9 de fevereiro de 2016

Feliz Ano Novo!

 Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada,
tudo é alheio ao meu destino, alheio, até, ao destino próprio (…)

Fernando Pessoa

       Sempre que eu acordo o dia já está ali, à espreita, de tocaia. Mesmo que eu me desperte antes do sol, lá está ele, posto, aguardando-me com seus planos, suas insinuações, suas lembranças. Quando os sentidos se abrem, ele me inunda com um futuro que vai se realizando instante por instante, entrando por todos os poros, pelos orifícios da cabeça, pela pele... não há o que impeça a inundação, ele vaza, esguicha e escorre com a força do inevitável. Sinto-me como um carro tragado pela maré alta para o fundo do mar; a carcaça, em algum ponto, cede à pressão da água. À medida que afunda se enche. À medida que se enche, afunda. Tudo o engole, a areia cavando debaixo das rodas, as ondas dobrando camadas de água sobre a superfície, até que tudo o que se vê é mar.
       Tento fechar as brechas, puxo as cobertas, mas o dia nem se dá conta desse esforço, ensopa o que lhe cruza o caminho, igual rio que enche depois da estiagem. Eu sei que não serve de nada, mas mantenho os olhos fechados, tapo os ouvidos, afundo o rosto no travesseiro... e o dia vaza para dentro.
      Tem um jeito de loucura essa coisa de tentar não despertar. Quanto mais o dormente luta para seguir dormindo, mais acordado ele está. E é um esforço que se repete, mesmo que esteja anunciado, desde sempre, o seu retumbante fracasso.
      Cada gota que se acumula nesse acordar é um instante. O presente goteja o dia inevitável. No fundo, no fundo, o presente é mera formalidade, um cerimonial para o preenchimento do dia que me aguarda, é uma variável: Vazão, volume, tempo. Logo, tudo é preenchido.
       Desperto quase todos as manhãs nesse afogamento. Inundado.
      Espicho-me na cama. Não reclamo. Esses dias, ensopados de instantes, têm lá suas vantagens. É que eles já vêm preenchidos, são pré-fabricados, fáceis de consumir e têm um gosto familiar de nada. É como se a vida já viesse vivida.
      Como esses livros de desenhar que já vêm com os traços impressos em cinza claro, e que você só precisa passar o lápis por cima para ter um cachorro, ou uma árvore, ou um personagem de desenho animado. Depois de contornadas as linhas traçadas de antemão, vê-se o desenho que já estava desenhado no papel. Esses livros, como os dias preenchidos, roubam-nos a angústia da folha em branco, poupam-nos do vazio no coração que precede o ato de coragem e de irresignação que é riscar o papel. Eles nos ensinam a acreditar que existe um jeito de fazer as coisas sem o aperto no peito que anuncia a criação.
       Pegue um papel em branco. Empunhe um lápis. Verá do que eu estou falando.  
      Então, nesses dias com linhas em cinza claro, consigo fazer tudo com uma grande margem de previsibilidade; as coisas já estão decididas, desde a locomoção, o itinerário, a escolha do que comer, o tempo de comer, o que vestir, com quem falar, como falar e até as conversas. O dia me preenche com variáveis conhecidas, facilmente calculadas, repetidas à exaustão.
       Esses dias não são ruins. Vivo-os como um animal doméstico.
     O gosto da ração, servida na mesma tigela, no mesmo horário, a hora do passeio, as ruas, os cheiros da casa e da vizinhança. Tudo é previsível ao bicho engaiolado.
     Há uma calma no olhar do cão adestrado. Olho minha cachorra agora, deitada à porta, sobre a banda direita do seu corpo branco e marrom; com o pescoço desafiando a gravidade, fita-me por sobre o ombro. Nesse olhar adestrado de uma vira-latas, vejo-me.
      E, no entanto, nem todas as manhãs são iguais. Não. Vejam Gregor Samsa, por exemplo, caixeiro viajante, em cinco anos de emprego nunca tinha estado doente, pegava o trem das cinco: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”.
     O dia que Gregor Samsa esperava jamais nasceria. Não naquele dia. Não pegaria o trem, não tomaria o café de sua mãe, não iria ao trabalho. Esse dia de cão adestrado não amanheceria com Samsa. Eis a angústia da folha em branco em todo seu resplendor, sem a linha cinza claro a conduzir o lápis.
      A mim, também me afligem essas manhãs de Gregor Samsa, em que eu acordo e o dia ainda não está lá. Como se ele tivesse perdido o metrô, como se a maré tivesse esquecido de subir. É como se o dia ainda não tivesse acordado.
     Nessas manhãs meus sentidos também se abrem aos poucos. Abro os olhos, os ouvidos, as narinas, sinto a saliva grossa em minha boca, sinto o ar frio sobre a pele e não me afogo. Nada se impõe. O dia não me inunda. Não estou sob as leis da mecânica dos fluidos, a física que se aplica é outra, o mundo é outro. O despertar é seco, ouve-se o soprar do vento correndo folgado na vastidão do vazio deixado pelo dia que ainda não chegou. É o vento descrito no primeiro parágrafo da Bíblia, quando Deus ainda não havia pensado sobre a luz: “A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o Oceano e um vento impetuoso soprava sobre as águas”.
       Vejam bem, não importa muito o horário exato em que eu me desperto, se nas primeiras horas da manhã, ou se quando o sol já vai alto, o fato é que, de vez em quando, simplesmente, o dia não vem .
    “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”.
       O dia é possível, mas não é certo.
   O presente, nessas manhãs, os instantes, carregam consigo uma quantidade infinita de possibilidades. Nenhum itinerário está traçado, nenhuma roupa está previamente escolhida, nenhuma refeição está planejada, nenhuma conversa é meramente cordial. As coisas são vividas sem antecipação. Nesses dias, parece-me estranhamente atrativo sair alguns minutos antes e pegar um caminho mais longo, vestir uma roupa nova, ou uma meia diferente da outra, comer um pouco a mais ou um pouco a menos, ou em outro horário, ou comer coisas diferentes, parar para ouvir as pessoas com mais atenção, falar um pouco além do indispensável, ler um poeta desconhecido...
       Tira-se o cotidiano, vá lá, mas daí o que sobra?
     Nessas manhãs, sem o afogamento de um dia que me inunda, afogo-me no vazio. Há até uma espera para que o dia, ainda que em atraso, comece a vazar para dentro. Sento-me na beira da cama e espero sua chegada, como se a falta da maré fosse, na verdade, o anúncio de um tsunami. Como se o metrô que não veio fosse o anúncio de um descarrilamento, de um ataque terrorista acontecido em algumas das estações anteriores.
      Aguarda-se, para que as coisas tenham algum sentido. Qualquer sentido que seja.
      Nutro a esperança de Gregor Samsa, que em sua forma de inseto, depois de ter perdido o trem das cinco, e das sete, ainda esperava ser capaz de pegar a próxima condução: “De qualquer maneira, ainda posso pegar o trem das oito”.
     E, no entanto, nada. Nada vem preencher o vazio do dia ausente. O que vem, vem de dentro de mim, meus pensamentos, minhas conjecturas e eles são poucos, são parcos, são um sopro que não presta para encher um dia.
     Acostuma-se com a asfixia cotidiana. O ensopamento diário me preenche. E de ser preenchido todo santo dia, desaprendo a ser vazio.
      Levanto-me, respiro, olho pela janela, penso meus pensamentos limitados, sem dono, e é com esse nada, com esse pensar miúdo, que tenho que me virar para lidar com a jornada a frente.
      Lembro-me de Gregor Samsa, o imenso inseto, tentando levantar-se: “Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar tinha apenas inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo algum conseguia controlar”. Nessas manhãs, nem o corpo nos serve de nada.
      Ouço minha esposa passar de um cômodo a outro da casa. É preciso dar um sentido para aquele corpo, para aquela alma que se move. Tudo parece novo, inédito, justamente porque me falta o dia, com os sentidos já dados. É preciso dar sentido aos ruídos, à luz que entra pela janela. Então busco na memória uma luz parecida, uma luz que, em meu passado, teve algum sentido que eu possa usar agora para vestir essa luz que entra. O cão late. Para um desconhecido? Para um gato? Outro cachorro? Late de fome? É difícil saber. É um latido agudo, repetido, martelado. Vejo meu rosto no espelho, não apenas para saber onde esfregar o sabonete ou determinar que parte ficou sem enxágue, o reflexo não me serve só para guiar a escova de dentes pelos dentes, pelas gengivas. Vejo-me. Penso algumas coisas sobre aquela pessoa refletida, mas não falo. Imagino que ela saiba o que eu pensei. Além disso, não gosto da ideia dele repetindo tudo o que eu disser. Mas imagino qual seria a cara que faria se eu lhe dissesse tudo o que estou pensando. Ainda que ficasse me repetindo, ainda que ele saiba... queria ver a cara dele, ouvindo essas coisas da minha boca; ele não conseguiria fingir indiferença o tempo todo. Meto-me no chuveiro e é preciso dar sentido à água, porque o dia não veio. Minha esposa fala algo sobre um vaso do jardim. São tantos vasos, com formas parecidas. Penso em vários vasos até encontrá-lo. É um vaso de barro, pendurado no muro, ao lado de uma samambaia. Sei de que vaso está falando. Volto à conversa e o assunto já é outro. Qual o sentido daquele vaso? Seco, olho as camisas enfileiradas no armário, como soldados, e penso em gritar-lhes: “Sentido!”. Mas não vão entender a ironia. Alcanço uma camisa e tento entender porque, dentre todas, tirei aquela do cabide. E tudo se prolonga quando se fuça as lembranças.
      “Ao mesmo tempo em que tudo isto lhe saía tão desordenadamente de jacto que Gregor mal sabia o que estava a dizer, havia chegado facilmente à cômoda”.
      Então, no carro, tentando decidir por que caminho chegar até o trabalho, tentando escolher uma velocidade no velocímetro, uma velocidade e um caminho que façam sentido, percebo que ainda não consigo entender nem os passos matinais de minha esposa, nem a luz que entrava pela janela – e que já deve ter mudado –, nem o latido do cão, nem meu rosto no espelho, nem o vaso do jardim, nem a camisa que me cobre o corpo. O dia segue ausente, vazio, não dou conta de enchê-lo.
       Às vezes é coisa muita preencher um dia. Que dirá um ano!
        Feliz ano novo!




