4 de dezembro de 2016

Silêncio de Botequim

De acordo com um provérbio africano,
se você quer ir rápido, vá sozinho.
Mas se você quer ir longe, vá acompanhado.
Nós temos um longo caminho à nossa frente;
nós só poderemos percorrê-lo se formos juntos".

Kofi Annan

     Campo Grande é uma cidade que se espraia pela planura do Cerrado. É como um grande pedaço de charque cortado fino e aberto no ar seco. As quadras são imensas, quase intransponíveis; entre uma esquina e outra parece que se desdobra um deserto. As calçadas sem sombras, sob o calor do Planalto Central, estão sempre vazias. A ausência de gente indo e vindo pelas vias torna a urbe impessoal; um corpo que caminha é sempre estranho na paisagem.
     Não há testemunhas em Campo Grande. As coisas acontecem em segredo e só depois de algum tempo é que o segredo se espalha, já distorcido, às vezes aumentado, outras, sufocado.
     Dia desses eu estava sentado num bar, olhando a rua vazia, devia ser lá por quatro horas da tarde, quando notei uma menina caminhando pela calçada, com uma pasta de plástico debaixo do braço e um rolo de durex enfiado no pulso, como um bracelete. De onde ela viera?
     Campo Grande tem dessas coisas. Por mais plana que seja a cidade, por mais que a vista alcance longe, quando notamos uma pessoa andando, nunca temos certeza de onde ela apareceu. Tem-se a impressão de que os solitários corpos que caminham pelas ruas vazias surgem do nada e no nada se esvaem.
     Essa menina tinha cabelos negros e compridos, que estavam um pouco desarrumados, vestia uniforme escolar, meio surrado, que indicava que ela provavelmente estudava no período matutino e não trocara de roupa desde o final das aulas. Era magra, seu corpo mirrado mal preenchia a camiseta e a calça, cujos panos oscilavam igual bandeiras à medida que caminhava. No pulso esquerdo, o rolo de durex dançava solto, quase escapando pela mão, mas a menina habilmente erguia o antebraço e dobrava a munheca quando a fita queria escapulir. Aquela criança não tinha mais de treze anos de idade, suponho, e vagava sozinha pelas ruas desertas de Campo Grande.
     Pois essa pequena figura feminina parou perto de um poste na esquina, tirou um papel de dentro da pasta e ali o colou com a fita durex. Caminhou incontáveis passos até chegar ao poste que ficava no meio da quadra e repetiu a operação. Fez o mesmo no poste da outra esquina, perto do bar onde eu estava.
     Havia uma certa tristeza no seu jeito de andar, o seu corpo parecia retesado. Notei que, de tão miúda, ela quase não tinha sombra. Quando passou por mim, vi que chorava, tinha um semblante sombrio, o nariz irritado pela coriza do choro, a boca arqueada para baixo e os lábios firmemente apertados. Debaixo do sol quente, alguns fios de cabelo colavam no suor e nas lágrimas do rosto.
     Sozinha, ela seguia seu rumo, com sua pulseira improvisada, parando a cada poste, pregando os papéis que levava dentro da pasta. De quadra em quadra, aquela figura quase sem sombra sumiu pelas esquinas da cidade.
     Sentado no bar, notei o vazio reocupar a rua. Era como se a passagem da menina nunca tivesse ocorrido. O que será que ela tanto pregava? Por que chorava? Não dei muita importância a esses pensamentos, transmitiam um jogo de futebol na televisão, algum campeonato europeu com times cheios de jogadores e técnicos estrangeiros. Como será que se comunicavam? Entendiam o que uns gritavam para os outros, ou o que cantavam as torcidas? Por que será que ainda faziam distinções entre campeonato inglês, alemão, francês, espanhol, se os times, de fato, eram torres de Babel?
     Com o final da partida, ao olhar para rua, a curiosidade, mais uma vez, despontou em meu espírito. Por quse duas horas a dúvida hibernara. O que eram aqueles cartazes?
     Já começava a escurecer e, de meu posto, não era possível ver o que havia nos papéis. Levantei-me e fui até a esquina. No poste, um cartaz que não fazia muito sentido: Nele estava estampada a foto da própria menina. No início, foi difícil reconhecê-la, pois naquela fotografia seus olhos cintilavam, ela sorria um sorriso imenso, acenava para a câmera e tinha a cabeça coberta por um véu muçulmano, hijab, de cor turquesa. Não lembrava a figura triste que passara na frente do bar mas, com certeza, era a mesma menina. A informação, escrita numa redação um pouco truncada, com erros de grafia, era de que aquela criança estava desaparecida, sumira na tarde daquele dia, fora vista pela última vez saindo da escola, família aflita, telefone de contato, chamava-se “Najwa”, recém-chegada da Síria, falava pouco o idioma português.
     Em frente ao poste, de pé, olhei para o rumo que a menina havia tomado, mas só havia a rua.
     Por que ela pregava fotos de si mesma, informando seu próprio desaparecimento, pedindo que a encontrassem?
     Anotei o telefone e voltei para o bar.
     Na TV, apresentadores discutiam o jogo que terminara há pouco. Quem havia sido o melhor jogador da partida? O meio-campo colombiano, do time espanhol ou o atacante croata do time italiano?
     Pensando sobre o cartaz, concluí que não era de todo estranho.
     De fato, aquela menina feliz da fotografia desaparecera. Por certo sumiu quando deixou seu País, seus amigos, seus costumes, vindo desembarcar nessa terra desconhecida onde não se vê gente pelas ruas. Com certeza, a família a queria de volta, alegre, sorridente. Quem mais sentia sua falta era a própria Najwa. Tinha saudades de si mesma, da Najwa que sorria com olhos brilhantes e que vestia hijabs coloridos. Talvez por isso, com o pouco português que aprendera, tenha redigido aquele pedido de ajuda, por isso saíra aquela tarde, sob o sol do Cerrado, sozinha, colando cartazes, na esperança de que alguém, nesse mundo estrangeiro, a encontrasse.
     Voltei a olhar a rua e, por ela, pelos postes, não passou uma viva alma. Um ou outro carro transitava pela via, alheio às calçadas. Aqueles cartazes não seriam lidos. Ninguém caminha pelas ruas de Campo Grande, não há testemunhas nessa cidade. Ninguém encontrará aquela menina sorridente que desapareceu de uma família síria. Ninguém saberá que está perdida.
       A ignorância é uma bênção.
     Liguei para o número do cartaz. Após alguns toques, ouvi uma mensagem num idioma desconhecido. Enquanto ouvia aquela entoação estranha de sons misteriosos, os comentaristas esportivos concluíram que o melhor jogador da partida havia sido um lateral romeno, do time italiano.



