1 de março de 2015

O Cão

    Ao concluir meu curso de filosofia, na Universidade Federal do Paraná, intuí que jamais seria um professor. Aos vinte e um anos eu não sabia se seria ou não um educador, se muito, pressentia que meu rumo, fosse ele qual fosse, havia de ser outro. Intuí como os cães, se postos sobre um muro alto, intuem que não têm em si as aptidões necessárias para lograr uma queda suave. O cão intui que não é gato e que não é ave.
    Quando criança, coloquei meu cachorro, um vira latas de pelo marrom e negro, no muro de casa. Parado sobre a largura do tijolo, pernas trêmulas, nada no cão lhe indica que possa vencer aquela altura, o rabo adere ao corpo, a ponta procurando a barriga, tenso, o focinho tateia o vazio, sua natureza grita-lhe que não salte; embora sequer lhe sussurre uma alternativa. E o cão não salta. Eu olhava o bicho, intrigado se depois de muito parado viria algo além do que eu via sobre o muro.
    Anos depois, também algo em mim, entre as entranhas, gritava que eu não era feito para a sala de aula, para os alunos, para o ensino. O que quer que fosse que estivesse fazendo aquele estardalhaço, por certo não me apresentava nenhum outro caminho possível, apenas berrava-me que eu jamais seria um professor. Era um brado oracular, sem justificativas racionais, mas que me orientava, tal qual o fazia com o cão sobre o muro. E assim, ao final de quatro anos de formação universitária, orientada para o ensino, não ousei dar sequência a uma possível carreira acadêmica.
   Vejam bem, nada me impedia de ter como profissão o magistério, seguir uma carreira. O que a intuição me dizia era que, mesmo que eu me tornasse um professor assalariado, mesmo que eu desse aulas, mesmo que eu tivesse um título, alunos, uma sala, um quadro, ainda assim, eu não me tornaria um professor, por não haver nada em minha natureza que me tornasse capaz de ensinar.
    Era um cão na navalha do muro.
    Aprendi coisas as mais arrebatadoras naqueles quatro anos de faculdade. Tive professores e amigos que me conduziram pelos becos mais tortuosos que eu jamais ousara trilhar. E embora tivesse aprendido a aprender, o ensino, o outro lado da maquinaria, não me entrava na alma.
    Por isso, meti-me em outros afazeres, em outros caminhos, que me levaram para outra cidade e me consumiram os parcos recursos financeiros. Nesses anos de vaguear aprendi, mas não suponho que tenha ensinado. E quando, enfim, minhas economias se acabaram, busquei um emprego e, ironicamente, o único que consegui, foi o de professor de inglês numa pequena escola de idiomas no subúrbio do Rio de Janeiro.
    O cão sobre o muro, retesado e ganindo, quando a fome aperta, se coça. Ensaia colocar uma de suas patas para fora, balança-a no ar, encolhe-se, solta outro ganido abafado, treme as ancas; a pata traseira desloca-se um pouco para o lado, apoia-se em falso na quina do tijolo e desce arranhando a parede – o lastro que o mantinha no prumo, se vai –, o corpo pende em direção ao vazio, a cabeça dá guinadas a esmo, tentando recuperar o equilíbrio, o rabo descola do corpo e repete o movimento do pescoço, as unhas se fincam no vento, a espinha arqueia, se retorce no ar e o bicho cai.
     A escola de inglês ficava na Tijuca, a cinco quadras da Igreja São Francisco Xavier, Zona Norte, longe das areias do Rio de Janeiro. O calor que ali se sentia vinha do asfalto, o vento, dos escapamentos dos ônibus. A pele escurecia não pelo bronzeado, mas pela fuligem que colava no suor de nossos corpos. Não era uma franquia de um grande curso de idiomas, com mensalidades caras, nem era frequentada por alunos da classe média carioca.
     Meus alunos vinham das escolas públicas da redondeza.
    O percurso que eu fazia, todas as tardes, do metrô até a escola, sob um calor asfáltico, era o mesmo que o feito pelos alunos, que chegavam de ônibus. Às vezes via-os caminhando de mochilas à minha frente, às vezes podia ouvir seus bochichos a poucos passos atrás de mim.
     Uma vez na sala de aula, tinha sérias dificuldades em ensinar-lhes inglês.
     O cão, em queda, que até aquele momento intuía que não era gato, agora o sabe.