21 de janeiro de 2016

Jun

      Ao longo da infância, dessa que me resta na memória, quase todas as férias escolares tiveram um só destino, a casa da minha avó materna, que morava na cidade mais quente do Estado de São Paulo.
      O desembarque na rodoviária, fosse dia ou fosse noite, era sempre como se meter na frente de um forno aberto. A baforada, corpulenta e com vontade, alcançava-me ainda na escada do ônibus.
      Sentia-me como uma moeda que o diabo tivesse pinçado de dentro daquela condução apinhada de almas e que ele agora botava na frente da boca semiaberta para soprar e depois dar um lustro, esfregando o tostão baforado entre o indicador e o polegar.
      O sopro cálido era um abraço sem corpo, sem aperto, sem braço, sem mãos. Era um abraço que não relava, mas envolvia. O hálito do diabo me rodeava, depois me engolia. A água que cercava a cidade e deixava o ar sempre úmido, diziam, era muito rica em enxofre, que fazia o pelo ficar brilhoso e a pele lisa – coisa do demo.
      Mas eu não ligava lá para o tinhoso. Eu tinha sido batizado naquela cidade e mesmo sem ir muito às missas, minhas tias, devotas, davam testemunho de que eu fora benzido conforme a tradição e que minhas culpas e pecados estavam purificados. Meu corpo estava fechado.
      Viesse o calor de onde viesse, ainda dentro do ônibus, eu sacava os casacos e entrava no bafo.
      E era pisar no chão da rodoviária que o ar quente e úmido se apertava contra o rosto, como uma esponja áspera e grossa que ardia a pele e me arrancava uma careta. Não duvido que fosse o diabo lustrando o tostão encontrado. Deixa ele, que o corpo é benzido! Dois segundos depois, a careta virava um sorriso; estava de férias. Era assim que eu chegava em Pereira Barreto, numa baforada.
      Na casa dos parentes tinha sempre, e antes de tudo, que cumprimentar a matriarca, minha avó materna, num ritual que a cada viagem se repetia criando, ao longo dos anos, uma pequena tradição pessoal entre mim e a anciã.
      Todas as vezes que me via diante daquela senhora algum parente que me acompanhava dizia: “Obachan, sabe quem chegou? Sabe quem é ele?”.
      A velha mulher olhava para mim por alguns segundos – longos e longínquos segundos – e respondia.
       Não me recordo de ela ter acertado a resposta uma única vez sequer. Tudo o que é lembrança que tenho de minha avó é de uma pessoa idosa, esquecida de um bocado de memórias, inclusive das que pudesse ter de mim.
      Suspeito que Obachan tenha morrido sem saber quem eu era. Havia um fosso em suas recordações onde eu sempre caía e do qual nunca logrei sair. Era uma fenda funda demais e escura demais, onde a luz da memória não alcançava o leito… por mais que ela olhasse, longamente, e vasculhasse aquela cratera, não me via. Olhava, mas só enxergava o que encontrou Dante à beira do abismo do Círculo Primeiro do inferno:

“Escuro e profundo era e nebuloso,
tanto que, por volver o rosto ao fundo,
lá nada distinguir era forçoso”.

       Cada uma das vezes em que eu fiquei diante da matriarca da família, cada uma das vezes que lhe perguntaram se sabia quem eu era, cada uma das vezes que ela parou longos instantes para vasculhar sua memória esburacada, fitando-me com seus olhos pequenos, ela acabou supondo que eu era “Jun, filho de Esther”.
        Meu nome é Henrique e minha mãe se chama Lilian.
       Alguém sempre a corrigia, ela parecia se lembrar de alguma coisa naquele sentido “Ah! Henrique… a Lilian já tem filho desse tamanho?”, mas eu logo voltava para o fosso de suas lembranças. Dava-lhe um abraço e beijava-lhe a face enrugada.
       Minha avó tinha uma pele fresca. Sempre achei os corpos dos velhos mais frios. Suponho que sejam moedas que o diabo não se dá mais ao trabalho de baforar e lustrar.
       No mormaço daquela cidade, Obachan era essa árvore, de tronco enrugado e sombra constante, onde a temperatura era sempre mais amena. De tempos em tempos eu me sentava embaixo de sua copa, mas ela não se dava conta de que eu estava lá. Não sabia que eu era um fruto de seus galhos, de suas raízes, de sua seiva.
       Ela não sabia que eu também, do fundo do abismo de suas lembranças, a olhava, por longos instantes, tentando descobrir quem era aquela senhora, que nunca me reconhecia e, ainda assim, era minha família.
       O calor da rodoviária e o frescor da pele trincada de Obachan sempre marcaram a chegada a Pereira Barreto. Isso e a tradição de nos olharmos sem nunca nos vermos. “Jun, filho de Esther”.
        Agora, minha mãe tem uma irmã chamada Esther, que tem um filho chamado Jun.
         Minha avó me confundia com um primo.
        Jun era parente, só que era desses parentes distantes. Não falo de uma lonjura genética, não. Nem de distância religiosa porque, se não me engano, em meu batismo, nesse que fechou meu corpo para o calor de Pereira Barreto, ele foi o padrinho. Ele testemunhou a purificação das minhas culpas e pecados e deve ter se comprometido a guiar meu espírito naquilo que meus pais faltassem.
         Deve, porque eu não me lembro, mas minhas tias dizem que eu fui batizado de acordo com as tradições. Assim sendo, ele devia ser uma classe de guia espiritual, um Virgílio de Dante, um mateiro da selva moral. Mas como eu nunca me atinei para essas formalidades religiosas, não tenho certeza se foi ele mesmo… Convenhamos, nem mesmo Dante reconheceu Virgílio quando este lhe apareceu no deserto:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