21 de novembro de 2016

Rememorações

Aos amigos Regina e Guilherme,
que andam a lançar âncoras de ar,
Ícaros melhorados.


     Há algo no silêncio das árvores que seduz os que amam profundamente. É um silêncio misericordioso e benevolente, que parece atrair as confissões dos amantes, sem impor-lhes o fardo do julgamento. Pelo seu amplo vão sem paredes, sustentado por uma coluna central em cujos veios correm a seiva da vida, não se agarram culpas ou preconceitos; e existem amores que, talvez, somente nessa quietude indolente – livre de morais e costumes – encontram abrigo.

     O sussurro das folhas secas e o frescor do chão, protegido pelas sombras, acalentam as almas que ali buscam refúgio. “Vinde a mim”, parecem dizer as árvores aos que amam livremente – visto que são os amores livres que se aventuram nas profundezas do sentimento.

     As raízes subterrâneas tornam firme o solo, como os alicerces das catedrais, e sobre elas edifica-se o terno silêncio. Pois sim, a ternura exige firmeza.

     Sob o sol ou sob a lua, os galhos e folhas das árvores formam lindos vitrais, que pontilham os corpos dos que ali se entregam. Foi assim com o Cristo, antes da crucificação. Prevendo a morte, angustiou-se ao pé de uma oliveira e ali ponderou o valor de sua vida, que certamente, como homem, amava, e o valor de sua amada fé. Sob a sombra da catedral de galhos e folhas retorcidas, a balança oscilava tênuamente… valia a pena morrer pelo que acreditava? O fiel equilibrava com maestria as opções do Cristo, que, com o peito apertado, precisava se decidir. Deveria se submeter ao sacrifício anunciado nas profecias? “O suor tornou-se como grossas gotas de sangue a escorrer-lhe por terra”, diz-nos Lucas sobre a angústia do Deus tornado homem. Ali, suponho, sob o silêncio arbóreo, o Cristo escolheu morrer de amor.