     A dificuldade advinha do fato que eles não sabiam português, não sabiam matemática, não sabiam geografia, não sabiam história... parecia não haver nenhum conhecimento sedimentado ao qual o novo idioma pudesse aderir. Esse, suponho, seja um dos problemas centrais de uma educação fundamental precária. Não se constrói nada sob um terreno pantanoso.
    Sentia que havia um completo despreparo para a vida – meu? Deles? – e aquilo me exasperava, pois sentia que eu não era capaz de suprir aquela lacuna.
    Certa tarde, trilhando o caminho da igreja até a escola, deparei-me com um corpo estendido na rua, cravado de tiros no peito. Os carros desviavam do cadáver que assava retorcido no asfalto. O sangue que escorrera do corpo já estava seco, formando um mapa escuro ao seu redor. Há quanto tempo estava ali?
     Sabia que os alunos veriam aquela cena quando se dirigissem à escola. Onde estariam a polícia, ou o corpo de bombeiros?
    Na sala de aula, ninguém comentou o defunto. Estranhei. Perguntei-lhes se haviam visto a cena a um quarteirão dali. Responderam-me com normalidade:
     - “Tá ali desde manhãzinha professor. A gente viu quando tava indo para a escola”.
     - “Desde manhã? A polícia não veio?”
     - “A polícia que matou, professor. O cara foi roubar um polícia que parou de carro no sinal. Levou um monte de tiro. Deixaram ele ali, desde manhã, pra mostrar o que acontece com bandido”.
     Nisso, outro aluno emendou: “É, mas vai ter volta”.
     Eu não sabia o que dizer e balbuciei: “Vai ter volta? Como assim?”.
    Vem o baque. O fuço do cachorro encontra o chão. Dá para ouvir o estalo das gengivas. O bicho cai de lado, os pelos desabam e a anca do animal quica no chão. “Caim!”. Um susto. O cão se põe de pé e aquele instinto que o manteve parado por tanto tempo, agora manda que se afaste do muro. E o cão se vai, andando torto.
     Cachorro não é gato.
     Aí aconteceu algo que me chamou a atenção. Dois meninos de 13 anos que não sabiam ainda fazer uma conta simples de soma ou divisão, contaram-me toda a história do tráfico na comunidade em que moravam. Sabiam quem mandava, “o cabeça”, quem era o braço direito na comunidade, quem comandava o tráfico do presídio, quem havia sido “apagado”, quem provavelmente iria suceder as pessoas que agora estavam no poder, etc. Eles conheciam a hierarquia do tráfico com a familiaridade que os personagens de Shakespeare conhecem a hierarquia da coroa britânica e a recitavam com a naturalidade com que um bom cristão conhece a história de Jesus.
  Havia uma certa reverência em relação aqueles traficantes.
     O corpo no asfalto? Era membro de uma facção. Ia ter volta.
    Entusiasmados com meu interesse no assunto, mostraram-me as músicas que costumavam ouvir no ônibus. Eram funks “proibidões”, músicas que exaltavam traficantes e suas vitórias sobre a polícia do Rio de Janeiro.
    Minha aula não encontrava aderência naqueles alunos porque eu não sabia o que eles haviam aprendido até então. Eu não sabia o que eles sabiam. Existia naquelas crianças um conhecimento muito bem sedimentado, mas não o conhecimento que eu esperava, não o conhecimento que eu tinha.
    Não bastava ensinar-lhes inglês. Era preciso criar um mundo em que o idioma fizesse sentido para eles. Um mundo fictício, mas possível. Um mundo que estivesse ao alcance daquelas crianças, próximo à sua realidade, mas que lhes abrissem novos horizontes. Um mundo novo, mas alicerçado nas estruturas que se consolidaram neles, não em mim.
   O cachorro se vai, para o outro lado da casa, para longe do muro, para longe do menino que o colocou no muro.
  Tive, ao longo de minha vida, grandes professores que foram capazes de criar essas ficções e transportar-me para outras realidades. Naquele dia em que um homem foi morto perto da escola, eu soube que não era capaz desse tipo de engenharia. Não muito tempo depois, larguei o emprego.
   Hoje, quase uma década depois, trabalho num cartório judicial no centro-oeste do país. Não crio mundos, não ensino; se muito, cuido para que a ordem do mundo fique como está.
    Longe de tudo, o cão lambe as feridas.