        O caso é que o afastamento da gente era de outro tipo. Era um desencontro de caminhos. Nossos tempos eram outros e eram outros também os nossos espaços. Jun era mais velho que eu, uns doze anos, talvez, não sei. Mais? Menos? Até hoje não sei sua idade, e sempre morou em cidades diferentes. Acho que não nos encontrávamos porque éramos estranhos um ao outro. Não tenho muitas recordações com esse primo.
        Uma das poucas lembranças que guardo, já meio apagada, é dele falando a respeito de frutas.
       Ele não falava de frutas como as pessoas normais: o preço do quilo da maçã, o sabor do melão, se está verde ou maduro, se tem agrotóxicos, se é época, quais vitaminas têm, nada disso.
        Jun era engenheiro mecânico e quando falava de frutas ele desfrutificava a coisa toda. Elas perdiam o sabor, a época, os preços, as propriedades medicinais, as calorias e se transformavam em problemas matemáticos, em variáveis e incógnitas. Dado um certo estado de coisas, como era possível saber o peso do abacate e o volume da melancia?
        Se não me engano, nesse dia esfumaçado na minha memória, ele tinha acabado de voltar de uma seleção de doutorado para a Universidade de Michigan e explicava um dos problemas matemáticos que teve de resolver.
        Eu estava no início da minha adolescência e não entendia nada do que ele dizia. Nada, além do nome das frutas.
        Fiquei estarrecido, meio abestado. Tentava prestar atenção em cada palavra daquela conversa e eu sabia que falava em português, sabia que se tratava de um punhado de frutas, mas era incapaz de entender o que, efetivamente, estava sendo dito. Como era possível eu não entender uma história sobre frutas?
        Para mim, Jun falava de um outro mundo, tão diferente, que nem as frutas eram as mesmas.
        Enquanto ele falava, ria.
        E não era um sorriso de algo engraçado ou um sorriso irônico. Suspeitava que fosse um sorriso de prazer, de contemplar e compreender esse tempo e esse espaço onde os abacates e melões eram de outro sabor.
       Quanto a mim, eu passava alheio ao que ele falava, mas lembro-me que, pela primeira vez em minha vida, eu me dei conta de que existiam outros mundos, com outras possibilidades e que se eu encontrasse um mundo igual Jun havia encontrado o dele, até um abacate colocaria um sorriso em minha cara e eu falaria apaixonadamente sobre melancias.
        Jun me mostrou que existia esse tipo de... amor, acho que é a palavra. Um amor que para você sentir, tem que antes criar um mundo e depois se apaixonar por ele. 
         Por isso, pertencíamos a mundos diferentes. Sempre pertencêramos. Jun tinha o dele e eu, adolescente, tinha o que me deram.
         E de serem as coisas assim, encontrava-me mais com Jun nos esquecimentos de minha avó, em Pereira Barreto, do que na vida. Na mente desgastada da matriarca era onde nossos caminhos se entroncavam. “Jun, filho de Esther”. Em Pereira Barreto, nos longos olhares de minha avó, guardados pelo corpo fresco e enrugado, eu me encontrava com uma família que eu não conhecia. “Jun, filho de Esther”.
         O esquecimento, ao seu modo, também aproxima quem está distante.
        Acontece que depois que minha avó morreu – e isso vai mais de década – nunca mais me chamaram Jun. E então esses encontros que eu tinha com meu primo no calor diabólico de Pereira Barreto, protegidos pelo batismo e pelo frescor da pele de Obachan, foram enterrados com a matriarca.
         Nossos mundos se apartaram de vez pela década que se seguiu.
         Ano passado, Jun, filho de Esther, faleceu.
        Quando soube de sua morte, senti como se a família que nunca cheguei a conhecer tivesse aumentado.
        Sentei-me para tentar lembrar quem era essa pessoa imprecisa que eu só encontrava no olhar longínquo de minha avó. Cavoquei a memória, busquei partes, resquícios, rastros, mas não logrei montar uma pessoa inteira, uma memória completa e, como Dante, gritei:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

         O ano virou e concluí que só tenho uma memória realmente nítida de meu primo.
         Dois anos atrás encontrei-me com Jun. Em Pereira Barreto. Pela primeira vez na vida, nossos caminhos se cruzaram nessa cidade sem o intermédio de Obachan.
         Estávamos na cidade para o Bon Odori, uma celebração japonesa em homenagem aos mortos.
         Enquanto as pessoas dançavam em círculos e cantavam canções repetidas infinitamente, numa mímica da eternidade, ele tentou me explicar o que estava pesquisando em seu trabalho, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
        Como no caso dos volumes e pesos dos melões e melancias, não entendi muito bem o que ele queria dizer. Jun falava de um futuro e de um estado de coisas que ainda não existia. Era um mundo possível, que precisava ser construído teoricamente, para depois ser percorrido. Mas Jun falava como quem fala de uma praia que está logo ali, depois da primeira quebrada para a direita e só não pode ser vista porque ainda não chegamos na curva. E esse estado de coisas que existia em sua cabeça o entusiasmava, como se ele já sentisse o cheiro do mar, a brisa e a areia.
         Enquanto ele falava, ao sons do taikô e dos garçons transitando com tigelas de comida japonesa, Jun sorria. Era o mesmo sorriso de contemplação de um mundo onde os melões e abacates são diferentes, Jun olhava para o seu mundo, para um tempo e um espaço que eu não enxergava, e sorria… com uma tigela de Udon à sua frente.
          E com esse sorriso, como quem tentasse explicar a estranheza do que lhe passava na mente, ele me disse: “O que eu pesquiso só vai ter aplicação na indústria, se tiver alguma, daqui a pelo menos quinze anos”.
         Quinze anos. A quebrada para a direita estava longe.
         Quinze anos era muito mais tempo do que os médicos lhe haviam dado de vida. A doença o levaria antes: em dois.
         E eu pensei comigo: “Falta chão até a curva. Talvez Jun não veja a praia”.
         E, no entanto, enquanto o Bon Odori se espichava pela noite quente de Pereira Barreto, ele contemplava o que havia me dito e sorria um sorriso satisfeito. Os quinze anos que a vida não lhe daria, ele os tinha diante de si, realizados, concretos, como uma tigela de Udon.
         Não tenho certeza se Jun foi meu padrinho de batismo. Suponho já ter ouvido algo nesse sentido em conversas de família, mas nunca me atinei. O que acontece é que, talvez, no dia em que me livraram de minhas culpas e pecados, à beira da pia batismal, ele tenha se comprometido a guiar meu espírito onde meus pais faltassem.
         Se lhe impuseram esse fardo, bota aí que ele cumpriu o acordado.
        Vá lá que nossos caminhos não tenham sido trilhados juntos, ou que jamais tenhamos nos conhecido, mas ele apontou como é que se abre uma picada na mata fechada. Ele sabia ler os rastros de outros mundos para além de onde esse mundo se esgota. Mateiro velho, ensinou-me a ver mundos. Jun, filho de Esther, tornou-se um Virgílio, que disse a Dante:

“que tu me sigas e serei teu guia,
daqui levando-te a lugar eterno (...)”
      
           Obachan, no abismo de sua memória, enxergava mais do que eu supunha.
         A velha era danada. Naquela escuridão toda dos buracos de sua memória, quando lhe perguntavam se me reconhecia, não se dava ao trabalho de responder quem eu era; ela, mais do que ninguém, sabia olhar as fendas de suas lembranças, então dizia logo é de quem eu precisava; e me indicava, todas as vezes, o mateiro certo da família para me ensinar a abrir minhas próprias trilhas, o meu padrinho.
          Obachan repetiu a resposta a vida inteira, na esperança que eu entendesse, na esperança que aquilo me entrasse na cabeça: “Jun, filho de Esther”.



5 de janeiro de 2016

Diálogo Imaginário

                Essa coisa de posar para fotos, não gosto. Parar na frente de uma câmera e aguardar. Nunca gostei.
                E nunca soube o porquê desse desgosto todo. Quando alguém fala: “Vamos tirar uma foto”, logo lembro do Coronel, na frase que abre “Cem Anos de Solidão”. Garcia Marquez começa o romance assim: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. A mim, passa-me o mesmo, passa-me um mundo de lembranças pela cabeça toda vez que me ponho diante de uma câmera, como se dali a um instante me fossem varar o corpo de balas. O resultado disso foi uma infância e uma adolescência sem muitos registros. Não lembro de muitas fotografias em piscinas, andando de bicicleta, em restaurantes, festas de aniversário, etc.
                Entre o registro histórico e o desgosto, prevaleceu o mais pessoal, o desgosto.
                Até que um dia – isso há muitos anos – na faculdade de filosofia, um colega de classe me explicou que o ato de fotografar é extremamente agressivo. Apontar a câmera para alguém, fazer a mira, manter as mãos firmes, pressionar o disparador, o som do espelho subindo e descendo e do obturador desabrochando. Tudo isso é como atirar numa pessoa com uma arma. Nunca tinham me explicado isso.
                Parando para pensar, a coisa fazia sentido. Estar atrás de uma câmera, de um revólver, qual a diferença? A objetiva é igual ao cano de uma pistola. E tanto um quanto a outra, quando certeiros, dão cabo da alma do sujeito. O resultado é um corpo sem vida, espichado no chão ou no negativo. Continuo sem gostar de tirar retratos, mas agora sei porque. Sei porque me lembro de Aureliano Buendía. Não gosto que me apontem uma arma na cara. Instinto de sobrevivência.