     Recordam os cristãos, todos os anos, a decisão tomada por esse homem sob as folhas da oliveira.

     Milênios depois, num ato muito mais humilde, mas que ecoa o amor nazareno, amaram-se os amantes de Wislawa Szymborska, sob uma árvore, à beira de um lago:

Amaram-se debaixo da aveleira
sob sóis de orvalho
com folhas secas e terra
grudadas no cabelo

Ajoelhados à beira do lago,
as folhas retiraram,
e reluzentes, como estrelas,
os peixes se aproximaram”.

     Agora, a poetiza polonesa aflige-se com a fragilidade desse amor. Ela sabe que, ao contrário da decisão de Cristo, a escolha desses amantes, sob a aveleira, talvez não viva para sempre, talvez se esvaia com o tempo, não suporte os milênios, apague-se da memória de ambos, até que não haja mais nenhum resquício daquele amor.

     Não existirão disputas acadêmicas sobre o sentimento que fez tremer aqueles corpos sob a aveleira, não se derramará sangue por aquela lembrança, não se erguerão templos por aquele evanescente evento, sabe a polonesa.

      Por isso, aquele amor, a poetiza quer salvá-lo, não quer que se perca.
 
     Szymborska invoca então a piedade de quem presenciou aquele ato sob o domo de galhos e folhas. Pede encarecidamente a uma andorinha que não deixe que os amantes se esqueçam do amor vivido sob o vitral de orvalho.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

O reflexo das árvores
nas marolas esfumaçado,
andorinha, faz com que nunca
seja por eles olvidado”.

     Mas como? Como pode uma andorinha, essa testemunha oculta, manter viva a lembrança de um momento? Como pode aquele passarinho fixar no elemento volátil da memória as tênues recordações que, para os amantes, ainda estão tão frescas e presentes quanto o cheiro das folhas, da terra, quanto as nuvens do céu? Como, meu Deus, prender uma nuvem e evitar que ela se perca na imensidão do firmamento?

     Szymborska sabe que aquilo que pede à andorinha é tarefa das mais ousadas ao espírito: Apreender o inapreensível. Tocar o intocável, como quis Ícaro, com suas asas de cera.

     Apesar da impossibilidade da empreitada, a piedade de Szymborska é maior, e ela invoca a andorinha, com as qualidades que o pequeno pássaro irá precisar para capturar a memória volátil. Como a deusa Atenas, Szymborska concede à andorinha as virtudes necessárias para que a ave alcance seus propósitos.

Andorinha, espinho de nuvem,
âncora do ar,
Ícaro melhorado (...)”

     Szymborska se dá conta de que a lembrança da andorinha talvez sirva como uma âncora para o barco fátuo de recordações dos amantes, um espinho no qual fique agarrada a memória. Szymborska  inventa um jeito, metafórico, de prender as reminiscências que, por certo, vão se esvair. Ao ver uma andorinha, “âncora do ar”, “espinho de nuvem”, cruzar o céu, talvez eles rememorem aquele instante sob a aveleira.

     Então, ao final do poema, Szymborska, com o coração cheio de piedade por aqueles amantes, começa a lançar inúmeras âncoras e espinhos para que a memória não seja levada pelo tempo, para que, ao se deparar com as mais simples contingências do cotidiano, os amantes rememorem aquele momento debaixo dos vitrais de orvalho:

andorinha caligrafia,
ponteiro sem os minutos (…)

andorinha silêncio agudo,
luto alegre,
auréola dos amantes,
tem piedade deles”.

     Tantas âncoras e espinhos são lançados para segurar quela lembrança: “caligrafia”, “ponteiro sem os minutos”, “silêncio agudo”, “luto”, “auréola dos amantes”… quando um daqueles amantes, dos quais se apieda Szymborska, num futuro distante, estiver contemplando um relógio, aguardando o tempo passar, quando estiver lendo um texto com uma linda caligrafia, quando alguém amado se for, quando vir dois amantes alegres andando pela rua, nesses pequenos acontecimentos estará agarrada, ancorada uma lembrança e virá à sua mente a tarde em que se amaram sob a aveleira: “O reflexo das árvores/nas marolas esfumaçado (...)”.

      Szymborska sabe, como o Cristo na noite que antecedeu a crucificação, que a memória precisa de migalhas para seguir, que ela precisa ser pregada em elementos que a resgatem do esquecimento: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Fazei isto em minha memória".
 
