17 de maio de 2016

O Urim e o Thummim

“God does not play dice”.

Albert Einstein

    Houve um tempo em que Deus forneceu respostas às perguntas dos homens.

   Ah, sim... Esse tempo existiu; quando criador e criatura tinham ainda algum assunto em comum, quando ainda habitavam o mesmo mundo, dividindo suas angústias e suas necessidades, quando ainda precisavam falar entre si.

    Isso tudo foi antes de se afastarem, de tornarem-se estranhos uns ao Outro, de estarem sempre em cômodos distintos, desviando os olhares, evitando os trajetos alheios... Antes de se tornarem mutuamente desnecessários. Mas esse tempo de conversas existiu… entre o Gênesis e o Deuteronômio.

    Foi, por certo, um período de dúvidas e incertezas, de ambos os lados. Para onde ir? O que fazer nesse lugar recém-criado? Como habitá-lo? Como ser no meio de uma criação desprovida de sentido? Como inventar os sentidos? Os homens perguntavam, erguendo os braços aos céus, porque verdadeiramente desconheciam as respostas. Estavam sós em suas dúvidas. E Deus respondia para certificar-se que seria ouvido como a única verdade. Estava só em suas certezas.

     Eram duas grandes solidões que se enxergavam uma na outra, num mundo que ainda ecoava como um lar desabitado, sem mobílias, sem quadros ou esculturas, sem lembranças. E uma solidão não queria ser a outra, supondo-se menos só, supondo bastar-se.

    Homens e Deus escoravam-se em ombros estranhos para não mergulharem no isolamento alheio. Os homens, porque Deus lhes parecia muito profundo e não sabiam nadar. Temiam o afogamento. Deus, porque os homens lhe pareciam muito rasos e não poderia afundar. Temia fraturar-se na falta de fundo humana. Para se manterem afastados, apoiavam-se um no outro, como lutadores de Judô.

    Nesse medo mútuo, de desequilíbrio, tremiam, tocavam-se, agarravam-se, olhavam-se nos olhos, fitando órbitas vazias e precisavam comunicar-se de alguma forma para não caírem.

    Houve um tempo em que os homens bailaram com o criador ao som das esferas celestes, na sala de um mundo vazio.

    Muitas gerações passariam antes que Deus desse seu salto de fé e mergulhasse na rasura humana, tornando-se carne, dando cabo ao baile.

    Mas nessa época de inseguranças, da qual lhes falo, Deus ainda agarrava-se para não cair e ponderava muito suas palavras. Quem é só precisa ser safo. Não podia ser mal interpretado, pois um passo em falso dos homens poderia significar a sua queda. Por isso, nesse tempo, somente dava respostas diretas a perguntas específicas. As respostas de Deus eram despidas de enigmas.

    Ouvia-se Deus, não pela boca de um cristo. Não. Mas por pedras… as respostas eram sólidas e firmes, tão firmes que nelas se podia apoiar.

    Muito antes de falar por parábolas, para aqueles que tivessem ouvidos para ouvir, muito antes de falar para a imensidão surda do deserto, Deus falou a quem lhe dirigia perguntas inequívocas e que exigiam uma resposta determinada.

     Mais que ter ouvidos para ouvir, era imperioso querer questionar.

    Isso porque também os homens se equilibravam para não cair. As perguntas e a interpretação das respostas garantiam-lhes o equilíbrio que precisavam para não mergulharem nas profundezas do criador. Não queriam palestras ou divagações, queriam respostas. 

    Ah, sim... este foi um tempo em que Deus falou para homens que não eram como nós e para uma fé que não se assemelhava a esta que se professa hoje. Falou para homens que duvidavam com todas as suas forças e com todas as suas forças acreditavam.

    Como Jacó quando, às margens do Rio Jaboque, lutou com Deus.

   Na capoeira com o divino, levantando pó no breu de um mundo recém-criado, numa luta que varara uma noite sem fim, antes de romper a aurora, Jacó – ferido no ciático – gritou: “Não te soltarei se não me abençoares”.

   Somente uma alma que deseja uma resposta honesta suporta o parecer das pedras.

  Aos que sabiam perguntar Deus tinha duas respostas: Sim… ou Não. Nesse tempo em que os homens eram senhores de seus problemas, Deus falava pouco.

  E essas duas únicas palavras de Deus, por demasiado curtas, eram lidas em um par de rochas chamadas “Urim” e “Thummim”, que, segundo consta nas Escrituras, iam penduradas no peito de Aarão, cobrindo-lhe o coração. Cabiam na palma de um homem e eram lisas, polidas pela eternidade, mais antigas que o mundo, porque precederam o mundo… “No princípio era o verbo...”.

   Talvez aquelas pedras tivessem sido montanhas, planetas, polidos à exaustão até adquirirem aquelas precisas feições rochosas das palavras de Deus… o “Urim” e o “Thummim”.

   O verbo, muito antes de fazer-se carne, foi pedra. “Urim”, do babilônio, significa comando ou ordem. “Thummim”, oráculo.

    Essas pedras tinham a forma de dados, cada uma com seis faces. Eram a voz de Deus, estavam no mundo muito antes do próprio mundo. Feita a pergunta, eram lançadas e quando pousavam no chão, o criador falava. Sim ou não. Apenas.

     Agora, falar pouco não significa pouco falar.

   Isso, acredito, é o que há de mais interessante nesse jogo de dados lançado por Deus. As duas pedras, como já disse, tinham cada uma seis faces. Assim, cada vez que se lançava o “Urim” e o “Thummim”, tinha-se trinta e seis possíveis combinações.

    Deus tinha trinta e seis formas de dizer sim e outras trinta e seis maneiras de dizer não. Para cada uma das perguntas formuladas pelos homens havia um sim, ou um não específico. Interpretar as pedras era um sacerdócio.

    Com a queda de Jerusalém, em 586 a.C, sob os destroços do templo de Deus, perderam-se os dados.

    Nunca mais os encontraram e sobreveio o silêncio secular.

   Milênios depois da jornada bíblica dos dados de Deus, coube a mim encontrar o “Urim” e o “Thummim” perdidos.

    Tinha meus cinco ou seis anos de idade. Foi por essa época que comecei a perceber que haviam águas profundas nas quais eu não poderia cair… era o mundo inacessível de meu pai, onde eu não saberia nadar, um mundo introspecto, intimidador e que parecia olhar toda a criação de cima para baixo.

    Também por essa época, dei-me conta que meu universo era, até certo ponto, refratário àquele homem. Minhas dúvidas eram-lhe mais distantes que a origem do mundo.

     No interior de um automóvel, no inverno de Curitiba, evitávamo-nos.

    Como os primeiros habitantes de um mundo recém-criado – desse cosmos infinito da relação pai e filho – não nos conhecíamos. Éramos estranhos um ao outro.

    O que significávamos nesse universo? O que devíamos fazer? Como deveríamos ser? Como ser pai? Como ser filho?

   Tateávamos, buscando no outro quem deveríamos ser. Pai e filho... eram conceitos vazios que precisavam ser preenchidos. Assombrava-nos a solidão da criação, lançando sobre nós a penumbra de uma ignorância milenar, de um pavor original.

    Eu perguntava sem saber ao certo como um filho deveria perguntar. Meu pai respondia sem saber ao certo como um patriarca deveria responder.

     Estávamos sós em nossas ignorâncias.

    No carro, meu pai dirigia lançando-me, ocasionalmente, olhares pensativos, que logo se desviavam e se espichavam pelo asfalto que se estendia à nossa frente. De meu assento, eu erguia o pescoço para ver para onde aquele olhar tinha ido, depois voltava às minhas tralhas.

     Éramos duas solidões habitando um mundo recém-criado.

     As conversas tinham a extensão temporal de um lance de dados que, ao fim, sentenciavam: Sim ou não.