                O rapaz que me explicou essa questão era um fotógrafo, chamado Guilherme. Andava com uma câmera Nikon na bolsa. Arma pesada, de material negro fosco, importada. A morte tem sempre esse jeito estrangeiro. "O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o tempo e, depois, retira-se" - dizia Mia Couto. E como Guilherme sabia dessa história toda da câmera ter poder de fogo, manejava o equipamento sem movimentos bruscos e sem ruídos  desnecessários, era uma ação coordenada e condicionada por anos de treinamento. Profissional. Eu acho que era um tipo de sniper andando solto pela faculdade.               
                Até a bolsa onde carregava a Nikon não tinha velcro, para reduzir o barulho. Guilherme tirava a foto, guardava a máquina e a vítima sequer se dava conta.


                Nos anos de graduação presenciei diversos disparos, alguns dentro da sala de aula, outros na cantina da reitoria, nos corredores da Universidade Federal do Paraná. Entre um tiro e outro, tornamo-nos amigos, não me lembro exatamente quando.
                Semanas, ou meses depois de um disparo qualquer, em outra conversa, surgia a foto revelada, o corpo. Eu via a fotografia ampliada e lembrava do momento do tiro. Era como esses reconhecimentos forenses que vemos em filmes americanos. Pensava comigo: “Eu lembro desse! Tá diferente de como eu lembrava, mas é ele, com certeza. E os outros?”.
                 “E os outros corpos?”. Guilherme era descendente de italianos. Nessas horas eu lembrava que os outros corpos, metidos em negativos como defuntos em sacos plásticos pretos, poderiam estar afundados em químicos fotográficos, esquartejados em alguma lixeira ou mesmo incinerados. Máfia. Aqueles cadáveres jamais seriam vistos. Um ou outro talvez aparecesse mais adiante, boiando, já em decomposição, ou incinerado. Nunca perguntei pelos corpos que não apareceram.


                Ver as revelações trazia à tona um tremor, uma fascinação por ter testemunhado aquele evento único, violento e, no entanto, uma vez impresso, bonito. Pelos anos de graduação, no período em que nos encontrávamos na faculdade, vi alguns tiros e uns poucos corpos. Não entendia muito bem o funcionamento da câmera, do negativo, ou da ampliação fotográfica; não entendia nem da arma nem dos cadáveres, mas achava interessante ouvir as explicações desse colega sobre ambos.
                Existe um encantamento na fala dos homens quando descrevem aquilo em que apostaram parte de suas vidas. Pegue um pesquisador ou uma pesquisadora, que tenha posto trinta anos de sua vida no estudo de um tipo específico de bactéria que só existe no estômago de um bicho qualquer que só é encontrado numa lagoa perdida no leste da Ásia. Esse homem ou essa mulher irá lhe contar as coisas mais fascinantes, com os detalhes mais curiosos sobre esse micro-organismo aparentemente insignificante, e nós ouviremos deslumbrados esses saberes desconhecidos, assim como Kublai Khan ouvia as narrativas de Marco Pólo sobre as cidades invisíveis.


                Eu gostava de ouvir as considerações de Guilherme sobre a fotografia.
          Uma foto nunca era só uma foto. Havia um sentido sem fim queimando naquele papel fotográfico, um sentido que viajava entre as formas reveladas, as formas não reveladas, o acaso, o excesso de luz, a falta de luz, o negativo, os químicos, a ampliação, a câmera, o instante, o fotógrafo, a coisa fotografada. Sobre todas essas possibilidades, sobre todas essas evidências estampadas na fotografia, como prova de que o mundo existia, Guilherme ponderava.
                Um tiro nunca era só um tiro. Era um veredito.
                Fato é que Guilherme não saía atirando a esmo. Olhava muito. De vez em quando sacava a máquina, fazia a pontaria, mas não apertava o gatilho. Alguma coisa lhe passava pela cabeça e levava o tiro embora. Nunca perguntei o que era, mas era alguma coisa; que ele viu? Que ele pensou?
         Conversávamos sobre nossos pensamentos, sobre os pensamentos de outros, sobre as fotografias, mas nunca conversamos sobre aquelas pausas, aqueles instantes que frustravam o disparo; sobre as fotografias que não existiam. Essa amizade antiga fechou muitas lacunas no meu modo de ver o mundo, mas abriu outras.
                Guilherme parava para pensar nas coisas. Parava para pensar como parava para fotografar. Uma ação era espelho da outra.  Minha suspeita era que seria possível entender como aquele cara pensava, pelo jeito como ele tirava fotos e vice versa. Agradava-me conversar com ele não apenas pelos assuntos, mas também por causa dessas pausas que nutriam o diálogo, por essas lacunas que se abriam e ficavam como migalhas de pão para seguirmos conversas futuras.


                Esses intervalos, essas migalhas eram para onde as conversas voltavam quando nos encontrávamos. Por isso elas tinham esse hábito de se repetirem, cada vez de uma maneira diferente.
                 Por quatro anos conversamos assim, deixando perguntas sem respostas, para depois voltarmos a elas. Hoje, entendo que havia uma certa ingenuidade nesse jeito de confabular. Quatro anos pareciam tempo de sobra para inventar uma trilha de migalhas e por ela retornarmos, amarrando os diálogos deixados em aberto, respondendo às perguntas hipotéticas. Conversávamos com a fé depositada por Hansel em sua estratégia para não se perder.
                Acontece que ao final da graduação os corvos vieram e comeram as migalhas. Não voltaríamos por aquele caminho. Perdê-lo-íamos.
                As perguntas hipotéticas sobre arte, sobre a ética da criação artística, sobre o tempo, o espaço, sobre a legitimidade das buscas pessoais, sobre as músicas de Tom Jobim, sobre a felicidade, sobre o sentido da vida, ficaram no bico dos corvos. Perdemos a trilha de nossas conversas.
                      Eu me tornei um burocrata no Centro-Oeste do país, onde nunca mais vi uma fotografia autoral ampliada em papel fotográfico e certamente nunca mais ponderei sobre o assunto. 


                Na última década devo ter falado quatro ou cinco vezes com Guilherme, por telefone.
               Em todas essas conversas cheguei à conclusão de que ele guardara uma migalha de pão, uma pergunta não respondida envelhecida por quase dez anos.
                Na primeira vez que nos falamos, depois do final da graduação, achei que tivesse sido mera coincidência, acaso. Uma pergunta que tivesse escapado inconscientemente. Mas não, a questão se repetiu da segunda, terceira, quarta e quinta vez que lhe telefonei.
                Guilherme ficara com uma migalha de pão daquelas antigas conversas.
                Eu não sabia o que lhe dizer. Não sabia que resposta lhe dar. E esse não saber, que antes era uma ponta de conversa deixada solta, à espera de um próximo debate, agora me incomodava. Era um desassossego. A pergunta me constrangia como uma câmera apontada para me fazer o retrato. Quase podia vê-lo, atrás da Nikon, com o dedo no disparador, interrogando-me.
                Para evitar a pergunta, aos poucos, deixei de telefonar e, por anos, não pensei mais naquela bendita migalha.
                Neste ano novo, lembrei-me de ligar, mas, mais uma vez, veio-me à memória a pergunta e o desgosto de posar para foto... Se ligasse, sabia que me veria de novo diante da pergunta. Como o Coronel Aureliano Buendía diante do pelotão de fuzilamento: “Abriu os olhos com uma curiosidade de calafrio, esperando chocar-se com a trajetória incandescente dos projéteis (...)”. Não telefonei.
                Todas as vezes que falo com Guilherme ao telefone ele me pergunta “Você está feliz metido nessa vida burocrática?”. O questionamento hipotético por trás dessa interrogação e sobre o qual acho constrangedor me debruçar é o seguinte: “É possível alguma forma de felicidade na repetição obsessiva e infinita da burocracia?”.
                      Essa migalha de pão, essa dúvida, sobreviveu a uma década e hoje é o ponto de onde deve começar uma nova conversa. Mas não sei o que dizer a esse meu amigo.
                Uma trilha com apenas uma migalha de pão – essa migalha que restou de um passado remoto – vira uma encruzilhada, não um caminho.