14 de fevereiro de 2015

Whistler, British Columbia

    Cresci ao pé de um pai silencioso. Recordo-me que sua quietude soprava como uma brisa gelada, que descia do alto de uma circunspecção que eu não compreendia e me encrespava a espinha.
  Com os anos, adaptei-me, acostumei-me ao silêncio e aos tremores que me causavam os deslocamentos do ar frio. Aprendi que nem sempre os ventos sopravam com a mesma intensidade ou na mesma direção. O ar gélido às vezes era mais seco, às vezes mais denso, às vezes quase não se movia, às vezes assobiava em minhas orelhas, às vezes forçava-me a procurar abrigo, às vezes convidava-me a sentir o frescor na alma cansada da reclusão.
    Seu silêncio era uma companhia constante, confiável, que me proporcionava a experiência de estar só, sem estar verdadeiramente sozinho.
    Lembro-me de rabiscar incontáveis folhas em branco tendo-o ao outro lado da mesa, sem exprimir uma só opinião. Prestava atenção, sem dizer nada, traço após traço, folha após folha, até que se passasse a eternidade.
    Certa vez, peguei uma folha, fiz um ponto no centro, coloquei-a de lado e comecei outro desenho, em outro papel. Ao que ele me perguntou: “Só um ponto?”. Conseguira sua atenção. Foi uma conversa que se findou tão rápido quanto havia começado, de volta ao silêncio que soprava da outra ponta da mesa.
   A quietude de meu pai tinha suas nuances, podia preceder um “não”, gestar um pensamento ou encerrá-lo, podia ser um silêncio de aprovação ou de desapontamento. Era um silêncio múltiplo e infinito.
    Tornei-me habituado àquela quietude, sem nunca realmente compreendê-la.
  Aprendi a conviver com tal frieza incômoda, mas ela sempre se manteve como um elemento estranho a mim, um vento do qual eu ora sentia necessidade de me proteger, ora abria o peito para senti-lo encher meus pulmões e arder em minhas as narinas, mas que não fazia parte de mim.
   Agora, esse estranhamento tem uma razão de ser. O silêncio de uma pessoa, por mais que nos dê indícios do que se passa em sua alma naquele instante, não nos conta histórias, não nos revela o passado. O silêncio, insondável, nos permite reagir, mas não nos permite entender.
    Cresci sem saber a história de meu pai. Sabia que ele havia saído de sua terra natal aos vinte e três anos e nunca mais voltara. Cresci sem saber seus motivos, sem saber sobre sua infância, sobre seu crescimento, sobre seus desejos, suas frustrações, sobre seus irmãos ou seus pais... Meu pai envelheceu silencioso como uma montanha.
    Então, nessa velhice, já com seus sessenta e poucos anos, um dia convidou-me para uma viagem a outro hemisfério do globo, para conhecermos um de seus irmãos mais velhos e para me ensinar a esquiar, um hobby que ele tivera em sua juventude e gostaria que eu experimentasse.
    Aceitei, pois, em anos, aquela era a primeira vez que ele me convidava a espiar um pouco de seu passado.
   Em janeiro viajamos para Vancouver, Canadá. Vinte horas de viagem e, pela primeira vez, encontrei alguém da família de meu pai, um tio. Era um galho de minha árvore genealógica que, para mim, havia sido podado antes mesmo de meu nascimento e agora brotava como um truque de mágica, sem respeitar o tempo do crescimento vegetativo, lançando-se em caules lenhosos.
   Os dois eram estranhamente parecidos, as mãos, as maçãs do rosto, a maneira de olhar quando acometidos por alguma dúvida, o suspiro de resignação... Agora, o leitor pode apontar a obviedade de minha constatação, afinal se trata de irmãos. Acontece que aquela similaridade física, aquela proximidade visual não foi algo que me foi permitido aprender ao longo de anos de convivência familiar. Não era algo com que eu deveria estar habituado. Foi uma surpresa.
    No hotel, sentados no sofá do apartamento, observei aqueles dois homens velhos, tão parecidos, que há quarenta anos não se viam, conversando. O diálogo era entrecortado por longos silêncios. Ora de um, ora de outro.
    Vê-los conversar era como observar peixes-boi no Rio Negro. De vez em quando algumas bolhas de ar perturbam a superfície d'água e vemos emergir as narinas e os olhos do mamífero amazônico. Depois, o rio volta à sua quietude espelhada. Assim era a conversa daqueles irmãos.
    Da cozinha do apartamento via-os trocando silêncios, que, de tempos em tempos, eram rompidos por palavras que emergiam tão cuidadosas quanto desapareciam. Eram como duas montanhas antigas soprando ventos gelados que corriam pelos seus vales.
  Prestando atenção, percebi que os silêncios diziam tanto quanto as palavras. Eram silêncios variados, cujos sentidos eu havia aprendido ao longo de minha infância. Enquanto aguardava a água do chá ferver, relembrava os momentos de quietude que dividi com meu pai. Vendo-os ali naquele quarto de hotel em Vancouver, aos poucos me dei conta que era capaz de entender o que se passava entre eles. Eles se falavam por meio de suas quietudes e eu, inesperadamente, os compreendia.
    Então o silêncio que, por tantos anos, causou-me estranheza ante meu pai, o silêncio que era apenas de meu pai e tornava-o um estranho para mim, tornou-se-me familiar.
    O silêncio ao qual eu passara minha vida inteira apenas reagindo, sem entendê-lo, era a minha história, era a história daquela família que após quarenta anos voltava a se comunicar silenciosamente. O silêncio era uma tradição da qual eu não havia me dado conta. Uma tradição tão forte que atravessara hemisférios, atravessara gerações e ainda se mantinha.
    Não podia negar que eu mesmo me tornara um homem de silêncios. Eu herdara uma tradição que somente agora, passadas três décadas, começava a compreender.
     Dois dias depois, eu e meu pai viajamos para Whistler, uma montanha a duas horas de Vancouver, onde eu aprenderia a esquiar.
     Pela primeira vez em minha vida vi a neve e ela era muito mais bonita e serena que eu imaginava. Pela primeira vez em minha vida estive diante de montanhas tão imensas e elas fizeram-me sentir a força da natureza de uma maneira que eu jamais havia experimentado. Pela primeira vez em minha vida esquiei e, pela primeira vez, senti-me livre no frio.
    Equilibrando-me sobre aquelas duas ripas, tendo diante de mim a rocha infinita, coberta de neve, senti o vento gelado descendo pela face da montanha. Perdido na paisagem branca, senti uma paz consoladora; embora tudo fosse desconhecido para mim, tudo me parecia familiar, o frio, o silêncio, a montanha. A presença muda e inquestionável da rocha que se erguia por todos os lados era como a companhia paterna em minha infância.
    Então, como fiz a vida inteira ante o silêncio de meu pai, ao pé de quem cresci, desci a face de Whistler com meus esquis, apenas arranhando a superfície da rocha insondável, da imensidão branca e silenciosa, sentindo o vento frio rasgar-me as narinas e encher-me os pulmões. Aquele pico, cravado num canto do Canadá, era a metáfora de minha vida.
    Hoje estou de volta à repartição pública, a este outro silêncio, a este outro frio ao qual, dia a dia, me habituo e compreendo.