    Meu pai falava pouco. Era um oráculo. E aquelas respostas binárias frustravam-me. E nessa frustração dediquei-me ao sacerdócio tal qual Aarão; aprendi a ler as inúmeras faces de cada sim e de cada não.

     Um sim com um sorriso era diferente de um sim cansado. Um não desapontado era diferente de um não respeitoso.

    Um não introspectivo podia significar: “Isso não é para mim, não me diz respeito, mas nada impede que seja algo importante para você”.

     Um sim condescendente, por sua vez, podia significar: “Se quiser, faça, mas você acredita mesmo que é isso que você quer?”

     Haviam inúmeras manifestações do binômio, trinta e seis formas de se dizer sim e outras trinta e seis formas de se dizer não.

    Do banco do carona eu contemplava as palavras que ecoavam no interior frio do carro e tentava desvendá-las, pelo seu tom, pelo instante em que haviam sido ditas, pela respiração que as precedia ou sucedia, pelo tipo de silêncio que as anunciava ou as sepultava…


   E assim, aos poucos, milênios depois da queda de Jerusalém, desenterrei o “Urim” e o “Thummim” dos escombros da cidade de Deus.


7 de março de 2016

Dia Internacional da Mulher

     Ontem, estava lendo o livro “A Confissão da Leoa”, de Mia Couto, escritor moçambicano.

     Num dos capítulos desse romance, uma personagem, chamada Mariamar, é quem fala.

    Agora, por mais que eu apurasse o ouvido e por mais que Mariamar falasse e falasse naquelas linhas de Mia Couto, eu não conseguia ouvir uma voz feminina.

      A todo momento pegava-me confuso: é mesmo uma mulher que está a falar?

    Eu que ouvia mal? Ou será que, no fundo, pela boca de Mariamar era um homem moçambicano quem falava?

     Seja nos meus ouvidos, ou na pena de Mia Couto, a voz feminina de Mariamar desaparecia. Reli o capítulo todo, tentando encontrar Mariamar, tentando ouvi-la, em vão. Era como se a tivéssemos sufocado. Eu e o escritor moçambicano.

     Entristeci-me e, triste, adormeci. Queria ouvir Mariamar.

    Então hoje, no dia internacional da mulher, por certo não me meterei a discorrer sobre mulheres, ou para mulheres, pois pode suceder o mesmo que sucedeu com Mariamar. Pode ser que eu não encontre a voz que deve falar.

     Por isso, fui buscar uma voz que sei feminina, um discurso de uma mulher para outras mulheres. Uma fala de Virgínia Woolf, em 1931, na National Society for Women's Service.

      Com essa voz é que eu gostaria de celebrar o Dia Internacional da Mulher no blog.  

    Transcrevo abaixo parte do ensaio denominado “Professions for Women” (Profissões para Mulheres).

       “Ah! Mas o que significa, para uma mulher, ser “ela mesma”? Quer dizer, o que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. E eu não acredito que vocês mesmas saibam. Sequer acredito que qualquer um possa alegar saber até que ela, a mulher, tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas às habilidades humanas. Essa, de fato, é uma das razões pelas quais eu vim aqui. Pelo respeito que tenho por vocês, mulheres, que estão nesse processo de nos mostrar, por meio de suas experiências e experimentações, o que uma mulher é. Pelo respeito a vocês, mulheres, que estão nesse processo de nos fornecer, por meio de seus sucessos e insucessos, essa informação tão preciosa.

        (...)

      Vocês, mulheres, conquistaram espaços, recintos e cômodos só seus. Aposentos que até então eram possuídos e ocupados exclusivamente por homens. Vocês são capazes, embora não sem seu imenso labor e esforço, de dispor desses espaços. Vocês hoje ganham suas quinhentas libras por ano. Mas essa liberdade é apenas o começo – os cômodos e quartos são só seus, mas eles ainda estão vazios. Esses espaços devem ser mobiliados, devem ser decorados, devem ser compartilhados. Como você irá mobilhá-lo, como irá decorá-lo? Com quem irá dividi-lo e sob quais condições irá compartilhá-lo? Essas, eu acredito, são questões de maior relevo e interesse. Pois, pela primeira vez na história vocês são capazes de perguntá-las; pela primeira vez vocês são capazes de decidir, por si mesmas, quais devem ser as respostas. De bom grado eu ficaria para discutir essas perguntas e as possíveis respostas, mas não esta noite. Meu tempo acabou e eu devo encerrar”.


Virginia Woolf, 1931.


4 de março de 2016

A Notícia do Dia

      Perguntaram-se de que lado estou quanto à condução coercitiva do ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva à delegacia da Polícia Federal. Deixem-me contar-lhes uma breve história:

       João, vamos chamá-lo assim.

       João foi ao escritório de Vinícius – vamos supor esse nome também – onde o matou e roubou um  talão de cheques. Depois, fugiu.

      Encontraram o corpo, mas ninguém sabia quem havia matado Vinícius e roubado as folhas de cheques.

      A esposa de Vinícius tinha uma suspeita… suspeitava, corretamente, de João. Sexto sentido das mulheres.

      A fiel esposa resolveu, então, após alguns dias, entrar em contato com João e falar que o banco havia ligado informando que um cheque fora devolvido e que, para não causar prejuízos a João, ela o reembolsaria.

      O raciocínio da mulher era o seguinte: se João aceitasse o dinheiro e tivesse o cheque, significaria que ele era quem havia tentado descontar o cheque roubado e, portanto, poderia conhecer, ou mesmo ser, o assassino de seu amado.

      Para presenciar a confissão, a esposa chamou a polícia e armaram a cena.

    Acontece que, no confronto com João, a conversa tomou rumos inesperados e as versões da esposa e de João começaram a divergir. No meio daquilo tudo, as folhas do talão de cheques roubado apareceram. Deu barraco!

      Os policiais, diante do imbróglio, levaram ambos para a delegacia para a colheita de depoimentos.

     Pode parecer piada, mas João alegou que ele não poderia ser conduzido coercitivamente para a delegacia. Entrou com o Habeas Corpus nº 107644 que foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

      A maior Corte desse País decidiu o seguinte:

    “Nessas circunstâncias (as circunstâncias descritas acima), tenho que é plenamente possível a condução dos envolvidos à presença da autoridade policial para prestarem maiores informações, sem que haja necessidade de mandado judicial ou que estejam em situação de flagrante delito” (Voto do Ministro Ricardo Lewandowski, acompanhado pelo Ministro Luiz Fux e pelo Ministro Dias Toffoli).

     Nessas condições específicas, do barraco armado entre a esposa de Vinícius e João, o Supremo Tribunal Federal julgou o Habeas Corpus nº 107644, afirmando ser possível a condução de pessoas para prestar esclarecimentos naquela situação.

      A Ementa da Decisão ficou assim… desculpem reproduzir um texto tão chato aqui. Pulem se quiser.