                  O ano virou, Não falei com Guilherme. Esse texto é um diálogo imaginário de um telefonema que não existiu na virada de um ano que passou. Falo com as fotos porque carrego a suspeita de que, assim como meu amigo pára para pensar, ele, de maneira simétrica, pára para fotografar... não é a mesma coisa. Começo o ano de 2016 devendo um telefonema. 
               As imagens que guiaram a prosa desta postagem foram tiradas do site www.ghisoni.com.br

24 de dezembro de 2015

Os Ruídos de István

A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.

Adélia Prado

O cerrado é um canto antigo. Parece haver mais passado guardado aqui que no resto do mundo. É como curva de rio leitoso, onde o tempo vai se agarrando pelas margens, marolando em vez de correr ligeiro. É um passado que, de tanto andar arrastado, resvala no presente que chega. É uma antiguidade impregnada na alma de tudo o que habita essas paragens, é um eco que ressoa do oco das coisas.
Perambular pelo cerrado não é como vagar pelas ruas da Europa, o tempo guardado nas esquinas de lá tem uma forma determinada: a História. Esse tempo europeu, histórico, tem cara, tem forma, tem jeito, tem começo e tem fim. O tempo do cerrado não; é como a radiação cósmica de fundo, da origem do universo, um ruído que está em toda parte e em todos os lugares, oscilando da mesma maneira, marcando não um tempo qualquer, específico, mas contando o tempo de todos os tempos, desde o seu início.
A ancestralidade do Cerrado vem de dentro para fora, não está na casca, mas na seiva... As árvores aqui já brotam arqueadas pelo passado acumulado, brotam artríticas e curvadas. O tempo não corre por fora das coisas que nascem no Cerrado, corre por dentro. Ou talvez, simplesmente, o tempo tenha se enroscado, ao longo das eras, nos galhos retorcidos da vegetação, que se espalham como mãos de feiticeiras, cheias de dedos tortos e magros, colhendo o passado, formando esses novelos de pretéritos que tecem o rendado da vida no planalto. Para aonde quer que se vá, há o tempo, envelhecido, envelhecendo.
O chão debaixo de nossos pés... de tão antigo... até a poeira é gasta. Os grãos são pequenos, minúsculos, largados. De tanto que se bateram pelo solo já perderam a forma, o cheiro, a textura, já perderam sua história e até o seu peso. Por qualquer vento eles se lançam no ar. Talvez, um dia, tenham sido montanhas vermelhas, penhascos, desfiladeiros, cravados no chão, que ardiam ao pôr do sol. Hoje, são só o pó.
  E o cerrado é também um velho silencioso. Não sei o que aguarda ou o que contempla, mas o faz quieto. Como o retrato de meu avô, pendurado na parede, como meu pai, como eu. É como se tudo já tivesse sido dito por aqui. E foi dito tantas vezes e de tantas maneiras que também as palavras se gastaram e perderam o som, a melodia, o sotaque. De velhas, viraram um grunhido, um nó na garganta, um ruído abafado, um silêncio.
As palavras, poucas, ditas no Cerrado são antigas. Não circulam por aqui os verbetes novos do idioma. É sempre um falar que já foi falado. E de ser assim, é um falar calado.
Quando cheguei a esse canto do mundo, para trabalhar numa secretaria judicial, tive essa impressão de que tudo já havia sido dito. As paredes ecoavam palavras e frases repetidas, viciadas. Eu é que não as tinha ouvido, então eu faria perguntas antigas, desenterraria dúvidas já respondidas e alguém repetiria as respostas desgastadas... Com a menor quantidade de palavras possível, na fórmula mais enxuta, elaborada ao longo de eras, como a poeira do Cerrado. E depois que essa resposta ancestral fosse mais uma vez ouvida naquele cartório judicial, voltaria o silêncio das coisas já ditas.
Não estava ali para aprender nada de novo sobre a Justiça. A Justiça que tinha para ser aprendida era uma justiça velha, repetida. Os advogados vinham ao balcão perguntar coisas que já haviam perguntado e os servidores levantavam-se para responder respostas que já haviam respondido. Eu estava ali para aprender esse mantra, esse jogo de repetição.
Ainda que tudo debaixo do sol apenas se repita, ainda que esse instante não seja novo, chegamos ao presente de nossas vidas, estranhamente surpresos com o acontecimento de coisas passadas e as vivemos com o frescor e o tremor da novidade. O enfado não pesa sobre a memória, nem sobre o passado. Ele habita o presente que muito se prolonga.
De fardos amarrados com fitilho, sacaram pilhas de processos para que eu os numerasse, naquele primeiro dia de trabalho. Era um batismo, era uma maneira de afundar-me nas páginas da burocracia, em seu mar de símbolos jurídicos. Afundei-me. Os números, infinitos, se repetiam. A caneta corria solta, sem pensar, só seguindo a ordem crescente dos dígitos; petições, despachos, laudos, decisões, agravos, sentenças, até que as folhas do volume se acabassem. E tudo recomeçava. Não havia dúvidas. Não havia perguntas. Então as coisas se davam caladas.
No meio de um desses números, a caneta saiu do traço. Um susto. Um estrondo no cartório interrompeu o silêncio. Foi como se tivessem me arrancado, de súbito, de dentro das páginas. Emergido do transe burocrático, respirei. Eis o batismo. Alguém deixara cair uma pasta de ofícios. O papel pesa. O registro do passado, as palavras velhas, carregam lá sua gravidade. O sacramento burocrático coloca sobre os ombros do burocrata o peso da Máquina, tal qual o batismo põe no lombo do cristão o peso dos Céus.
Olhei o número mal feito, um traço comprido indicava o abalo sísmico causado pelos ofícios. Após a pausa, voltaram todos a seus afazeres. Quem estava ao telefone, voltou a falar, quem folheava algum processo, voltou a pesquisar, quem andava para alguma prateleira, retomou o caminho, quem digitava algum ofício, continuou a frase. Nisso, antes que eu me pusesse a numerar as páginas novamente, um dos funcionários do cartório chegou próximo a minha mesa.
Era a primeira pessoa que me dirigia a palavra como um colega e não como representante da instituição. Até aquele instante eu havia falado com o diretor de secretaria, com o Juiz e com o chefe da seção, que me apresentaram o trabalho, a estrutura física, descreveram a hierarquia, ou seja, eram partes da máquina burocrática arranjando-me dentro das engrenagens.
Aquele sujeito não. Aproximara-se como uma pessoa e não como um cargo.
Chamava-se Aloísio e trabalhava há dezenove anos na mesma função. A fotografia no crachá pendurado ao redor do pescoço – tirada no dia em que ingressara no serviço público – era uma espécie de marcador do tempo. Podia-se ver a distância que separava o rosto de agora e o rosto de então. Aloísio já não era a mesma pessoa. Um daqueles dois rostos se desfigurou com os anos. Teria sido o do crachá ou teria sido aquela cabeça que agora servia de cabide para o retrato antigo?
Dei uma olhada no meu próprio crachá e pressenti que o tempo do cerrado e da burocracia logo fariam de mim um Aloísio, pressenti o futuro tornando-se passado. Em pé, ao lado de minha mesa, esse servidor comentou:
- "Esse barulho, há uns tempos atrás, teria dado problema".
- “Como assim?" - perguntei.
- “Nunca ouviu a história do Juiz István?”.
Como não poderia deixar de ser, uma lenda, uma história antiga, um passado. Provavelmente contada e recontada infinitas vezes naquela secretaria, como uma oração, e que eu, recém chegado, desconhecia. “Não, nunca ouvi”.
- “Foi um dos Primeiros Juízes que passou por aqui, era um húngaro”.
- “Hum.” – resmunguei e voltei a numerar as páginas, sabendo que a história continuaria, por força do hábito, sendo contada de uma maneira específica, litúrgica, invariável, forjada ao longo de décadas, independentemente da quantidade de atenção que eu desse à ela.
- “Quando ele chegou, parecia uma pessoa normal. Igual você, assim. Só que era alto, branco, gordo, bochechas rosadas, entrava na secretaria já suado – o clima daqui castigava aquele corpo adaptado para o inverno – dava bom dia, conversava um pouco, ia para o gabinete e ficava lá.  Quando saía, já no final da tarde, falava alguma coisa, despedia-se de todos e ia embora.
“Não durou três meses; começou a ficar esquisito. A bem dizer, ninguém sabe o que foi. Dizem que foi o silêncio do Cerrado, as frases secas, com palavras murmuradas. O tempo esticado também. A lonjura de casa. Torceram a alma do magistrado, igual torcem o pé de murici. De dentro para fora.