10 de janeiro de 2015

O Peru de Natal

   O sol escreve com sombras na superfície da terra.
   Em alguns cantos do mundo, em alguns desertos austrais, é prolixo, alonga sua escrita deformando o objeto, encompridando-o. Em outros, como na nublada Inglaterra, é impreciso, redigindo sem contornos definidos.
   No centro-oeste do Brasil, não. Ali a prosa é curta e precisa. O sol a pino solta uma sombra sempre enxuta e bem delineada. Mesmo no capim alto, no pasto novo, mexido pelo vento e pisado pelo gado, está presente o estilo. No asfalto, entretanto, a forma espartana de escrita do sol do Cerrado fica mais evidente, inequívoca.
   Uma dessas histórias, escritas pelo sol do interior do Brasil, é que lhes quero contar. Uma história natalina, com milagres, mas sem rodeios.
   Na última audiência agendada para aquele ano, dias antes do Natal, seria ouvida uma testemunha num processo que se arrastava há mais de meia década na repartição. O depoente era um policial rodoviário federal que teria presenciado um acidente envolvendo dois caminhões. Do que me lembro dos autos, as carretas tinham batido de frente. Um dos caminhões, ao tentar desviar de um buraco, invadiu a pista contrária, causando a colisão. Os condutores morreram na hora.
   O processo era movido pela família de um dos motoristas contra a União Federal. Exigiam uma indenização alegando que o enorme buraco na estrada era responsabilidade do governo. Cinco anos depois do ocorrido, às vésperas das comemorações de um natal já distante dos fatos narrados no processo, eu aguardava, na sala de audiências, a chegada do policial rodoviário, para digitar seu depoimento sobre o buraco – que talvez não mais existisse ou talvez tivesse dobrado de tamanho – e sobre o acidente.
    Embora o Estado brasileiro seja laico e também suas instituições, é notável como a proximidade das comemorações do nascimento de Cristo alteram o ritmo da repartição pública. O movimento no balcão do cartório reduz; como por milagre, desaparecem advogados, peritos judiciais, autores, réus; muitos servidores agendam suas férias para essa época a fim de se prepararem para as festividades e, assim, o cartório se esvazia. Nessa burocracia mais mansa de final de ano eu aguardava a hora da audiência. Atrás de mim, numa parede branca e laica, como tantas outras paredes de repartições públicas brasileiras, estava pregada uma cruz. Pregado na cruz havia um Cristo que, como eu, aguardava aquela última testemunha antes do Natal.
    Às duas e meia chegou o advogado da família do motorista, o advogado da União e o policial rodoviário. Digitei os dados pessoais dos presentes e chamei o juiz. Sentado abaixo do crucifixo, o magistrado perguntou à testemunha se ele se comprometia em dizer a verdade. Quid est veritas? O que é a verdade? Nesses processos que se arrastam por anos, pergunto-me que verdade pode haver soterrada nos entulhos de recordações da testemunha. Sob o peso de meia década de esquecimento, o policial rodoviário disse que sim, que se comprometia em dizer a verdade. Mas qual verdade?
    Perguntaram-lhe sobre o buraco e sobre o acidente. O advogado da família esforçava-se por extrair do policial as precárias condições da estrada e conduzia suas perguntas nesse sentido. O procurador da União, por sua vez, buscava saber se o caminhão rodava acima da velocidade permitida ou se havia alguma sinalização indicando as condições da pista; tudo isso para fazer recair sobre o motorista alguma parcela de responsabilidade na sua própria morte.
   O policial rodoviário lembrava-se que havia um buraco e que atendeu ao acidente, mas não se recordava das condições de visibilidade da pista, se a curva onde ocorreu a batida era acentuada ou não, quais as condições da pista antes ou depois do buraco, a qual velocidade poderiam estar os caminhões no momento do acidente ou se existiam placas indicando o buraco ou a curva. “Não sei dizer com certeza, faz muito tempo”, repetia. Essa era a verdade: se havia alguma, estava perdida entre os cinco anos de memória daquele depoente.
   A verdade que nos restava às vésperas do Natal, eram as respostas reticentes e repetidas da testemunha.
   Todos, inclusive o Cristo pregado na parede, pareciam resignados com o resultado daquela última audiência do ano. Em sua derradeira intervenção, na tentativa de reduzir a responsabilidade da União no acidente, o advogado perguntou, sem muita esperança:
   - “O senhor se recorda se havia alguma obra sendo realizada na estrada no dia do acidente?”.
   Àquela pergunta o semblante da testemunha mudou, como se no meio de suas memórias vacilantes surgisse uma certeza.
   - “Sim, havia uma obra”.
   - “Você acha que havia uma obra ou tem certeza?” - reforçou o advogado da União.
   - “Eu tenho certeza”.
  Todos franziram as testas. Uma certeza no meio de tantos esquecimentos? O magistrado que conduzia a audiência inquiriu:
   - “Até agora o senhor não se mostrou muito certo sobre quase nada, por que a respeito da obra o senhor tem tanta certeza?”.
   - “Por causa da situação” - disse o policial de maneira enigmática, mas firme.