EMENTA: HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL E PROCESSUAL PENAL. CONDUÇÃO DO INVESTIGADO À AUTORIDADE POLICIAL PARA ESCLARECIMENTOS. POSSIBILIDADE. INTELIGÊNCIA DO ART. 144, § 4º, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E DO ART. 6º DO CPP. DESNECESSIDADE DE MANDADO DE PRISÃO OU DE ESTADO DE FLAGRÂNCIA. DESNECESSIDADE DE INVOCAÇÃO DA TEORIA OU DOUTRINA DOS PODERES IMPLÍCITOS. PRISÃO CAUTELAR DECRETADA POR DECISÃO JUDICIAL, APÓS A CONFISSÃO INFORMAL E O INTERROGATÓRIO DO INDICIADO. LEGITIMIDADE. OBSERVÂNCIA DA CLÁUSULA CONSTITUCIONAL DA RESERVA DE JURISDIÇÃO. USO DE ALGEMAS DEVIDAMENTE JUSTIFICADO. CONDENAÇÃO BASEADA EM PROVAS IDÔNEAS E SUFICIENTES. NULIDADE PROCESSUAIS NÃO VERIFICADAS. LEGITIMIDADE DOS FUNDAMENTOS DA PRISÃO PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM PÚBLICA E CONVENIÊNCIA DA INSTRUÇÃO CRIMINAL. ORDEM DENEGADA. I – A própria Constituição Federal assegura, em seu art. 144, § 4º, às polícias civis, dirigidas por delegados de polícia de carreira, as funções de polícia judiciária e a apuração de infrações penais. II – O art. 6º do Código de Processo Penal, por sua vez, estabelece as providências que devem ser tomadas pela autoridade policial quando tiver conhecimento da ocorrência de um delito, todas dispostas nos incisos II a VI. III – Legitimidade dos agentes policiais, sob o comando da autoridade policial competente (art. 4º do CPP), para tomar todas as providências necessárias à elucidação de um delito, incluindo-se aí a condução de pessoas para prestar esclarecimentos, resguardadas as garantias legais e constitucionais dos conduzidos. IV – Desnecessidade de invocação da chamada teoria ou doutrina dos poderes implícitos, construída pela Suprema Corte norte-americana e e incorporada ao nosso ordenamento jurídico, uma vez que há previsão expressa, na Constituição e no Código de Processo Penal, que dá poderes à polícia civil para investigar a prática de eventuais infrações penais, bem como para exercer as funções de polícia judiciária. (...)

       Nas suas ementas, todo mundo sabe, o Supremo Tribunal Federal expõe apenas a aplicação do direito, sem se reportar ao caso concreto analisado. Isso não significa que os fatos não existiram, nem que possam ser ignorados ao interpretar a ementa.

      Pois bem, sem esquecer do barraco causado na frente dos policiais pela viúva e pelo assassino, vejo que a decisão que decretou a condução coercitiva do ex-Presidente Luis Inácio Lula da Silva, utilizou como fundamento jurídico a referida decisão do Supremo Tribunal Federal. Assim como eu fiz acima, copiaram e colaram a ementa do Habeas Corpus nº 107644.

      Lindo.

      Agora, a decisão do Juiz Federal só não explica qual a identidade fática entre o caso do latrocínio que desaguou num barraco entre a esposa do falecido e o assassino na frente dos policiais - e que legitimou a condução dos barraqueiros à delegacia – e a situação fática do ex-presidente.

     No caso do barraco descrito acima, os Ministros, ao proferirem seus votos, fizeram inúmeras ressalvas quanto à particularidade do caso.

     O Ministro Ricardo Lewandowski, por exemplo, alertou o seguinte: “Importante observar, nesse contexto, que a custódia do paciente ocorreu somente depois de ele confessar, informalmente, a prática da infração penal”.

   O Ministro Dias Toffoli, também ressalvou que a condução coercitiva, no caso específico, justificava-se “em vista da posse pelo paciente (João) de objetos (no caso, folhas de cheque) que estavam em poder da vítima antes de sua morte e que foram objeto de subtração”.

      O Ministro Marco Aurélio, que acabou vencido, disse que nem diante do barraco poderiam ter sido levados à delegacia: “Ninguém será preso senão em flagrante delito – não se trata de flagrante delito – ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judiciária”.

      Perdoem-me meus amigos que vibraram com a decisão do Juiz Moro, mas, se não me engano, a situação do Lula e do barraco entre a viúva e o assassino não é a mesma. Os fatos, ao que parece, também não têm qualquer correspondência entre si. E se os fatos são assim tão diferentes, como pode uma decisão aplicar o mesmo direito a ambos sem prestar qualquer satisfação? Sem sequer se dar ao trabalho - e o trabalho do Juiz é esse - de construir uma fundamentação que estabeleça a mínima correlação entre os dois casos?

    E se a decisão judicial se fundamentou numa interpretação da Suprema Corte absolutamente inaplicável ao caso do Lula ela carece de fundamento jurídico.

      E carecendo de fundamento jurídico, o que a fundamenta?

     Nada. Ela se torna uma peça arbitrária, antidemocrática, pois descolada da lei formulada pelos legisladores eleitos pelo povo "Ninguém será preso senão em flagrante delito" e por distorcer as decisões do Supremo Tribunal Federal, ao fazê-las incidir sobre quadros fáticos que não permitem sua aplicação.

      Quando muito, podemos dizer tratar-se de uma peça política. 

     Acho que isso me tira de cima do muro e do lado do Moro, quanto à condução coercitiva do ex-Presidente.






25 de fevereiro de 2016

Ondas Gravitacionais

A detonação rasgou a noite e o mundo.

-Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado.

Mia Couto


       Vejo nascer na tela do computador um borrão, que logo ganha os contornos de um menino de três anos. As pausadas e gordas notas musicais – sempre as mesmas, intercalando graves e agudos – indicam o raiar de uma chamada de vídeo. A luz se ajusta, a imagem adquire nitidez. O menino ganha um rosto e uma voz.

         Sorrio ao vê-lo. Sorrio todas as vezes que o vejo surgir desse embaralhamento de pixels.

       Os limites da câmera digital são estreitos demais para aquela criança que se forma na janela do aplicativo, logo ele escapa e sai da imagem. Vejo seu vulto passar e, após alguns instantes, retornar para o mundo miúdo da câmera. É meu sobrinho, Pedro, que segura um pequeno cobertor azul.

        - O que é isso na sua mão? - pergunto e a pergunta se perde na tela vazia, inanimada.

      Pedro já sumiu de novo do vídeo. Não nasceu para viver numa baia, dentro das apertadas margens impostas por uma webcam. Vive solto. O enquadramento da câmera, as bordas da imagem, ainda não são cercaduras para ele. Um dia, certamente, vai esquecer que foi tão livre e não sentirá falta do mundo que desborda da imagem e, então, nesse dia triste, o espaço daquele minúsculo olho digital irá acomodá-lo confortavelmente. Infelizmente. Mas não agora. Agora a baia não lhe basta.

      - É a naninha – responde ainda fora do quadro.

       Dali um segundo reaparece com o cobertor azul. O traz junto ao peito. Seus dedos, que ainda estão brotando, se afundam no tecido. Para na frente da câmera, aperta o cobertor e se vai.

       Naninha é o sono de Pedro. Carrega aquela coberta azul como se fosse uma parte de si. Como se largar aquilo significasse nunca mais dormir e perder os sonhos e o acalanto do descanso.

       Na tela do computador, enquanto aguardo que retorne, vejo um pedaço do cômodo da residência de meu irmão. Olhando para aquela fatia de uma parede estática, lembro de minha infância.

        Lembro? A lembrança é um vestígio muito vago, quase invisível, quase inaudível.

      Eu também, na pré-história de minha meninice, carregava algo junto ao meu peito. O que era? Um lenço? Um cobertor? Um filhote de cão ou de gato? Meus dedos se afundavam naquilo, como se fosse uma parte de mim. Como se perdê-lo, fosse perder-me de mim. O que era?

        A imagem quase se forma na memória, mas antes que ganhe contornos, se desfaz.

     Parece algo tão distante, um evento ocorrido há bilhões de anos. Sinto como se eu tivesse me agarrado aquilo antes mesmo de eu nascer, antes mesmo de nascer o mundo. Aquela textura entre meus dedos, sentia-a como uma coisa que sempre existiu. O que era?

       Ah, sim... Não lembro a cor, o tamanho ou o cheiro daquilo, mas lembro que era uma tristeza.
Eu tinha uma tristeza, como Pedro tem sua naninha. Eu a carregava para todo o lado. Trazia-a junto ao meu peito, segurava-a com meus dez dedos, como se fosse parte de mim. Isso há bilhões de anos.

      De tudo, de tudo, lembro que essa tristeza crescia, mas crescia diferente das coisas que crescem. Porque tudo o que cresce, cresce para fora, para o alto, para os lados, cresce ganhando espaço, como as árvores, como a História, como o Pedro. Mas essa tristeza não, essa tristeza ela crescia para dentro, como se diminuísse, mas, na verdade, estava é adensando.