  “Os primeiros sintomas, do que eu me lembro, foram discretos. Diminuíram os cumprimentos, as trocas de palavras. O húngaro passou a cruzar reto a secretaria, suado, direto para sua sala. Resmungava alguma coisa se lhe dirigissem a palavra. Atendia os advogados, quando esses apareciam, mas sempre com respostas lacônicas. Tirava dúvida dos servidores. Nas audiências, invariavelmente, falava. Precisava perguntar o que as testemunhas tinham visto, ou ouvido, não tinha saída, mas perguntava sempre as mesmas coisas, na mesma fórmula, sem palavras novas e com frases curtas. Era o Cerrado lhe adestrando a fala. Fora isso, entrava mudo, saía calado. Era o Cerrado lhe adestrando o silêncio.
Os servidores sentiram a mudança. Sempre sentem, não tem jeito”.
Nesse ponto de sua fala, Aloísio chegou mais perto de minha mesa e falou como se me repassasse um ensinamento milenar: 
- “Porque se o humor do magistrado é igual tempestade, a nossa percepção é igual fio esticado de crina de cavalo. Qualquer variação na umidade do ar e a tensão muda. Você é novo aqui, ainda não percebeu, mas vai ver que é assim. A gente sente tudo no ar, igual bicho.
“Depois disso, o silêncio foi só aumentando. O húngaro decidiu que as dúvidas e os pedidos seriam passados direto para o seu assessor, por escrito, que, no final do dia, iria ter com ele. O Juiz, diariamente, repassaria suas decisões a esse servidor, que disseminaria as informações.
“O assessor acumulava pilhas de bilhetes durante o dia e numerava-os no verso, em ordem crescente. Ao entardecer, com folhas em branco, também numeradas, ia ao gabinete do doutor István, onde lia os bilhetes e anotava as respostas de acordo com a numeração.
“Os demais servidores, é lógico, apertaram o assessor para saber o que estava acontecendo. Não estava acontecendo nada. O doutor István estava apenas adotando um novo método de trabalho, uma nova dinâmica, dizia. Não estava acontecendo nada. Se muito, as decisões estavam ficando concentradas no final da tarde.
“Ao final de três dias nessa sistemática, o diretor pediu que os bilhetes fossem mais concisos porque o Juiz se mostrava irritadiço com mensagens muito longas. A leitura de bilhetes muito extensos estressavam os ouvidos do húngaro. Assim, estabeleceu-se um limite de palavras por bilhete e, para que todos padronizassem as dúvidas, publicou-se uma portaria estabelecendo os critérios a serem adotados na redação de cada nota encaminhada ao Juiz.
“Hoje, olhando para trás, a gente percebe que já era alguma coisa” – explicou Aloísio – “só que na hora, não parecia nada, parecia só um rearranjo da papelada”.
“Mas ainda assim, em alguns casos, quando aquela quantidade de palavras não era suficiente para descrever o problema e formular a pergunta, a gente ia falar com o Juiz lá no gabinete. O húngaro ouvia nossas dúvidas e considerações como se estivesse com dor de cabeça. A mão na fronte, os olhos baixos, respostas secas e curtas. Passou o tempo, veio outro comunicado. Os pedidos e as perguntas, agora, mesmo as mais complexas, tinham que vir por escrito, nada de conversa com o Dr. István no gabinete. Alterou-se a redação da portaria, ampliando o limite de palavras por bilhete ‘nos casos estritamente necessários’. Pouquíssimas eram as pessoas admitidas no recinto do magistrado. Advogados, o diretor de secretaria, o assessor. As determinações eram seguidas à risca, no entanto, ninguém sabia o porquê daquilo tudo.
“A tempestade soprava e o vento, trazendo a notícia da chuva, partia-se no fio da crina do cavalo. Estava todo mundo à espera do caldo entornar.
“Não demorou muito, enquanto ainda nos acostumávamos a redigir os bilhetes naquelas palavras contadas, o húngaro mandou chamar o diretor do cartório. Queria saber que tanto andava ruidosa a secretaria judicial. Parecia ao magistrado que havia aumentado o número de pessoas no cartório, o que não foi confirmado pelo diretor. Então, o húngaro, baixou uma portaria definindo que as mulheres não deveriam trabalhar de salto alto e os homens somente poderiam usar sapatos com solado de borracha, a fim de diminuir o ruído da secretaria.
“A portaria foi publicada no diário oficial numa segunda-feira. Na quarta-feira, o juiz István mandou emendá-la. Foi adicionado um novo artigo à norma, que dizia o seguinte: “As regras acima não se aplicam aos servidores que optarem por trabalhar descalços ou de meias”. Na sexta-feira daquela semana as pessoas já estavam pisando diferente. Tanto homens como mulheres andavam com passos mais largos para diminuir o número de vezes que encostavam os pés no chão e, inconscientemente, as pessoas passaram a ficar mais vigilantes quanto ao andar do outro. 
“Naquela sexta-feira, Adélia, uma estagiária, por esquecimento, veio com sapatos de salto alto. Não chegou à sua mesa e o telefone do diretor tocou. Era o húngaro. Queria saber quem estava descumprindo a portaria. O diretor voltou aflito, explicou a situação, e a menina trabalhou descalça naquele dia.
“No sábado, alguns servidores se encontraram, por acaso, na loja de calçados, pesquisando preços, modelos e solados.
“Na outra segunda-feira o diretor de secretaria foi chamado, mais uma vez, ao gabinete do juiz. Conta-se que o húngaro pediu para ver o solado do sapato do diretor pois não era possível que uma sola de borracha fizesse tanto barulho. Reclamou do barulho da impressora. Na época, havia duas impressoras matriciais na secretaria. Era impossível silenciá-las. Dessa reunião, o diretor de secretaria saiu de meias e com mais uma portaria determinando que fosse colocada sobre a impressora uma caixa de isopor para que se abafasse o ruído das impressões.
“A caixa de isopor mais espessa que encontraram à época foi uma dessas de transportar pescados. Cabia certinho a impressora, mas tinha cheiro de pacu. Lavaram-na como puderam e passaram a imprimir as sentenças, os ofícios e cartas no silêncio daqueles isopores. Pelo cheiro, era como se tivessem pescado as decisões.
“Agora, tendo em vista a dificuldade de se impor o novo tipo de calçado aos advogados e advogadas e também às testemunhas que compareciam às audiências com os sapatos que queriam, foram requisitados tapetes tanto para a sala de audiências quanto para o gabinete do Juiz István.
“A Administração, evidentemente, não mandou os tapetes de imediato. Algum burocrata da capital quis saber porque uma secretaria no cerrado precisava de tapetes. O húngaro, então, solicitou uma perícia técnica das características acústicas da sala de audiência e de seu gabinete. Os resultados foram encaminhados à Administração, que, mais uma vez, não enviou os tapetes, alegando que os resultados técnicos não evidenciavam a necessidade da aquisição.
“István determinou, por meio de outra portaria, que uma nova perícia, mais apurada, fosse feita nos recintos. Um grupo de técnicos da capital foi deslocado até os confins do cerrado para fazer a medição exata dos decibéis saídos dos saltos dos sapatos a que se achavam submetidos os ouvidos que passavam pela sala de audiências ou pelo gabinete. Analisaram-se os sons de inúmeros tipos de saltos e solados. Era curioso ver aquele monte de gente estranha, calçando e descalçando sapatos e andando de lá para cá. Os experimentos, é óbvio, tiveram que ser feitos nos horários em que o húngaro não estava. 
“Os resultados, com inúmeros gráficos e siglas e termos técnicos foram encaminhados à Administração com novo pedido de tapetes. Depois de uma semana de espera, mais uma vez, a resposta foi negativa. Os burocratas da capital não se convenciam da necessidade de se comprar tapetes para amenizar os ruídos da burocracia.
“O juiz, sabendo da nova negativa, por meio de um bilhete ,ordenou ao diretor que lhe trouxesse uma interpretação médica dos resultados dos testes acústicos. O diretor, para atender a demanda, abriu uma licitação para a contratação de alguém que interpretasse os tais resultados. Foram destacados três servidores especialmente para a supervisão do processo licitatório. Ao final, contratou-se um médico otorrinolaringologista e especialista em medicina do trabalho que, por uma pequena fortuna, confeccionou um elaborado laudo explicitando os impactos dos ruídos na saúde dos trabalhadores.
“O húngaro, mais uma vez, solicitou os tapetes à Administração, enviando junto o laudo médico que demonstrava a urgência da aquisição dos itens.
“Reza a lenda que os burocratas da capital, ante a insistência, concluíram que seria mais barato comprar os tais tapetes para o húngaro que pagar as incontáveis perícias para decidir se eram ou não necessários.
