brotava aquela aura, mas a chapa estava muito próxima da parede. Forçou a bochecha e a têmpora direita contra a alvenaria e tentou visualizar melhor o lume, mas com as pálpebras deformadas, não conseguia ver com nitidez.
     Tentou dobrar o metal para ampliar o vão e deixar mais luz passar, agarrou-se à chapa de metal, pressionou os pés contra a parede e puxou, mas o ferro não se curvou.
     Parou para pensar numa outra abordagem. Deu um passo para trás, como que para visualizar melhor o problema, mas assim que se afastou o lume sumiu e diante de si só via o breu.
     Sentou no chão que tinha abaixo de si e ali mesmo se esticou. Estava preso, foi a conclusão a que chegou. Onde fora parar a porta de seu quarto e o que era aquela chapa?
     - “E agora, Tereza?” - perguntou-se Baal.
     Em breve teria que ir trabalhar. Por um lado, aquela escuridão não era de todo má. O simples fato de pensar no seu terno tweed, em escolher uma gravata borboleta, a lembrança do bombom em sua gaveta, a trajeto de metrô até o trabalho, a lembrança dos relatórios de pesca, com palavras repetidas, que andavam em cardumes pelas folhas da burocracia, o exauriam. O cotidiano o esvaziava. Sentia-se mais vazio e seco que a piscina com que acabara de sonhar. Encarcerado naquele cômodo, ao menos, evitava essas gasturas do dia-a-dia.
     Fechou os olhos e, esgotado pela frustração, dormiu.
     Seus sonhos o levaram, mais uma vez, para dentro da piscina vazia, ao lado da caixa de metal, metido num terno tweed e gravata borboleta, descalço.
     Notou, então, algo de estranho naquele lugar, algo que sempre estivera ali, desde sempre, mas que só agora o incomodava. Não sabia dizer exatamente o quê.
     Alguma coisa nos azulejos da piscina chamava a sua atenção.
     O que era? A temperatura, a forma? O fato de estarem secos?
     Não, não era nada daquilo. Era algo que estava na sua frente, mas lhe escapava.
     Passou a mão ao longo daquelas pequenas superfícies vitrificadas, na esperança de agarrar o buraco no seu espírito. O que era? Mentalmente, foi descartando os elementos que via à sua volta, um a um: o cofre, a rachadura no chão, a borda da piscina, a temperatura, os rejuntes… Com esse exercício mental, de exclusão, ficou apenas com um elemento.
     O que de fato o incomodava naquilo tudo, ainda que de maneira imprecisa, era a brancura da piscina… Contemplou os azulejos por alguns instantes e notou que formavam um mundo lácteo e havia alguma coisa de morte naquele mundo esbranquiçado, era como se daquela claridade espiassem as trevas.
     Era como a alvura da lua, essa aura prateada que, com certa familiaridade, vaga pela escuridão dos céus, tal qual um fantasma.
     Era… O absurdo conectou os pontos… era a brancura que vira no breu de seu quarto, refletida na chapa de ferro.
     Olhou a caixa de metal pousada sobre os azulejos e dela aproximou-se para verificar sua hipótese. No vão amassado da porta viu a lingueta. Era quase impossível discerni-la com precisão, somente um filete de luz se espremia pela brecha e mal refletia na superfície da trava.
     Baal ficou embasbacado.
     O que lhe escapava era o inconcebível. Agora, sonhando, via a barra de ferro que o prendia dentro do seu quarto.
     Era a mesma barra de ferro! Tinha certeza! Em proporções diferentes, é verdade, mas era a mesma, não havia dúvidas. Aquele ferrolho o encarcerava dentro da caixa de metal, dentro de seu quarto!
     Quem poderia descansar com sonhos desses? Tentou, mais uma vez, abrir a caixa afundada na piscina, tocar na lingueta de ferro que o aprisionava, mas o vão era muito estreito. Operou o manete da caixa repetidas vezes, forçando-o, mas a porta seguia fechada. Era preciso abri-la por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Aquilo não fazia sentido. Sentiu um aperto no peito, dificuldade para respirar, seus pés descalços suavam. Olhava em volta e a brancura dos azulejos o oprimia. O simples fato de ver a caixa de metal onde poderia estar aprisionado dava-lhe palpitações.
     Em meio a este sonho perturbador, despertou.
     Deitado no chão, ouvia sua respiração ofegante no quarto escuro.