   Enfim, um lampejo de verdade ameaçava romper naquela última audiência do ano, às portas do Natal. O Cristo que, diante da pergunta de Pilatos “Quid est veritas?”, deu a entender ser ele a verdade, a verdade tornada homem, moveu-se no ventre frio da burocracia laica. Anunciava que, pela boca daquela testemunha viria ao mundo, tornar-se-ia verbo, tornar-se-ia carne; para então ser pregado nas paredes das repartições públicas brasileiras. A verdade ameaçava despontar naquele mar calmo de esquecimentos.
   - “O senhor poderia explicar porque essa lembrança é tão clara?” – prosseguiu o juiz.
   - “Sim. Como eu disse, foi a situação. Desculpe, mas eu tenho que explicar antes a situação para esclarecer a coisa da obra. O acidente aconteceu entre duas carretas grandes, que bateram de frente. O estrago, o senhor pode imaginar, foi grande. Uma delas estava carregada com esses perus congelados, desses de Natal. Eu fui acionado e, quando cheguei ao local da ocorrência, vi todo aquele carregamento espalhado sobre os destroços do caminhão e sobre a estrada. Minha primeira preocupação foi verificar se os motoristas estavam bem. Só que a batida tinha sido muito feia. Deu para recolher as vítimas, mas estavam mutiladas, tinha pedaço de corpo para todo lado; demorou muito para tirar tudo das ferragens. Nessa operação, além dos motoristas, encontrou-se uma outra carteira de habilitação. Então, podia ter mais alguém preso na cabine, ou até lançado para fora dela”.
   - “Só um instante” - interrompeu o magistrado - “o senhor não disse, até agora, de onde veio a certeza de que havia uma obra no local do acidente”.
   - “Não, mas eu vou dizer... é que a situação... tinha mais uma vítima. Era de dia e, como a gente tinha demorado para retirar os dois primeiros corpos e encontrar a outra habilitação, o sol lascado em cima das ferragens e do asfalto começou a derreter aquelas toneladas de peru congelado. Era verão, e o verão daqui... Virou tudo uma montoeira de carne, escorrendo gordura, água e sangue. Se tivesse algum corpo, ainda mais naquele tipo de acidente, ia ser difícil distinguir o que era pedaço de gente do que era pedaço de ave. As embalagens tinham se rasgado no impacto e as carnes vazavam para fora dos plásticos, já meio despedaçadas. Então eu solicitei que alguém arranjasse uma escavadeira para tirar aquele monte de carne da estrada o mais rápido possível, para facilitar as buscas. Para a minha surpresa e pela graça de Deus, em menos de vinte minutos, apareceu uma escavadeira no local do acidente. Por isso, vossa Excelência, eu sei que havia uma obra ali por perto. Foi coisa da providência divina aquela escavadeira... Só que nesse meio tempo começou a pipocar gente para saquear a carga derramada. Aí, com o sol a pino e o asfalto ardendo, a escavadeira retirava os perus da estrada, o povo se acotovelava – tinha gente que escorregava naquele caldo que já começava a feder –, catava o que podia e saía carregando aquelas peças de peru derretendo e, nesse meio, eu tentava identificar se despontava algum pedaço de corpo humano entre as carnes que descongelavam. Só que tudo parecia pedaço de gente, lambrecado pela mistura viscosa de gordura, sangue e água. Eu mesmo fiquei preocupado que acabassem levando partes do corpo da vítima. Calor lascado, não tinha uma sombra, que pareciam tudo escondidas debaixo das coisas. Até que uma hora o motorista da escavadeira, vendo meu desespero disse: “Se tiver algum corpo aí embaixo o povo acha. Ninguém vai querer comer pedaço de gente pro Natal”. Foi só então que eu deixei estar. Por isso eu não esqueço da situação, era uma escavadeira que revirava as carnes. Tinha uma obra por ali. Certeza”.
   Após um longo silêncio o advogado da União perguntou, menos por interesse processual que por curiosidade: “E acharam a outra vítima?”.
   - “Não. Não tinha outra vítima. É aí que eu digo: A situação. A carteira de habilitação que encontramos havia sido esquecida por outro motorista num dos caminhões, informação que demoramos a conseguir da empresa de transportes. E eu te digo, mesmo assim, mesmo que ele nunca tivesse entrado naquela carreta, para mim, não ter achado o corpo dele no meio do amontoado de peru descongelado, foi como se alguém tivesse renascido. Foi mesmo obra de Deus, se você acredita”.
  Por um instante todos naquele recinto ponderaram sobre aquele milagre impróprio – o renascimento, sob o sol do Cerrado, de um desconhecido que nunca morrera – e, sem mais delongas, o juiz encerrou a audiência e retirou-se. Aquele processo veria mais um ano se passar e só voltaria a ser movimentado após o recesso judicial.
   O advogado da família do motorista, ajeitando os documentos na pasta, ainda ponderou em voz alta: “Sabe quem eu gostaria de arrolar como testemunha nesse processo? O Sol. Queria saber o que ele estava pensando”. Os presentes, sorrimos ante as limitações do direito processual brasileiro.
   Aguardei que todos se retirassem, fechei a sala de audiências e devolvi os autos para uma das prateleiras do cartório.
   Logo seria Natal e o Cristo pregado na cruz, como vem fazendo há mais de dois mil anos, renasceria.