“Antes do final do semestre aportou na frente do prédio um caminhão cheio de tapetes. A Administração, por precaução, encaminhou vinte por cento a mais que o total requisitado pelo húngaro. Sobrou tapete.
“Assim, nos lugares de maior trânsito, o juiz determinou que fossem colocados um tapete em cima do outro, para que se abafasse mais o ruído dos passos. Os excedentes deveriam ser colocados no cartório. O diretor de secretaria e o assessor passaram o dia analisando o fluxo de gente, pelo cartório, pela sala de audiências para definir onde os tapetes deveriam ser colocados.
“Durante uma semana o telefone do diretor tocou incessantemente. Era o húngaro definindo, de seu gabinete, o reposicionamento dos tapetes para reduzir, de modo mais eficiente, os decibéis que rondavam o cartório. Perdi a conta de quantas vezes paramos todo o trabalho para trocar os tapetes de lugar. Mas no fim, para te dizer a verdade, tudo ficou mais silencioso.
“Mas aí, começaram outros problemas. Com os sons dos sapatos e das impressoras abafados, outros ruídos passaram a tomar conta do ambiente. As vozes dos servidores e dos advogados, a campainha do telefone, o barulho do folhear dos processos pareciam ter aumentado de volume.
“O ouvido dos servidores, ao longo dos meses, foi ficando apurado. Eu mesmo, Aloísio, que nunca escutei muito bem, passei a perceber cada barulhinho da secretaria. Um cochicho não passava despercebido. Então, quando começamos a achar a campainha do telefone alta e perceber até o barulho das folhas, nós sabíamos que mais uma portaria estava para sair e que o telefone iria tocar.
“Você veja só, a Justiça não é só uma ideia. Não pode ser. Porque uma ideia não faz barulho, não tem som. Foi preciso vir um húngaro trabalhar aqui, na quietude do cerrado, para eu perceber, depois de dezenove anos, que a Justiça é barulhenta, cheia de ruídos e que é difícil silenciá-la. Como Kepler conseguiu ouvir a música dos planetas, vendo-os dançar, eu pude ouvir as notas da Justiça, no silêncio do doutor István.
“Mas, como eu dizia, o doutor István estava decidido, e baixou outra portaria. Mandou trocar todos os aparelhos telefônicos por aqueles de surdo que acendem uma luz ao invés de tocar a campainha. No começo foi o caos, os servidores estavam condicionados a não olhar para o aparelho, mas a ouvi-lo. Choveram reclamações que ninguém atendia o telefone. Inclusive, muitas dessas reclamações não devem ter sido registradas, justamente porque ninguém atendeu o telefone. Diversas reuniões foram feitas para tentar solucionar o problema.
“Havia apenas um estagiário, chamado João, que sempre atendia o novo telefone, mesmo que estivesse longe do aparelho, entre as prateleiras de processos, sem mesmo poder ver a maldita luz piscando. Ele parecia pressentir que alguém chamava e parava o que estava fazendo para ir atender o telefone. Quando estava muito ocupado, avisava a todos, “o telefone está tocando!”. E era batata! Quando olhávamos para o aparelho a luz estava a piscar. Era um dom, um milagre. Foi apelidado de João Batista, por sua capacidade de profetizar as chamadas telefônicas.
“Até que numa das reuniões, pediram a João que explicasse como aquilo era possível. Ao que o estagiário explicou que toda vez que a luz se acendia, indicando a chamada, era possível ouvir um pequeno “tec!” lá dentro do aparelho.
“Ninguém acreditou no estagiário. O pobre pregava no deserto. Mas era a única alternativa que se tinha para resolver o problema dos telefonemas não atendidos. Fez-se silêncio sepulcral na secretaria para que a teoria fosse testada. Ligaram para o aparelho e apuramos os ouvidos aguardando o som profetizado por João. “Fazei Penitência porque está próximo o Reino dos céus”. De fato, a cada vez que a luz se acendia, um levíssimo “tec!” era ouvido dentro do telefone. João estava certo. Não demorou muito, todos os servidores encontravam-se adestrados para ouvir o sinal da chamada, além, é claro, de já andarem com passos largos e calculados para evitar qualquer ruído. Éramos como os cães de Pavlov.
“Na mesma tarde em que os servidores descobriram o segredo de João, a luz do telefone se acendeu, o diretor foi novamente chamado ao gabinete do doutor István. O húngaro estava incomodado com as conversas em secretaria. Mas já não havia conversas, as pessoas sequer se dirigiam umas às outras. O que havia eram sussurros. Só que ainda assim incomodavam o Juiz.
“O silêncio era tanto, que até o murmurar se ouvia com nitidez. Você já esteve no mangue? O silêncio do mangue é assim, silêncio de santuário, silêncio tanto que dá para ouvir as conchas dos mariscos se abrindo.
“O diretor saiu de lá com mais uma portaria, determinando que se falasse no expediente apenas o absolutamente necessário e em voz baixa. Não se elencou na norma o que seria considerado absolutamente necessário. Exteriorizar uma dúvida era absolutamente necessário? Talvez sim, talvez não. Dependeria da dúvida. Um recado deixado por telefone? Um lembrete sobre o registro de ponto? Ninguém sabia estabelecer o que era ou não era ‘absolutamente necessário’. O conceito virou uma ameaça pois a definição, no fim das contas, só viria no momento da pena ou da absolvição. Na dúvida, calava-se. 
“Logo, as portarias começaram a produzir seus efeitos jurídicos. Um estagiário esqueceu de colocar o isopor sobre a impressora e foi advertido, por escrito. Uma servidora riu da piada de um advogado no intervalo da audiência e foi transferida para outro setor. Eu mesmo, Aloísio, um dia, fui carregar um processo antigo, e deixei cair um de seus volumes num pedaço de chão sem tapete. Peguei três dias de suspensão. Cada uma dessas penalidades era antecedida pelo piscar da luz do telefone. O juiz ouvia tudo.
“O silêncio dos outros é um cativeiro.
“Ficávamos atentos sempre a qualquer ruído, aos murmúrios da Justiça, como um refém que não tira os olhos de seu carcereiro. Aguardávamos a próxima portaria. Se alguém ouvia um ruído duvidoso, logo levantava o indicador (era o sinal convencional entre os servidores para expressar a pergunta: ‘Vocês ouviram isso?’), todos olhavam para o dedo e depois para o telefone, à espera da luz se acender. Os dias se arrastavam nessa tensão, medida no pelo da crina do cavalo.
“Um ano depois da chegada do húngaro, uma nova portaria foi publicada. O diretor nos chamou com um gesto para vermos a publicação. Em silêncio, a passos largos e cuidadosos, nos amontoamos ao redor do diário oficial. Eu ainda me lembro do cheiro do jornal. Dizia que o Juiz István havia sido removido para outro Estado.
"Nos olhamos todos, era o absolutamente necessário, e voltamos aos nossos afazeres, prestando atenção no estalo do telefone, cuidando ao folhear as páginas dos processos, vigiando o tom de voz, andando tirando os pesos dos pés. Ao final da semana, o Juiz se foi, sem se despedir, em silêncio. Nada havia mudado de verdade. As portarias continuavam valendo, com toda a força normativa. Continuávamos sob a ameaça de uma insanidade que não era apenas do húngaro, mas que se tornara nossa.
"No fim do expediente eu deixei cair, sem querer, um grampeador no chão. Petrifiquei. Todos os servidores esticaram o pescoço para ver o que havia acontecido. Vi os rostos preocupados, tensos, a respiração presa na garganta. Olharam-me e logo viraram-se para o telefone, aguardando a luz piscar, o “tec” abafado vindo de dentro do aparelho, a chamada do húngaro para saber que barulho havia sido aquele.
"Só que não havia mais húngaro. O doutor István já não estava mais entre nós. E nós sabíamos que a luz não se acenderia e, mesmo assim, parecia que ela poderia piscar. Aguardou-se em silêncio, por uma eternidade, e a luz do telefone permaneceu apagada. Até que uma servidora caiu em prantos, contidos, silenciosos, abafados, cobria a face e soluçava com todo o corpo. Chorou além do expediente, além do absolutamente necessário.
“O silêncio perdurou por anos, até que, um dia, não mais o ouvimos. Os ruídos da Justiça demoram a voltar, voltam aos poucos, sem que a gente se dê conta.
"Essa pasta que caiu agora aí, teria dado problema naquela época. E os tapetes, se você for visitar os arquivos da Justiça, vai encontra-los lá, aos montes, enrolados como pergaminhos, cheios de pó. As últimas provas da passagem do húngaro por aqui.”
Assim Aloísio terminou sua história e voltou à sua mesa. Eu segui numerando a pilha de processos que tinham me passado, ouvindo cada ruído que a máquina burocrática fazia, um ruído que, até então, me parecia ser silêncio.