       É difícil explicar, mas era desse jeito que era.

       Quanto mais ela crescia, mais eu tinha que fincar meus dedos para que ela não me escapasse.

      No fim, essa tristeza cresceu tanto para dentro de si, que o seu dentro ficou pequeno. Ficou tão pequeno que, para continuar crescendo, a tristeza caiu para dentro de mim. Ela precisava de um outro dentro. E nesse desabar, abriu um furo na minha alma.

       Foi um mergulho. Nunca mais a vi.

       O que sobrou dela foram as marolas do seu pulo para dentro do meu dentro.

       Essas vagas se espalharam pelo meu espírito, enrugando a sua superfície.

       Hoje, bilhões de anos depois, lembro-me desse evento ancestral e sinto que me esqueci como era aquela tristeza.

      Pedro passa pela tela do computador, com a coberta entre os dedos, arrastando-a pelo quarto. Sorrio, vejo de novo a parede sem movimento.

      Sentado na frente do notebook, contemplando a superfície tranquila dos meus pensamentos, não vejo nenhum vestígio do naufrágio daquela tristeza para as profundezas de mim. Não há nada, ao menos na superfície, que indique a ocorrência daquele trágico acontecimento. Anos luz nos separam. É como se não tivesse acontecido. Como se a tristeza jamais me tivesse navegado. Como se nunca tivesse sucumbido ao próprio peso.

       Numa das janelas do navegador, ao lado da janela por onde espreito meu sobrinho, um sítio de notícias informa que, nesta semana, foi ouvido o barulho de um buraco negro.

      Uma estrela morreu e caiu para dentro de si, há bilhões de anos. As ondas desse afundamento chegaram aos ouvidos dos cientistas. As imagens que ilustram a reportagem são lindas, seduzem-me. Pego-me detido por longos instantes contemplando aquelas fotografias. Vejo nelas a tristeza que esqueci.

     Como eles podem ter ouvido um naufrágio tão distante? Como eles podem saber que o que ouviram foi realmente aquele naufrágio e não outra coisa qualquer? Como?

       Despeço-me de meu sobrinho e desligo o aplicativo. Um acorde distorcido e gordo marca o fim da conexão.

       Clico na notícia para saber mais sobre esse evento astronômico.

       Construíram, durante décadas, um ouvido nos Estados Unidos para ouvir somente esse tipo de naufrágio. Um ouvido seletivo, isolado do mundo, capaz apenas de sentir as marolas das estrelas que se afundam para dentro de si.

       Lendo a reportagem, acho curioso o método científico utilizado para dar vida a esse órgão de escutar. Tiveram, antes de tudo, que ensurdecer o ouvido. Só depois de surdo ele passou a escutar as ondas gravitacionais. Levaram mais de quarenta anos para fazer um ouvido deixar de ouvir. Quarenta anos para lapidar o silêncio.

       A ciência é cruel com os sentidos.

       Primeiro, esse ouvido foi ensurdecido para os sons do ambiente, os carros, os pássaros, o uivo dos lobos, as vozes, mas ele ainda ouvia outros barulhos. O ouvido escutava o ar, quando o ar se mexia. Então, sufocaram aquele ouvido e colocaram-no numa câmara de vácuo. Mas o ouvido ainda ouvia. Como Beethoven, esse ouvido mecânico escutava as vibrações da Terra e das ondas do mar, sentia o tremor de suas notas. Por isso, tiveram que ensurdecer o equipamento para todas essas coisas, e ele deixou de ouvir o mar, a rotação da terra e a dança das placas tectônicas, o coração do planeta. Só que o ouvido ainda não estava surdo para tudo. Ele podia escutar as ondas de rádio e as ondas eletromagnéticas de um trovão do outro lado do oceano. Quanto mais surdo ele ficava, quanto mais o afundavam no silêncio, mais ele parecia ouvir. Daí deram um jeito de ensurdecê-lo também para essas ondas invisíveis que vagueiam pelo mundo.

        Então, depois de toda essa violência e depois de quase meio século de segregação, o ouvido ficou só, afundado no mais absoluto silêncio, no cárcere da ciência. E, nessa falta de mundo, ele ouviu alguma coisa, ouviu o ruído de uma estrela quando caiu para dentro de si. Ouviu o mergulho de um sol, acontecido há bilhões de anos.

        O ouvido, agora, só ouvia os mortos.

      Penso em minha tristeza. Que se afundou há tanto tempo para dentro de mim. Imagino se eu conseguiria ouvir as ondas de seu naufrágio.

      Talvez, para escutá-las, eu tenha antes que ficar surdo para as coisas do mundo. Talvez, para escutá-las, seja preciso essa violência científica, essa segregação, esse encarceramento… Talvez tenha que ensurdecer-me para a terra, para chuva, para o vento, para as ondas do mar, para o uivo dos cães, para os acordes das chamadas de vídeo que anunciam as palavras de Pedro.

        Talvez, para ouvi-las, tenha que construir, por quarenta anos, esse cárcere silencioso.

        E o que é tudo isso, essa surdez, senão cair para dentro de mim e tornar-me a tristeza que tanto tento escutar?


9 de fevereiro de 2016

Feliz Ano Novo!

 Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada,
tudo é alheio ao meu destino, alheio, até, ao destino próprio (…)