   De fato, dias depois, na noite de Natal, vi-me diante de uma grande ave assada. Enquanto mastigava um pedaço generoso, mordi a língua. Senti o sangue quente escorrer pelas gengivas. Com a dor alucinante não conseguia distinguir o que era alimento, o que era língua, o que era sangue, o que era saliva dentro de minha própria boca. “Este é o meu corpo... este é o meu sangue. Comei e bebei em memória de mim”. Lembrei-me da escavadeira a revirar os cadáveres de perus derretidos em busca de um corpo. Lembrei-me do renascimento do homem que não morrera, do milagre impróprio escrito pelo sol do Cerrado.

P.S.: Em minha adolescência li um conto chamado "O Peru de Natal", escrito por Mário de Andrade. Desde essa leitura, fiquei com vontade de escrever um conto sobre o Natal, igual ao do Mário de Andrade, que não fosse apenas um conto natalino. Hoje, matei minha vontade.


8 de dezembro de 2014

Deus na Repartição Pública

   Li em algum canto, em algum comentário sobre a obra de Marx - não me recordo nem o autor nem o título do livro -, uma critica veemente ao laicismo como sendo uma forma de religiosidade.
   Nesse livro, até onde consigo me lembrar, o autor define o laicismo como a crença no Capital, em sua eternidade, em sua onisciência, onipresença e onipotência.
   Trata-se de uma ressignificação do termo. Deixa-se de compreender o laicismo como a separação entre religião e Estado, para compreendê-lo como uma nova forma de religiosidade.
   Sob este aspecto, arrisco-me a afirmar que talvez, dentre os Poderes da República, o único que verdadeiramente se converteu a essa nova religião tenha sido o Pode Judiciário.
   Se olharmos para o período eleitoral recente, veremos que as religiões tradicionais, cada uma com seu Deus, sua doutrina, etc, ainda encharcam os Poderes Executivo e Legislativo da Federação.
   Qualquer candidato a um cargo executivo precisa do apoio de grupos religiosos para eleger-se; no legislativo temos bancadas cujos programas têm como base diretrizes religiosas.
   Mas o mesmo não ocorre no Poder Judiciário, ao menos não de maneira tão acintosa.
   A burocracia Judiciária não precisa de um Deus, nem para se perpetuar no tempo e no espaço, nem como uma causa primeira para fundamentar sua existência. O Poder Judiciário não é refém da religiosidade tradicional.
   O Judiciário precisa acreditar apenas em uma coisa: que os homens sempre circularão bens jurídicos (direitos) e que nessa circulação sempre haverá dissensos e disputas.
   A partir dessa promessa, da promessa de uma circulação infinita e conflituosa de bens e capitais, o Poder Judiciário tem garantida sua vida eterna.
   O Poder Judiciário é o único realmente fiel à essa religião laica, pois foi o único poder da República a efetivamente prescindir de todos os outros deuses e dedicar-se apenas ao Capital, que é o seu fim e sua causa.
   Quanto a mim, burocrata num cartório judicial, sinto que exerço um sacerdócio no baixo clero da Justiça. E digo-lhes, ao ajudar a movimentar a máquina burocrática do Poder Judiciário, sinto, verdadeiramente, a eternidade da circulação do capital.
    Sinto-a concretamente, cada vez que junto um pedido das partes ao processo, cada vez que informo aos envolvido sobre uma decisão judicial, cada vez que um processo é remetido a uma instância superior, sinto a eternidade do capital como jamais senti qualquer outro deus.
    Não sei se o Estado Brasileiro é verdadeiramente laico, mas posso afirmar que o Poder Judiciário o é.
    Eu, como já devem saber, sou um burocrata convicto.


2 de dezembro de 2014

São

   Outro dia, dentre as infinitas petições que ingressam diariamente no cartório, deparei-me com um laudo psiquiátrico.
   Nele, o médico concluía que o periciando era esquizofrênico. Até aí, nada de novo. Mais um diagnóstico dentre os milhares que povoam os processos judiciais.
    O que me chamou a atenção foi o lampejo de literatura, no meio da massa de textos burocráticos, que apontou num parágrafo do laudo; o psiquiatra deu-se ao trabalho de, no corpo de seu relatório, reproduzir um trecho da conversa que teve com o paciente.
   Essas parcas linhas, esses raros momentos, essas pequenas gentilezas que nos fazem alguns operadores do direito, renovam o ar estagnado da repartição pública. É como um trago de boa bebida ao encarcerado.... a mim, que vivo os dias repetitivos da burocracia.
    Pois entre as perguntas e as respostas rotineiras do laudo técnico, o perito descreveu, sucintamente, que, perguntado sobre o que lhe incomodava, o paciente respondeu: "Às vezes, penso que toda realidade é uma ilusão, mas eu sinto que não é só isso".
    Quando o perito indagava o que ele queria dizer com essa afirmação, ele repetia a frase.
  Este diálogo, acrescentado ao histórico médico do paciente e a outros elementos, permitiu ao psiquiatra concluir tratar-se de um esquizofrênico.
   Sentado em meu posto de trabalho, longe do médico e do paciente, alheio ao bem jurídico discutido no processo, lendo aquele trecho, fiquei me perguntando se a insanidade reportada no laudo decorria de um afastamento da realidade, ou se de uma perturbadora proximidade do real, de um excesso de lucidez.
   Entre um pensamento e outro, voltei ao processamento das petições, esses documentos que ditam a normalidade do judiciário, que me mantém afastado da loucura, ancorado no real... embora, às vezes, observando a máquina burocrática em seu movimento infinito, eu pense que toda a realidade é uma ilusão, mas sinto que não é só isso.