7 de dezembro de 2015

Impeachment

A cúpula de cada um dos Poderes da República tem a prerrogativa de definir a pauta política do País.
É uma atribuição que decorre do modo como o Poder foi dividido em nossa República. Coube à Constituição Federal essa divisão.
O Exercício mesmo desses poderes constitucionais tem como consequência a definição da pauta política brasileira.
O Supremo Tribunal Federal, quando decide julgar a liberação das pesquisas com células tronco, ou quando decide julgar a demarcação das terras indígenas, não está apenas "dizendo o direito", mas estabelecendo a discussão política nacional quanto ao desenvolvimento da ciência e ao tratamento da cultura indígena.
O mesmo poder de estabelecer a pauta política tem o Congresso Nacional, sendo atribuído a cada uma de suas Casas decidir sobre quais questões o país irá se debruçar. Casamento gay? Porte de arma? Austeridade fiscal?
O Poder Executivo também possui esse faculdade. Com programas sociais, programas de privatização, programas de educação, se estabelecem pautas. Fome Zero, Pátria Educadora, etc.
Essas instituições encontram-se em esferas tão altas da estrutura de poder que os controles que incidem sobre suas escolhas e decisões são mais rarefeitos.
Em razão disso, esses órgãos detêm certa liberdade nas escolhas da pauta política da nação.
Essa maior liberdade de escolha só se justifica, em última instância, pela legitimação dos ocupantes desses cargos por meio da manifestação da vontade da população (representantes do Executivo e do Legislativo eleitos por voto direto) ou por processos indiretos (Ministros do Supremo sujeitos à sabatina do Senado Federal).
Ultimamente, vê-se que o Supremo Tribunal Federal estabeleceu como pauta a corrupção dos partidos que formam a base do governo federal. Mensalão, desdobramentos da Lava-Jato, etc. O Supremo é livre para estabelecer essa pauta.
O Legislativo também, nos últimos dias, em especial a Presidência da Câmara Federal, tem estabelecido como pauta a corrupção e a má gestão no governo central. O Legislativo é livre na escolha de suas pautas.
O exercício da liberdade institucional dessas duas instâncias de Poder, sujeitas a controles extremamente rarefeitos (STF e Presidência da Câmara, especificamente) estabeleceram pautas que resultaram num modo indireto de impedir que o Executivo também determine as discussões políticas do País.
O Executivo não consegue minimamente estabelecer sua pauta em decorrência do engessamento que lhe causaram as escolhas feitas pelas cúpulas do Legislativo e do Judiciário.
O estrangulamento do governo pelas pautas dos demais poderes chegou a tal ponto que a pauta nacional, agora, é a própria supressão do mandato da Presidente eleita.
Não há ilegalidade na construção da atual situação em que se encontra o Poder Executivo.
Houve o Mensalão, houve a compra de Pasadena, houve as delações premiadas e as propinas; essas sim, ilegais.
Não há ilegalidade nas decisões que levaram à situação em que se encontra o governo, mas não se pode ignorar que ela é resultado da pauta política estabelecida por dois Poderes da República que se sujeitam a poucos controles em suas escolhas.
O Impeachment, ainda que se revista de legalidade, em verdade, é a exteriorização dessa sistemática escolha de pautas pelo STF e pelo Legislativo, cuja consequência é a incapacitação do Poder Executivo, eleito democraticamente, em estabelecer suas pautas.
O Impeachment da Presidente Dilma, ao contrário do que se expõe na mídia, não é só um processo, não é uma figura abstrata, um instrumento meramente formal. O impeachment foi construído politicamente nessas instituições onde os controles são rarefeitos.
Para mim, essa construção baseou-se na utilização de liberdades democráticas garantidoras do exercício de Poderes independentes da República, para o enfraquecimento de um desses poderes, o Poder Executivo.
A utilização de cada uma dessas liberdades, pelo STF e pelo Congresso, se consideradas em si mesmas, foram legitimas, tendo observado as previsões legais, o devido processo legal, o direito de defesa dos réus, etc. De tal modo que defender o governo por elas enfraquecido, tornou-se equivalente a ofender o Estado de Direito.
          O problema, entretanto, não está na legalidade, mas no estabelecimento das pautas sobre as quais deve incidir essa legalidade. A escolha das pautas precisa ser apreciada com mais atenção.
              Pautar um assunto significa deixar outro de lado. Significa definir de quem é a vez de prestar contas. Pauta-se a pesquisa em células troncos: a ciência deve prestar contas aos valores morais da sociedade. Pauta-se a demarcação de terras indígenas: a cultura ocidental deve prestar contas à cultura indígena. Pauta-se a limitação de desmatamentos: os produtores rurais devem prestar contas ao meio ambiente.
             Quem não está em pauta não presta contas.
              Pautar é um ato político, em que se atribui um ônus a quem deve prestar contas.
              Se o Executivo está sempre sendo posto em discussão por outro Poder, significa que ele está tendo sua pauta determinada por esse outro Poder. O ato de pauta-lo, então, significa uma forma de reprimir a atribuição constitucionalmente dada ao Executivo de estabelecer suas próprias pautas.
         As escolhas do que está ou não em discussão no País, não estão sujeitas a controle de legalidade, nem estão sujeitas a controles administrativos. Felizmente, as instituições de cúpula da República, são livres e independentes. Não se pode responsabilizar o Supremo Tribunal Federal por ter decidido enfrentar uma questão ao invés de outra. Não se pode responsabilizar o Congresso por ter votado uma lei ao invés de outra. Não se pode responsabilizar o Executivo por ter priorizado um projeto ao invés de outro.
               Assim, essas escolhas de pauta política do País, feitas pelos Poderes da República e sujeitas a escassos controles, devem ser apreciadas por aqueles que legitimam a liberdade conferida às instituições. Os cidadãos.
           Os cidadãos devem julgar se a escolha da pauta política pelo STF e pela Presidência da Câmara tem ou não como finalidade, além da luta contra a corrupção, além da luta pela moralidade, o caráter político de enfraquecer e suprimir o Poder Executivo, democraticamente eleito.
               Eu, como cidadão, defendo a atribuição constitucionalmente conferida ao Supremo Tribunal Federal de estabelecer suas pautas. Essa prerrogativa não deve ser violada.
          Defendo a atribuição constitucionalmente conferida a cada uma das Casas do Congresso Nacional de estabelecer suas pautas. Essa prerrogativa não deve ser violada.
            Mas defendo também a atribuição constitucionalmente conferida ao Executivo de estabelecer as pautas da nação. Essa prerrogativa não deve ser violada.

           O modo como o Impeachment está sendo colocado, em minha opinião, é uma forma transversa de burlar a independência dos Poderes, por meio da escolha de pautas; escolhas essas não sujeitas a controles institucionais.
            Tenho sérias ressalvas quanto ao governo, mas não apoio o impeachment, pois se configura com as feições de um golpe institucional.