Fernando Pessoa

       Sempre que eu acordo o dia já está ali, à espreita, de tocaia. Mesmo que eu me desperte antes do sol, lá está ele, posto, aguardando-me com seus planos, suas insinuações, suas lembranças. Quando os sentidos se abrem, ele me inunda com um futuro que vai se realizando instante por instante, entrando por todos os poros, pelos orifícios da cabeça, pela pele... não há o que impeça a inundação, ele vaza, esguicha e escorre com a força do inevitável. Sinto-me como um carro tragado pela maré alta para o fundo do mar; a carcaça, em algum ponto, cede à pressão da água. À medida que afunda se enche. À medida que se enche, afunda. Tudo o engole, a areia cavando debaixo das rodas, as ondas dobrando camadas de água sobre a superfície, até que tudo o que se vê é mar.
       Tento fechar as brechas, puxo as cobertas, mas o dia nem se dá conta desse esforço, ensopa o que lhe cruza o caminho, igual rio que enche depois da estiagem. Eu sei que não serve de nada, mas mantenho os olhos fechados, tapo os ouvidos, afundo o rosto no travesseiro... e o dia vaza para dentro.
      Tem um jeito de loucura essa coisa de tentar não despertar. Quanto mais o dormente luta para seguir dormindo, mais acordado ele está. E é um esforço que se repete, mesmo que esteja anunciado, desde sempre, o seu retumbante fracasso.
      Cada gota que se acumula nesse acordar é um instante. O presente goteja o dia inevitável. No fundo, no fundo, o presente é mera formalidade, um cerimonial para o preenchimento do dia que me aguarda, é uma variável: Vazão, volume, tempo. Logo, tudo é preenchido.
       Desperto quase todos as manhãs nesse afogamento. Inundado.
      Espicho-me na cama. Não reclamo. Esses dias, ensopados de instantes, têm lá suas vantagens. É que eles já vêm preenchidos, são pré-fabricados, fáceis de consumir e têm um gosto familiar de nada. É como se a vida já viesse vivida.
      Como esses livros de desenhar que já vêm com os traços impressos em cinza claro, e que você só precisa passar o lápis por cima para ter um cachorro, ou uma árvore, ou um personagem de desenho animado. Depois de contornadas as linhas traçadas de antemão, vê-se o desenho que já estava desenhado no papel. Esses livros, como os dias preenchidos, roubam-nos a angústia da folha em branco, poupam-nos do vazio no coração que precede o ato de coragem e de irresignação que é riscar o papel. Eles nos ensinam a acreditar que existe um jeito de fazer as coisas sem o aperto no peito que anuncia a criação.
       Pegue um papel em branco. Empunhe um lápis. Verá do que eu estou falando.  
      Então, nesses dias com linhas em cinza claro, consigo fazer tudo com uma grande margem de previsibilidade; as coisas já estão decididas, desde a locomoção, o itinerário, a escolha do que comer, o tempo de comer, o que vestir, com quem falar, como falar e até as conversas. O dia me preenche com variáveis conhecidas, facilmente calculadas, repetidas à exaustão.
       Esses dias não são ruins. Vivo-os como um animal doméstico.
     O gosto da ração, servida na mesma tigela, no mesmo horário, a hora do passeio, as ruas, os cheiros da casa e da vizinhança. Tudo é previsível ao bicho engaiolado.
     Há uma calma no olhar do cão adestrado. Olho minha cachorra agora, deitada à porta, sobre a banda direita do seu corpo branco e marrom; com o pescoço desafiando a gravidade, fita-me por sobre o ombro. Nesse olhar adestrado de uma vira-latas, vejo-me.
      E, no entanto, nem todas as manhãs são iguais. Não. Vejam Gregor Samsa, por exemplo, caixeiro viajante, em cinco anos de emprego nunca tinha estado doente, pegava o trem das cinco: “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”.
     O dia que Gregor Samsa esperava jamais nasceria. Não naquele dia. Não pegaria o trem, não tomaria o café de sua mãe, não iria ao trabalho. Esse dia de cão adestrado não amanheceria com Samsa. Eis a angústia da folha em branco em todo seu resplendor, sem a linha cinza claro a conduzir o lápis.
      A mim, também me afligem essas manhãs de Gregor Samsa, em que eu acordo e o dia ainda não está lá. Como se ele tivesse perdido o metrô, como se a maré tivesse esquecido de subir. É como se o dia ainda não tivesse acordado.
     Nessas manhãs meus sentidos também se abrem aos poucos. Abro os olhos, os ouvidos, as narinas, sinto a saliva grossa em minha boca, sinto o ar frio sobre a pele e não me afogo. Nada se impõe. O dia não me inunda. Não estou sob as leis da mecânica dos fluidos, a física que se aplica é outra, o mundo é outro. O despertar é seco, ouve-se o soprar do vento correndo folgado na vastidão do vazio deixado pelo dia que ainda não chegou. É o vento descrito no primeiro parágrafo da Bíblia, quando Deus ainda não havia pensado sobre a luz: “A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o Oceano e um vento impetuoso soprava sobre as águas”.
       Vejam bem, não importa muito o horário exato em que eu me desperto, se nas primeiras horas da manhã, ou se quando o sol já vai alto, o fato é que, de vez em quando, simplesmente, o dia não vem .
    “Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, deu por si na cama transformado num gigantesco inseto”.
       O dia é possível, mas não é certo.
   O presente, nessas manhãs, os instantes, carregam consigo uma quantidade infinita de possibilidades. Nenhum itinerário está traçado, nenhuma roupa está previamente escolhida, nenhuma refeição está planejada, nenhuma conversa é meramente cordial. As coisas são vividas sem antecipação. Nesses dias, parece-me estranhamente atrativo sair alguns minutos antes e pegar um caminho mais longo, vestir uma roupa nova, ou uma meia diferente da outra, comer um pouco a mais ou um pouco a menos, ou em outro horário, ou comer coisas diferentes, parar para ouvir as pessoas com mais atenção, falar um pouco além do indispensável, ler um poeta desconhecido...
       Tira-se o cotidiano, vá lá, mas daí o que sobra?
     Nessas manhãs, sem o afogamento de um dia que me inunda, afogo-me no vazio. Há até uma espera para que o dia, ainda que em atraso, comece a vazar para dentro. Sento-me na beira da cama e espero sua chegada, como se a falta da maré fosse, na verdade, o anúncio de um tsunami. Como se o metrô que não veio fosse o anúncio de um descarrilamento, de um ataque terrorista acontecido em algumas das estações anteriores.
      Aguarda-se, para que as coisas tenham algum sentido. Qualquer sentido que seja.
      Nutro a esperança de Gregor Samsa, que em sua forma de inseto, depois de ter perdido o trem das cinco, e das sete, ainda esperava ser capaz de pegar a próxima condução: “De qualquer maneira, ainda posso pegar o trem das oito”.
     E, no entanto, nada. Nada vem preencher o vazio do dia ausente. O que vem, vem de dentro de mim, meus pensamentos, minhas conjecturas e eles são poucos, são parcos, são um sopro que não presta para encher um dia.
     Acostuma-se com a asfixia cotidiana. O ensopamento diário me preenche. E de ser preenchido todo santo dia, desaprendo a ser vazio.
      Levanto-me, respiro, olho pela janela, penso meus pensamentos limitados, sem dono, e é com esse nada, com esse pensar miúdo, que tenho que me virar para lidar com a jornada a frente.
      Lembro-me de Gregor Samsa, o imenso inseto, tentando levantar-se: “Precisaria de braços e mãos para erguer-se; em seu lugar tinha apenas inúmeras perninhas, que não cessavam de agitar-se em todas as direções e que de modo algum conseguia controlar”. Nessas manhãs, nem o corpo nos serve de nada.
      Ouço minha esposa passar de um cômodo a outro da casa. É preciso dar um sentido para aquele corpo, para aquela alma que se move. Tudo parece novo, inédito, justamente porque me falta o dia, com os sentidos já dados. É preciso dar sentido aos ruídos, à luz que entra pela janela. Então busco na memória uma luz parecida, uma luz que, em meu passado, teve algum sentido que eu possa usar agora para vestir essa luz que entra. O cão late. Para um desconhecido? Para um gato? Outro cachorro? Late de fome? É difícil saber. É um latido agudo, repetido, martelado. Vejo meu rosto no espelho, não apenas para saber onde esfregar o sabonete ou determinar que parte ficou sem enxágue, o reflexo não me serve só para guiar a escova de dentes pelos dentes, pelas gengivas. Vejo-me. Penso algumas coisas sobre aquela pessoa refletida, mas não falo. Imagino que ela saiba o que eu pensei. Além disso, não gosto da ideia dele repetindo tudo o que eu disser. Mas imagino qual seria a cara que faria se eu lhe dissesse tudo o que estou pensando. Ainda que ficasse me repetindo, ainda que ele saiba... queria ver a cara dele, ouvindo essas coisas da minha boca; ele não conseguiria fingir indiferença o tempo todo. Meto-me no chuveiro e é preciso dar sentido à água, porque o dia não veio. Minha esposa fala algo sobre um vaso do jardim. São tantos vasos, com formas parecidas. Penso em vários vasos até encontrá-lo. É um vaso de barro, pendurado no muro, ao lado de uma samambaia. Sei de que vaso está falando. Volto à conversa e o assunto já é outro. Qual o sentido daquele vaso? Seco, olho as camisas enfileiradas no armário, como soldados, e penso em gritar-lhes: “Sentido!”. Mas não vão entender a ironia. Alcanço uma camisa e tento entender porque, dentre todas, tirei aquela do cabide. E tudo se prolonga quando se fuça as lembranças.
      “Ao mesmo tempo em que tudo isto lhe saía tão desordenadamente de jacto que Gregor mal sabia o que estava a dizer, havia chegado facilmente à cômoda”.
      Então, no carro, tentando decidir por que caminho chegar até o trabalho, tentando escolher uma velocidade no velocímetro, uma velocidade e um caminho que façam sentido, percebo que ainda não consigo entender nem os passos matinais de minha esposa, nem a luz que entrava pela janela – e que já deve ter mudado –, nem o latido do cão, nem meu rosto no espelho, nem o vaso do jardim, nem a camisa que me cobre o corpo. O dia segue ausente, vazio, não dou conta de enchê-lo.
       Às vezes é coisa muita preencher um dia. Que dirá um ano!
        Feliz ano novo!