27 de novembro de 2014

Baquaqua

   Há alguns dias secretariei uma audiência de instrução dum processo na qual foi ouvida uma única testemunha.
   Nos autos, discutia-se se o Instituto Nacional do Seguro Social -INSS deveria ou não reconhecer o tempo de serviço rural de uma senhora que desejava se aposentar.
   É difícil a comprovação dos períodos trabalhados pelos rurícolas, pois não são atividades comumente documentadas, ainda mais quando os fatos se deram há décadas atrás.
   Para decidir tais casos, não raro o judiciário se apoia na prova testemunhal.
   O objetivo da colheita daquele depoimento era saber se a autora da ação tinha ou não trabalhado em alguma atividade rural e por quanto tempo.
   Feita a qualificação da testemunha, nome completo, documento, endereço, etc, o juiz perguntou-lhe: "A senhora conhece a autora?"
   -"Sim, eu trabalhei mais ela na época do sítio."
   -"Há quanto tempo a senhora trabalhou com a autora?"
   -"Uns nove a onze anos".
   -"Nove a onze? Então a senhora trabalhou com a autora no sítio, mais ou menos entre 2003 e 2005?".
   -"Não senhor. Nove a onze anos... mais ou menos quando nós tínhamos nove a onze anos de idade".
   Esta última interpretação, da frase imprecisa: "Uns nove a onze anos", tão elementar para a testemunha, jamais sequer cruzou meus pensamentos enquanto eu digitava o seu testemunho.
   O tempo de trabalho rural que se estava tentando comprovar naquela tarde, na sala de audiências, era um tempo de trabalho rural infantil.
   Dali em diante, ouvi-a discorrer sobre as atividades rurais a que se dedicava e sentia uma certa dificuldade em imaginá-las sendo realizadas por uma criança.
   Era uma dificuldade interpretativa, de transportar-me para o tempo e o lugar do texto. Um tempo e um país onde não havia infância.
   Ouvi-la era como ler o relato de "Mohammed Gardo Baquaqua", nascido livre em Zoogoo, na África Central e trazido como escravo para o Brasil em 1845.
   Há, na leitura desse livro, "An interesting narrative. Biography of Mahommah G. Baquaqua", como houve na audiência de instrução, uma certa dificuldade em se colocar no lugar e no tempo do narrador.
   Bens jurídicos que consideramos indisponíveis, nessas narrativas, mostram-se tão ou mais desprotegidos que qualquer bem de consumo: a infância e a dignidade humana.
   Pensando sobre o assunto, questionei-me que tempo e lugar eram esses, tão distantes. O tempo é hoje e o lugar é aqui.


13 de novembro de 2014

Manoel de Barros e a burocracia

   No inciso III do poema "Uma didática da invenção", Manoel de Barros ensina o seguinte:

"Repetir repetir - até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo".

   Há seis anos, na burocracia judicial, repito. Repito insistentemente como orienta o poeta. "Repetir repetir...". E ao final de cada repetição, há seis anos, tudo segue igual... até o diferente mantém-se igual.

   Falta-me, nessa vida burocrática, o dom do estilo. E lendo e relendo a didática da invenção, escrita por Manoel, não encontro uma outra forma de repetir para que, repetindo, fique diferente.

   Queria perguntar ao didata como repetir. Como repetir aquilo de modo que, repetindo, não fique igual.

   Só que hoje Manoel morreu.

   Sinto um calafrio na espinha. Sinto o presságio de que talvez, faltando-me o dom do estilo, não consiga repetir e repetir até que a burocracia fique diferente. Sinto o augúrio do mesmo, infinito, a se realizar agora e sempre. Pressinto o cárcere eterno da repetição.

   Sinto o peso assombroso do inciso X do poema didático, do abandono interminável a que nos deixa o poeta:

"Não tem altura o silêncio das pedras".


8 de novembro de 2014

Torre de Marfim

   Estou lendo um livro de Henry Rider Haggard, "As Minas do Rei Salomão", traduzido por Eça de Queirós. Comprei-o num sebo, por ser uma tradução de Eça, por custar R$ 3,00 e por estar de férias e poder ler o que me apraz.
   O livro foi escrito em 1885 e, logo pela página 50, o autor narra uma caçada de elefantes. Os fatos são descritos como uma façanha, desprovidos de qualquer reprovação moral. Ao todo, oito animais são abatidos pelo marfim de suas presas.
   A naturalidade com que se encara a morte de um animal pelo mero valor comercial do marfim é o que revela a distância temporal que separa a obra do leitor. No mundo de hoje, essa matança seria desprovida de sentido; pesaria sobre ela um forte julgamento moral, legal e ambiental.
   Assim, ao ler o trecho em que o autor, após a caçada pondera: "Oito elefantes numa manhã, antes do lunch, é decente", o leitor fica se interrogando: "Que mundo e que tempo foi esse em que a morte de oito elefantes era decente?".

   Às vezes, ao ler os processos durante o expediente na repartição, penso que haverá um tempo em que as pessoas não necessitarão de um Estado dizendo quem está certo e quem está errado. Haverá um tempo em que as pessoas serão conscientes de seus direitos e de suas obrigações e, nesse tempo, os envolvidos cumprirão com seus deveres e terão seus direitos respeitados. Nesse tempo, cada um decidirá o que é melhor para si, dentro de seus direitos, respeitando o direito dos outros e, quando houver alguma dúvida, essas partes serão capazes de decidir o que é melhor para todos os envolvidos.

   Nesse tempo, o Estado não será uma entidade externa, essa máquina gigantesca constrangendo os indivíduos; o Estado será uma ideia, uma cultura e estará dentro de cada pessoa e as pessoas serão cidadãs; e ao escolherem, ao tomarem suas decisões, tornarão real o Estado que carregam dentro de si.

   Nesse dia eu terei me tornado um caçador de elefantes que, em seu tempo de glória, fazendo girar a lenta máquina da burocracia, afirmava que milhares de processos, arrastando-se por anos "é decente". Sobre minhas funções e sobre os processos pesará a pergunta: "Que mundo e que tempo foi esse em que era decente aguardar que decidissem por você o que é ou não direito?".