     Foi até a chapa de metal e espiou o vão onde ela encostava na parede. Viu a luz pálida e não teve dúvidas. Era a luz refletida, fantasmagórica, dos azulejos da piscina. A certeza que teve em seu sonho, tinha-a agora em seu quarto.
     Se Tereza estivesse ali, iria mostrar-lhe aquele lume e diria: “Olha, é a mesma luz do meu sonho! Estamos presos numa caixa de metal”. Tereza não acreditaria.
     Ponderou a posição da chapa de ferro e concluiu que deveria empurrá-la horizontalmente, da direita para a esquerda, pois, se de fato fosse a lingueta, era assim que deveria ser aberta.
     Quase não havia como segurar a borda da chapa, estava muito colada à alvenaria e era fina demais para um apoio firme das mãos. Como deu, empurrou a trava com todas as suas forças e a bicha se moveu. Mas foi só soltá-la que ouviu um solavanco. A chapa voltou para o seu lugar, como se fosse um ferrolho de pressão.
     Pensou… pensou. De repente, poderia arranjar um calço, algo que segurasse a chapa de metal aberta. Assim, calculou, voltaria a dormir, a sonhar e, da piscina, abriria o manete e libertar-se-ia daquele quarto. Precisava apenas de algo que pudesse usar para calçar o ferrolho e evitar que a chapa voltasse à sua posição original.
     O único objeto naquele quarto que poderia servir ao propósito era sua cama.
     No escuro, manobrou o móvel, mas a chapa de metal estava muito distante do chão e da parde perpendicular a ela para que a cama pudesse servir de calço. Além disso, a espessura da traveta era fina por demais e, com certeza, escaparia com o peso do móvel.
     Era impossível, com os recursos que dispunha, escapar daquele enigma. Para sair dali teria que estar dentro e fora do quarto ao mesmo tempo…. Teria que estar dentro do quarto para empurrar o ferrolho de pressão e teria que estar fora do quarto, dentro da piscina, em seu sonho, para operar o manete.
     Agora estava dentro do quarto. Seria possível que estivesse também lá fora? Ou somente ia para a piscina quando dormia, em seus sonhos? Poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou estava em um lugar de cada vez?
     E ainda que estivesse nos dois lugares ao mesmo tempo, precisaria que seus dois “eus” tentassem abrir a caixa ao mesmo tempo, a lingueta e em seguida o manete, sincronizados.
     “E então, Tereza?” - pensou em voz alta - “dá-me agora um ponto de apoio, uma alavanca!”
     Lembrou-se do bombom guardado em sua gaveta. Para abrir a embalagem era preciso que a mão direita e a mão esquerda operassem juntas, destorcendo o papel, uma para cada lado, simultaneamente… era uma boa metáfora para a tranca da caixa de metal, pensou...
     “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, veio-lhe à mente o versículo bíblico, que, no caso, parecia profético.
     Como saber o que seu outro eu estava fazendo do outro lado da caixa? Se é que lá estava. Quando girar o manete e quando empurrar a chapa de metal?
     Para ter certeza, precisaria abrir a porta do quarto ou da caixa de metal…. E olhar… mas para isso precisaria estar em dois lugares ao mesmo tempo.... Lembrou-se do experimento de um físico nascido em Viena, chamado Schrödinger. Tereza gostava de ciências e lhe falava dessas coisas.
     Nessa experiência, que na realidade tinha sido um experimento mental em que nenhum bicho foi realmente exposto a perigo algum (pois suponho que o austríaco amava a natureza), bota-se numa caixa um animal e, junto com ele, um elemento químico que tem 50% de chances de matá-lo após certo tempo. Fecha-se a caixa e se aguarda.
     - “A gente aprendeu a pensar que, nesse caso, o bicho tem 50% de chance de estar vivo e 50% de chances de estar morto. Ou seja, a gente pensa sempre que ou o bicho morreu ou ele ainda está vivo”… foi como Tereza havia explicado a Baal, muitos anos antes.
     - “Só que esse físico, Schrödinger defendia que, decorrido o tempo, até que se se retirasse a tampa para verificar o estado do bicho, na verdade, ele poderia estar vivo e morto, simultaneamente. Isso, do ponto de vista estatístico” - Tereza era capaz de explicar qualquer coisa.
     Baal lembrou-se dessa conversa que tivera com Tereza. Estavam num elevador, quando a energia do edifício acabou.