21 de janeiro de 2016

Jun

      Ao longo da infância, dessa que me resta na memória, quase todas as férias escolares tiveram um só destino, a casa da minha avó materna, que morava na cidade mais quente do Estado de São Paulo.
      O desembarque na rodoviária, fosse dia ou fosse noite, era sempre como se meter na frente de um forno aberto. A baforada, corpulenta e com vontade, alcançava-me ainda na escada do ônibus.
      Sentia-me como uma moeda que o diabo tivesse pinçado de dentro daquela condução apinhada de almas e que ele agora botava na frente da boca semiaberta para soprar e depois dar um lustro, esfregando o tostão baforado entre o indicador e o polegar.
      O sopro cálido era um abraço sem corpo, sem aperto, sem braço, sem mãos. Era um abraço que não relava, mas envolvia. O hálito do diabo me rodeava, depois me engolia. A água que cercava a cidade e deixava o ar sempre úmido, diziam, era muito rica em enxofre, que fazia o pelo ficar brilhoso e a pele lisa – coisa do demo.
      Mas eu não ligava lá para o tinhoso. Eu tinha sido batizado naquela cidade e mesmo sem ir muito às missas, minhas tias, devotas, davam testemunho de que eu fora benzido conforme a tradição e que minhas culpas e pecados estavam purificados. Meu corpo estava fechado.
      Viesse o calor de onde viesse, ainda dentro do ônibus, eu sacava os casacos e entrava no bafo.
      E era pisar no chão da rodoviária que o ar quente e úmido se apertava contra o rosto, como uma esponja áspera e grossa que ardia a pele e me arrancava uma careta. Não duvido que fosse o diabo lustrando o tostão encontrado. Deixa ele, que o corpo é benzido! Dois segundos depois, a careta virava um sorriso; estava de férias. Era assim que eu chegava em Pereira Barreto, numa baforada.
      Na casa dos parentes tinha sempre, e antes de tudo, que cumprimentar a matriarca, minha avó materna, num ritual que a cada viagem se repetia criando, ao longo dos anos, uma pequena tradição pessoal entre mim e a anciã.
      Todas as vezes que me via diante daquela senhora algum parente que me acompanhava dizia: “Obachan, sabe quem chegou? Sabe quem é ele?”.
      A velha mulher olhava para mim por alguns segundos – longos e longínquos segundos – e respondia.
       Não me recordo de ela ter acertado a resposta uma única vez sequer. Tudo o que é lembrança que tenho de minha avó é de uma pessoa idosa, esquecida de um bocado de memórias, inclusive das que pudesse ter de mim.
      Suspeito que Obachan tenha morrido sem saber quem eu era. Havia um fosso em suas recordações onde eu sempre caía e do qual nunca logrei sair. Era uma fenda funda demais e escura demais, onde a luz da memória não alcançava o leito… por mais que ela olhasse, longamente, e vasculhasse aquela cratera, não me via. Olhava, mas só enxergava o que encontrou Dante à beira do abismo do Círculo Primeiro do inferno:

“Escuro e profundo era e nebuloso,
tanto que, por volver o rosto ao fundo,
lá nada distinguir era forçoso”.

       Cada uma das vezes em que eu fiquei diante da matriarca da família, cada uma das vezes que lhe perguntaram se sabia quem eu era, cada uma das vezes que ela parou longos instantes para vasculhar sua memória esburacada, fitando-me com seus olhos pequenos, ela acabou supondo que eu era “Jun, filho de Esther”.
        Meu nome é Henrique e minha mãe se chama Lilian.
       Alguém sempre a corrigia, ela parecia se lembrar de alguma coisa naquele sentido “Ah! Henrique… a Lilian já tem filho desse tamanho?”, mas eu logo voltava para o fosso de suas lembranças. Dava-lhe um abraço e beijava-lhe a face enrugada.
       Minha avó tinha uma pele fresca. Sempre achei os corpos dos velhos mais frios. Suponho que sejam moedas que o diabo não se dá mais ao trabalho de baforar e lustrar.
       No mormaço daquela cidade, Obachan era essa árvore, de tronco enrugado e sombra constante, onde a temperatura era sempre mais amena. De tempos em tempos eu me sentava embaixo de sua copa, mas ela não se dava conta de que eu estava lá. Não sabia que eu era um fruto de seus galhos, de suas raízes, de sua seiva.
       Ela não sabia que eu também, do fundo do abismo de suas lembranças, a olhava, por longos instantes, tentando descobrir quem era aquela senhora, que nunca me reconhecia e, ainda assim, era minha família.
       O calor da rodoviária e o frescor da pele trincada de Obachan sempre marcaram a chegada a Pereira Barreto. Isso e a tradição de nos olharmos sem nunca nos vermos. “Jun, filho de Esther”.
        Agora, minha mãe tem uma irmã chamada Esther, que tem um filho chamado Jun.
         Minha avó me confundia com um primo.
        Jun era parente, só que era desses parentes distantes. Não falo de uma lonjura genética, não. Nem de distância religiosa porque, se não me engano, em meu batismo, nesse que fechou meu corpo para o calor de Pereira Barreto, ele foi o padrinho. Ele testemunhou a purificação das minhas culpas e pecados e deve ter se comprometido a guiar meu espírito naquilo que meus pais faltassem.
         Deve, porque eu não me lembro, mas minhas tias dizem que eu fui batizado de acordo com as tradições. Assim sendo, ele devia ser uma classe de guia espiritual, um Virgílio de Dante, um mateiro da selva moral. Mas como eu nunca me atinei para essas formalidades religiosas, não tenho certeza se foi ele mesmo… Convenhamos, nem mesmo Dante reconheceu Virgílio quando este lhe apareceu no deserto:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

        O caso é que o afastamento da gente era de outro tipo. Era um desencontro de caminhos. Nossos tempos eram outros e eram outros também os nossos espaços. Jun era mais velho que eu, uns doze anos, talvez, não sei. Mais? Menos? Até hoje não sei sua idade, e sempre morou em cidades diferentes. Acho que não nos encontrávamos porque éramos estranhos um ao outro. Não tenho muitas recordações com esse primo.
        Uma das poucas lembranças que guardo, já meio apagada, é dele falando a respeito de frutas.
       Ele não falava de frutas como as pessoas normais: o preço do quilo da maçã, o sabor do melão, se está verde ou maduro, se tem agrotóxicos, se é época, quais vitaminas têm, nada disso.
        Jun era engenheiro mecânico e quando falava de frutas ele desfrutificava a coisa toda. Elas perdiam o sabor, a época, os preços, as propriedades medicinais, as calorias e se transformavam em problemas matemáticos, em variáveis e incógnitas. Dado um certo estado de coisas, como era possível saber o peso do abacate e o volume da melancia?
        Se não me engano, nesse dia esfumaçado na minha memória, ele tinha acabado de voltar de uma seleção de doutorado para a Universidade de Michigan e explicava um dos problemas matemáticos que teve de resolver.
        Eu estava no início da minha adolescência e não entendia nada do que ele dizia. Nada, além do nome das frutas.
        Fiquei estarrecido, meio abestado. Tentava prestar atenção em cada palavra daquela conversa e eu sabia que falava em português, sabia que se tratava de um punhado de frutas, mas era incapaz de entender o que, efetivamente, estava sendo dito. Como era possível eu não entender uma história sobre frutas?
        Para mim, Jun falava de um outro mundo, tão diferente, que nem as frutas eram as mesmas.
        Enquanto ele falava, ria.
        E não era um sorriso de algo engraçado ou um sorriso irônico. Suspeitava que fosse um sorriso de prazer, de contemplar e compreender esse tempo e esse espaço onde os abacates e melões eram de outro sabor.
       Quanto a mim, eu passava alheio ao que ele falava, mas lembro-me que, pela primeira vez em minha vida, eu me dei conta de que existiam outros mundos, com outras possibilidades e que se eu encontrasse um mundo igual Jun havia encontrado o dele, até um abacate colocaria um sorriso em minha cara e eu falaria apaixonadamente sobre melancias.
        Jun me mostrou que existia esse tipo de... amor, acho que é a palavra. Um amor que para você sentir, tem que antes criar um mundo e depois se apaixonar por ele. 
         Por isso, pertencíamos a mundos diferentes. Sempre pertencêramos. Jun tinha o dele e eu, adolescente, tinha o que me deram.
         E de serem as coisas assim, encontrava-me mais com Jun nos esquecimentos de minha avó, em Pereira Barreto, do que na vida. Na mente desgastada da matriarca era onde nossos caminhos se entroncavam. “Jun, filho de Esther”. Em Pereira Barreto, nos longos olhares de minha avó, guardados pelo corpo fresco e enrugado, eu me encontrava com uma família que eu não conhecia. “Jun, filho de Esther”.
         O esquecimento, ao seu modo, também aproxima quem está distante.
        Acontece que depois que minha avó morreu – e isso vai mais de década – nunca mais me chamaram Jun. E então esses encontros que eu tinha com meu primo no calor diabólico de Pereira Barreto, protegidos pelo batismo e pelo frescor da pele de Obachan, foram enterrados com a matriarca.
         Nossos mundos se apartaram de vez pela década que se seguiu.
         Ano passado, Jun, filho de Esther, faleceu.
        Quando soube de sua morte, senti como se a família que nunca cheguei a conhecer tivesse aumentado.
        Sentei-me para tentar lembrar quem era essa pessoa imprecisa que eu só encontrava no olhar longínquo de minha avó. Cavoquei a memória, busquei partes, resquícios, rastros, mas não logrei montar uma pessoa inteira, uma memória completa e, como Dante, gritei:

“quem quer que sejas, sombra ou homem certo!”

         O ano virou e concluí que só tenho uma memória realmente nítida de meu primo.
         Dois anos atrás encontrei-me com Jun. Em Pereira Barreto. Pela primeira vez na vida, nossos caminhos se cruzaram nessa cidade sem o intermédio de Obachan.
         Estávamos na cidade para o Bon Odori, uma celebração japonesa em homenagem aos mortos.
         Enquanto as pessoas dançavam em círculos e cantavam canções repetidas infinitamente, numa mímica da eternidade, ele tentou me explicar o que estava pesquisando em seu trabalho, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
        Como no caso dos volumes e pesos dos melões e melancias, não entendi muito bem o que ele queria dizer. Jun falava de um futuro e de um estado de coisas que ainda não existia. Era um mundo possível, que precisava ser construído teoricamente, para depois ser percorrido. Mas Jun falava como quem fala de uma praia que está logo ali, depois da primeira quebrada para a direita e só não pode ser vista porque ainda não chegamos na curva. E esse estado de coisas que existia em sua cabeça o entusiasmava, como se ele já sentisse o cheiro do mar, a brisa e a areia.
         Enquanto ele falava, ao sons do taikô e dos garçons transitando com tigelas de comida japonesa, Jun sorria. Era o mesmo sorriso de contemplação de um mundo onde os melões e abacates são diferentes, Jun olhava para o seu mundo, para um tempo e um espaço que eu não enxergava, e sorria… com uma tigela de Udon à sua frente.
          E com esse sorriso, como quem tentasse explicar a estranheza do que lhe passava na mente, ele me disse: “O que eu pesquiso só vai ter aplicação na indústria, se tiver alguma, daqui a pelo menos quinze anos”.
         Quinze anos. A quebrada para a direita estava longe.
         Quinze anos era muito mais tempo do que os médicos lhe haviam dado de vida. A doença o levaria antes: em dois.
         E eu pensei comigo: “Falta chão até a curva. Talvez Jun não veja a praia”.
         E, no entanto, enquanto o Bon Odori se espichava pela noite quente de Pereira Barreto, ele contemplava o que havia me dito e sorria um sorriso satisfeito. Os quinze anos que a vida não lhe daria, ele os tinha diante de si, realizados, concretos, como uma tigela de Udon.
         Não tenho certeza se Jun foi meu padrinho de batismo. Suponho já ter ouvido algo nesse sentido em conversas de família, mas nunca me atinei. O que acontece é que, talvez, no dia em que me livraram de minhas culpas e pecados, à beira da pia batismal, ele tenha se comprometido a guiar meu espírito onde meus pais faltassem.
         Se lhe impuseram esse fardo, bota aí que ele cumpriu o acordado.
        Vá lá que nossos caminhos não tenham sido trilhados juntos, ou que jamais tenhamos nos conhecido, mas ele apontou como é que se abre uma picada na mata fechada. Ele sabia ler os rastros de outros mundos para além de onde esse mundo se esgota. Mateiro velho, ensinou-me a ver mundos. Jun, filho de Esther, tornou-se um Virgílio, que disse a Dante:

“que tu me sigas e serei teu guia,
daqui levando-te a lugar eterno (...)”
      
           Obachan, no abismo de sua memória, enxergava mais do que eu supunha.
         A velha era danada. Naquela escuridão toda dos buracos de sua memória, quando lhe perguntavam se me reconhecia, não se dava ao trabalho de responder quem eu era; ela, mais do que ninguém, sabia olhar as fendas de suas lembranças, então dizia logo é de quem eu precisava; e me indicava, todas as vezes, o mateiro certo da família para me ensinar a abrir minhas próprias trilhas, o meu padrinho.
          Obachan repetiu a resposta a vida inteira, na esperança que eu entendesse, na esperança que aquilo me entrasse na cabeça: “Jun, filho de Esther”.



5 de janeiro de 2016

Diálogo Imaginário

                Essa coisa de posar para fotos, não gosto. Parar na frente de uma câmera e aguardar. Nunca gostei.
                E nunca soube o porquê desse desgosto todo. Quando alguém fala: “Vamos tirar uma foto”, logo lembro do Coronel, na frase que abre “Cem Anos de Solidão”. Garcia Marquez começa o romance assim: “Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía, havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”. A mim, passa-me o mesmo, passa-me um mundo de lembranças pela cabeça toda vez que me ponho diante de uma câmera, como se dali a um instante me fossem varar o corpo de balas. O resultado disso foi uma infância e uma adolescência sem muitos registros. Não lembro de muitas fotografias em piscinas, andando de bicicleta, em restaurantes, festas de aniversário, etc.
                Entre o registro histórico e o desgosto, prevaleceu o mais pessoal, o desgosto.
                Até que um dia – isso há muitos anos – na faculdade de filosofia, um colega de classe me explicou que o ato de fotografar é extremamente agressivo. Apontar a câmera para alguém, fazer a mira, manter as mãos firmes, pressionar o disparador, o som do espelho subindo e descendo e do obturador desabrochando. Tudo isso é como atirar numa pessoa com uma arma. Nunca tinham me explicado isso.
                Parando para pensar, a coisa fazia sentido. Estar atrás de uma câmera, de um revólver, qual a diferença? A objetiva é igual ao cano de uma pistola. E tanto um quanto a outra, quando certeiros, dão cabo da alma do sujeito. O resultado é um corpo sem vida, espichado no chão ou no negativo. Continuo sem gostar de tirar retratos, mas agora sei porque. Sei porque me lembro de Aureliano Buendía. Não gosto que me apontem uma arma na cara. Instinto de sobrevivência.


                O rapaz que me explicou essa questão era um fotógrafo, chamado Guilherme. Andava com uma câmera Nikon na bolsa. Arma pesada, de material negro fosco, importada. A morte tem sempre esse jeito estrangeiro. "O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o tempo e, depois, retira-se" - dizia Mia Couto. E como Guilherme sabia dessa história toda da câmera ter poder de fogo, manejava o equipamento sem movimentos bruscos e sem ruídos  desnecessários, era uma ação coordenada e condicionada por anos de treinamento. Profissional. Eu acho que era um tipo de sniper andando solto pela faculdade.               
                Até a bolsa onde carregava a Nikon não tinha velcro, para reduzir o barulho. Guilherme tirava a foto, guardava a máquina e a vítima sequer se dava conta.