   Um dia, e espero que esse dia não tarde, será mais valiosa a cidadania -  esse elefante de rara beleza -, que o marfim judicial; e sacrificar o primeiro pelo segundo não será uma escolha decente.

foto do presidente Theodore Roosevelt após ter matado um elefante (1909)





4 de novembro de 2014

As eleições sob um olhar burocrático

   No cotidiano da burocracia judicial aprendi que há uma relação direta entre a  profundidade com que se investiga os fatos e a aderência do direito a eles.
   Quanto mais bem delimitados os acontecimentos, tanto mais claro se torna o direito aplicável ao caso.
   Por outro lado, se os fatos estão obscuros, se não existem elementos que sustentem como e que aquilo que se alega realmente aconteceu, então se tem a nítida sensação de que o direito não consegue alcançar a realidade, senão a custosas voltas e rodeios processuais e jurisprudenciais.
   Se há um ensinamento burocrático que tirei dessa minha vida enfurnado num cartório judicial é esse: o direito adere ao fato como pode. E se o fato é minguado o direito irá se contorcer e se distorcer para tentar agarrar-se a essas migalhas de realidade.

   Notei que não publiquei nenhuma postagem sobre as eleições presidenciais. Então aqui vai:

   Nessas conturbadas semanas que se passaram, um dos fatos mais bradados pelos corredores da repartição foi o de que o programa bolsa família elegeria a presidente Dilma Rousseff. Pelo modo como esse fato era narrado via-se logo que não se tratava bem de um fato, mas de um argumento que se construía, na sua forma mais radical, mais ou menos da seguinte maneira.

Premissa 1: A capacidade de um indivíduo de obter recursos e satisfazer suas necessidades está diretamente relacionada com a quantidade de liberdade desse indivíduo.

Premissa 2: O programa de transferência de renda "bolsa família", ao dar diretamente a renda (dar o peixe e não ensinar a pescar) tolhe a capacidade do indivíduo de obter recursos.

Conclusão: O programa "bolsa família" reduz a quantidade de liberdade do indivíduo.

   Um dos corolários desse raciocínio é que o voto dos beneficiados pelo bolsa família seria um "voto de cabresto", pois os indivíduos não estariam escolhendo livremente.

   Nunca concordei com esse raciocínio, desde sempre pareceu-me anêmico, embora, devo confessar, nunca me tivesse detido para analisá-lo. Mas tomado pelas agitações do período eleitoral e por força do hábito burocrático achei que valeria a pena olhar para os fatos e ver porque, afinal, o "direito" criado nesse raciocínio parece ter tão pouca aderência à realidade.

    Amartya Sen, economista indiano, prêmio Nobel, lança uma luz sobre os "fatos" que circularam pelos corredores da repartição durante essas eleições que "dividiram o país".

    Quanto à premissa 1, Sen aponta que ao se definir a liberdade pela capacidade de obter recursos está-se limitando a liberdade a uma liberdade utilitária, focada no resultado final do exercício da capacidade de obter recursos: comprar algo, realizar uma vontade, etc. Mas, com isso, deixa-se de entender a liberdade como expansão das capacidades, em geral, de um indivíduo - não apenas capacidade de obter recursos e satisfazer suas vontades. Sen aponta que a liberdade é mais que o exercício da liberdade. Liberdade é também a expansão da própria liberdade, a expansão das capacidades do indivíduo, independentemente do fim que ele queira dar a elas.
   A premissa 1, esse primeiro "fato" propagado pelos corredores da burocracia, portanto, não está descrito de maneira completa, o que pode fazer com que o direito não encontre nele aderência suficiente.

   A premissa 2, de que os programas de transferência de renda "tolhem" a capacidade do indivíduo de obter renda, seguindo o raciocínio de Sen, sofre do mesmo problema, uma certa anemia do real. Os programas de distribuição de renda, numa visada superficial sobre os fatos, "tolhem" essa capacidade utilitária de obtenção de renda, entretanto expandem outras capacidades. Amartya Sen observa que, em situações de extrema carência, o indivíduo sequer tem noção das possibilidades das quais está desprovido, das capacidades que está sendo privado de desenvolver. Em situações de extrema pobreza, explica o indiano, a própria noção de capacidade está tolhida no indivíduo. A transferência de renda nessas situações, portanto, não tolhe as capacidades, mas as expande, pois retira o indivíduo de uma condição de miserabilidade na qual ele sequer percebia que estava alijado de desenvolver qualquer de suas capacidades mais elementares. O "fato" descrito na premissa 2, portanto, também encontra-se incompleto, o que faz com que suspeitemos que a conclusão que daí resulte tenha muito pouca aderência ao real.

   Conclusão. A conclusão de que programas de transferência direta de renda limitam a quantidade de liberdade de um indivíduo, pelo que vimos, encontra-se calcada numa visão incompleta e distorcida da realidade. Amartya Sen, em seus estudos, aponta que, ao contrário do que se bradou no calor das discussões eleitoreiras, os programas de transferência de renda permitem aos indivíduos que saiam de um estado de privação de capacidades para um estado de desenvolvimento dessas capacidades individuais.

   Assim, suspeito que sobre o voto desse indivíduo, beneficiado pelo programa "bolsa-família" não pesa um cabresto.  Pesa apenas a desigualdade social que o tolheu do desenvolvimento de suas capacidades.
   Norteado pela percepção dessa desigualdade, percepção essa tornada possível pelos programas de transferência de renda, ele escolheu seus candidatos. Pode haver voto mais livre que esse?

   Revistos os fatos, um outro direito se aplica. Ao meu ver, um direito muito mais calcado no real e que não carece de distorções para sua aplicação.

   No mais, perdoem-me esse tique burocrático de querer esmiuçar os fatos.

   P.S.: As ideias de Amartya Sen podem ser encontradas no livro cuja capa reproduzo abaixo.