     Enquanto esperavam, Tereza comentou que poderiam aguardar pelo resgate por até sete dias, já que não tinham água. No oitavo dia, as chances de sobrevivência do corpo humano, sem qualquer hidratação, caíam para 50%. Se ficassem presos ali por oito dias, os bombeiros, quando fossem resgatá-los, saberiam que eles poderiam estar simultaneamente vivos e mortos, segundo o experimento de Schrödinger.
     Foi assim que Baal ficou sabendo da existência do físico austríaco: preso num elevador com Tereza.
     Aplicando-se o exercício mental ao caso de Baal, até o exato instante em que abrisse aquela porta, ele poderia estar dentro e fora da caixa ao mesmo tempo… Isso alimentava alguma esperança, mas o constructo mental de Schrödinger, como explicara Tereza, era mera especulação estatística. Não servia para abrir caixas.
     Não bastava ser estatisticamente possível estar em dois estados de consciência ao mesmo tempo. Era preciso que, com cem por cento de certeza, estivesse consciente do que fazia acordadopara abrir a lingueta – e do que fazia sonhandopara girar o manete. A consciência, ao menos a sua consciência, de nada lhe servia de maneira probabilística, somente de maneira efetiva.
     “A consciência precisa ser, de fato, senão não me serve” - pensou Baal.
     Desde Descartes a coisa tinha sido assim. “Penso, existo”, sem desvios estatísticos.
     No escuro, ouviu o ronronar de um gato. Era o seu gato, Erwin, por certo, que sempre via passar pela janela. Estava habituado a vê-lo, com o canto do olho, desfilar pela soleira da porta e ao redor do quarto. Na maior parte do tempo, Erwin não era um gato, mas um vulto familiar.
     Esse último pensamento sobre o gato alimentou em Baal uma leve enxaqueca.
     No final de seu relacionamento com Tereza, vigiavam os vultos um do outro, evitando-se. Se Baal ia para a cozinha, Tereza, onde quer que estivesse, aguardava o vulto do marido indicar que já se deslocara para outro cômodo, para só então ir pegar o copo de água que queria. O mesmo fazia Baal. Até o ponto em que eles mesmos tornaram-se vultos, alheios um ao outro e ignoravam-se, ainda que no mesmo quarto.
     Agora, no escuro, Erwin era uma sombra que se perdia na sombra maior da noite.
     Chamou o felino, mas foi ignorado. Não importava, estavam ambos presos dentro daquele cômodo.
     Era preciso uma solução para o problema. Voltou a deitar-se. Imaginou o vulto do gato movendo-se pelo quarto escuro. Ouviu-o ronronar.
     Ao som do felino, adormeceu e logo estava dentro da piscina.
     O dia se esvaía em seu sonho. Sombras se projetavam nas paredes de azulejos. O que era branco ganhava tons carmesinados com o crepúsculo. Tentou sair das cercanias daquelas paredes, mas elas eram por demais fundas e os azulejos por demais lisos. Baal pulou pelos cantos da piscina, deslizando as unhas e os cotovelos do terno tweed pelas paredes. As tentativas frustradas serviram apenas para desolá-lo e fazê-lo sentir-se, cada vez mais, como uma das embarcações de Calderari, afundada numa praia sem mar.
     Estava preso dentro da caixa e dentro da piscina… pensou. Mesmo que escapasse de dentro da primeira, sairia para o interior da segunda.
     Sentou-se. Os pés descalços no chão, via a piscina vazia e a caixa de metal. Numa das paredes azulejadas viu a silhueta de um gato. Olhou para as bordas, mas não viu o bicho, devia estar fora do alcance da vista. A inclinação do sol pintava um gato nos azulejos.
     Olhou bem aquela sombra. Era uma sombra conhecida, já a vira inúmeras vezes. Era o seu gato, Erwin, que há pouco ronronava no quarto.
     Chamou o gato, “Erwin! Erwin!”, na esperança de que o bicho apontasse na beira da piscina, mas ele não veio.
     Duas prisões o encarceravam.
     Nas duas, vivia na companhia das sombras.
     A sua libertação dessas prisões dependia de estar em dois lugares distintos ao mesmo tempo, vivendo de maneira sincronizada… Quais as chances? Qual a lógica?
     A consciência não era um evento estatístico. “Penso, existo”.
     Vendo o gato estampado na parede que se avermelhava com o pôr do sol, lembrou-se da sombra de Tereza, no dia em que partiu, oscilando na soleira da porta.
     Decidiu viver um cárcere de cada vez.

     Talvez agora conseguisse dormir.