                Nos anos de graduação presenciei diversos disparos, alguns dentro da sala de aula, outros na cantina da reitoria, nos corredores da Universidade Federal do Paraná. Entre um tiro e outro, tornamo-nos amigos, não me lembro exatamente quando.
                Semanas, ou meses depois de um disparo qualquer, em outra conversa, surgia a foto revelada, o corpo. Eu via a fotografia ampliada e lembrava do momento do tiro. Era como esses reconhecimentos forenses que vemos em filmes americanos. Pensava comigo: “Eu lembro desse! Tá diferente de como eu lembrava, mas é ele, com certeza. E os outros?”.
                 “E os outros corpos?”. Guilherme era descendente de italianos. Nessas horas eu lembrava que os outros corpos, metidos em negativos como defuntos em sacos plásticos pretos, poderiam estar afundados em químicos fotográficos, esquartejados em alguma lixeira ou mesmo incinerados. Máfia. Aqueles cadáveres jamais seriam vistos. Um ou outro talvez aparecesse mais adiante, boiando, já em decomposição, ou incinerado. Nunca perguntei pelos corpos que não apareceram.


                Ver as revelações trazia à tona um tremor, uma fascinação por ter testemunhado aquele evento único, violento e, no entanto, uma vez impresso, bonito. Pelos anos de graduação, no período em que nos encontrávamos na faculdade, vi alguns tiros e uns poucos corpos. Não entendia muito bem o funcionamento da câmera, do negativo, ou da ampliação fotográfica; não entendia nem da arma nem dos cadáveres, mas achava interessante ouvir as explicações desse colega sobre ambos.
                Existe um encantamento na fala dos homens quando descrevem aquilo em que apostaram parte de suas vidas. Pegue um pesquisador ou uma pesquisadora, que tenha posto trinta anos de sua vida no estudo de um tipo específico de bactéria que só existe no estômago de um bicho qualquer que só é encontrado numa lagoa perdida no leste da Ásia. Esse homem ou essa mulher irá lhe contar as coisas mais fascinantes, com os detalhes mais curiosos sobre esse micro-organismo aparentemente insignificante, e nós ouviremos deslumbrados esses saberes desconhecidos, assim como Kublai Khan ouvia as narrativas de Marco Pólo sobre as cidades invisíveis.


                Eu gostava de ouvir as considerações de Guilherme sobre a fotografia.
          Uma foto nunca era só uma foto. Havia um sentido sem fim queimando naquele papel fotográfico, um sentido que viajava entre as formas reveladas, as formas não reveladas, o acaso, o excesso de luz, a falta de luz, o negativo, os químicos, a ampliação, a câmera, o instante, o fotógrafo, a coisa fotografada. Sobre todas essas possibilidades, sobre todas essas evidências estampadas na fotografia, como prova de que o mundo existia, Guilherme ponderava.
                Um tiro nunca era só um tiro. Era um veredito.
                Fato é que Guilherme não saía atirando a esmo. Olhava muito. De vez em quando sacava a máquina, fazia a pontaria, mas não apertava o gatilho. Alguma coisa lhe passava pela cabeça e levava o tiro embora. Nunca perguntei o que era, mas era alguma coisa; que ele viu? Que ele pensou?
         Conversávamos sobre nossos pensamentos, sobre os pensamentos de outros, sobre as fotografias, mas nunca conversamos sobre aquelas pausas, aqueles instantes que frustravam o disparo; sobre as fotografias que não existiam. Essa amizade antiga fechou muitas lacunas no meu modo de ver o mundo, mas abriu outras.
                Guilherme parava para pensar nas coisas. Parava para pensar como parava para fotografar. Uma ação era espelho da outra.  Minha suspeita era que seria possível entender como aquele cara pensava, pelo jeito como ele tirava fotos e vice versa. Agradava-me conversar com ele não apenas pelos assuntos, mas também por causa dessas pausas que nutriam o diálogo, por essas lacunas que se abriam e ficavam como migalhas de pão para seguirmos conversas futuras.


                Esses intervalos, essas migalhas eram para onde as conversas voltavam quando nos encontrávamos. Por isso elas tinham esse hábito de se repetirem, cada vez de uma maneira diferente.
                 Por quatro anos conversamos assim, deixando perguntas sem respostas, para depois voltarmos a elas. Hoje, entendo que havia uma certa ingenuidade nesse jeito de confabular. Quatro anos pareciam tempo de sobra para inventar uma trilha de migalhas e por ela retornarmos, amarrando os diálogos deixados em aberto, respondendo às perguntas hipotéticas. Conversávamos com a fé depositada por Hansel em sua estratégia para não se perder.
                Acontece que ao final da graduação os corvos vieram e comeram as migalhas. Não voltaríamos por aquele caminho. Perdê-lo-íamos.
                As perguntas hipotéticas sobre arte, sobre a ética da criação artística, sobre o tempo, o espaço, sobre a legitimidade das buscas pessoais, sobre as músicas de Tom Jobim, sobre a felicidade, sobre o sentido da vida, ficaram no bico dos corvos. Perdemos a trilha de nossas conversas.
                      Eu me tornei um burocrata no Centro-Oeste do país, onde nunca mais vi uma fotografia autoral ampliada em papel fotográfico e certamente nunca mais ponderei sobre o assunto. 


                Na última década devo ter falado quatro ou cinco vezes com Guilherme, por telefone.
               Em todas essas conversas cheguei à conclusão de que ele guardara uma migalha de pão, uma pergunta não respondida envelhecida por quase dez anos.
                Na primeira vez que nos falamos, depois do final da graduação, achei que tivesse sido mera coincidência, acaso. Uma pergunta que tivesse escapado inconscientemente. Mas não, a questão se repetiu da segunda, terceira, quarta e quinta vez que lhe telefonei.
                Guilherme ficara com uma migalha de pão daquelas antigas conversas.
                Eu não sabia o que lhe dizer. Não sabia que resposta lhe dar. E esse não saber, que antes era uma ponta de conversa deixada solta, à espera de um próximo debate, agora me incomodava. Era um desassossego. A pergunta me constrangia como uma câmera apontada para me fazer o retrato. Quase podia vê-lo, atrás da Nikon, com o dedo no disparador, interrogando-me.
                Para evitar a pergunta, aos poucos, deixei de telefonar e, por anos, não pensei mais naquela bendita migalha.
                Neste ano novo, lembrei-me de ligar, mas, mais uma vez, veio-me à memória a pergunta e o desgosto de posar para foto... Se ligasse, sabia que me veria de novo diante da pergunta. Como o Coronel Aureliano Buendía diante do pelotão de fuzilamento: “Abriu os olhos com uma curiosidade de calafrio, esperando chocar-se com a trajetória incandescente dos projéteis (...)”. Não telefonei.
                Todas as vezes que falo com Guilherme ao telefone ele me pergunta “Você está feliz metido nessa vida burocrática?”. O questionamento hipotético por trás dessa interrogação e sobre o qual acho constrangedor me debruçar é o seguinte: “É possível alguma forma de felicidade na repetição obsessiva e infinita da burocracia?”.
                      Essa migalha de pão, essa dúvida, sobreviveu a uma década e hoje é o ponto de onde deve começar uma nova conversa. Mas não sei o que dizer a esse meu amigo.
                Uma trilha com apenas uma migalha de pão – essa migalha que restou de um passado remoto – vira uma encruzilhada, não um caminho.



                  O ano virou, Não falei com Guilherme. Esse texto é um diálogo imaginário de um telefonema que não existiu na virada de um ano que passou. Falo com as fotos porque carrego a suspeita de que, assim como meu amigo pára para pensar, ele, de maneira simétrica, pára para fotografar... não é a mesma coisa. Começo o ano de 2016 devendo um telefonema. 
               As imagens que guiaram a prosa desta postagem foram tiradas do site www.ghisoni.com.br