     O que mais poderia fazer Szymborska? Com essas âncoras lançadas, a poetiza encerra o poema, como o fez, nas aventuras dos “Velhos Marinheiros”, de Jorge Amado, o capitão Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, único, dentre os velhos marinheiros, a prever os ventos, a lançar todas as amarras, todas as âncoras, todos os “strings” todas as espias, todas as manilhas, todos os ferros e salvar o seu navio.

     Rememorar, rememorar, lançar aos amantes pequenos espinhos onde se agarrarem as memórias, é o que pode a piedade de Szymborska.

     Ao verter o poema Upamiętnientie (Rememoração) para o português, a tradutora Regina Przybycien lançou mais uma âncora, mais um espinho de nuvem, para que o amor sob a aveleira, descrito por Szymborska não se perdesse, para que a própria poesia fosse rememorada.

Coração de andorinha
tem piedade deles”.

     Essas âncoras do poema de Szymborska, esses espinhos, não encontram melhor tradução em imagens que as fotografias “monotrípticas” do amigo Guilherme Ghizoni, espinhos de nuvens nos quais se agarram as mais voláteis memórias, âncoras de ar.

     Emociona-me ver amigos buscando o inalcançável, Ícaros melhorados.

     Abaixo, o poema traduzido por Regina Przybycien e um dos "monotrípticos" de Guilherme Ghizoni:

Rememoração

Amaram-se debaixo da aveleira
sob sóis de orvalho
com folhas secas e terra
grudadas no cabelo.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

Ajoelhados à beira do lago,
as folhas retiraram,
e reluzentes, como estrelas,
os peixes se aproximaram.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

O reflexo das árvores
nas marolas esfumaçado,
andorinha, faz com que nunca
seja por eles olvidado.

Andorinha, espinho de nuvem,
âncora do ar,
Ícaro melhorado,
fraque ascendido ao céu,
andorinha caligrafia,
ponteiro sem os minutos,
protopássaro gótico,
estrabismo nos céus,

andorinha silêncio agudo,
luto alegre,
auréola dos amantes,
tem piedade deles.

(SZYMBORSKA, Wislawa, Um amor feliz, Companhia das Letras, 2016. Trad. Regina Przybycien)

http://www.ghisoni.com.br/Monotripticos/

Fotografia: Guilherme Ghizoni

19 de novembro de 2016

O Homem Quântico

Not here! - not here! I have been here too many years,
Have Stumbled about the darkened room for a door,
Seeing only the phantom shafts the moonlight clears,
The broken bars of silver along the floor.

(...) And I am alone.
Not here, old shadows – I know you, all too well!

Edmund Wilson Jr.


     Um pouco antes de despertar, Baal sonhava com uma piscina. Era uma construção retangular, funda e vazia, aberta no chão, estava limpa, como se a tivessem acabado de lavar, azulejos polidos e tudo. O curioso – digo, o que chamava atenção de Baal em sua piscina onírica – é que dentro dela não havia uma gota d'água.
     Dava-lhe um mal-estar ver a piscina esgotada, um sentimento de desolação, de abandono e, ao mesmo tempo, aquele espaço amplo e desocupado, incitava na alma a sensação de liberdade. Era como ver barcos tombados na areia de uma praia deserta, sem mar, secando a céu aberto, tal qual as pinturas a óleo de Calderari.
     No sonho, Baal corria descalço, com terno tweed e gravata borboleta, estendia os braços como se fossem asas cheias de penas e pulava dentro daquele buraco quadrangular. Chegou a sentir seu pé direito dando um último impulso contra a borda da piscina, os dedos em forma de garra, acompanhando o arco da sola, para ganhar altura e mais alcance. Prendeu a respiração, como se mais ar nos pulmões o ajudasse a flutuar. Dada a profundidade daquele vão, o voo e a queda foram longos. Baal mergulhou no vazio e bateu seu peito contra o piso duro e frio de azulejos brancos.
     Com essa pancada nos pulmões, Baal acordou, quase sem fôlego.
     Abriu os dois olhos e tudo estava escuro.
     Ficou confuso. Não era um escuro qualquer, não era o escuro do seu quarto, era um escuro outro. Acordara, ou desmaiara? Tinha certeza de que a piscina não passara de um sonho. Quando fora a última vez que realmente tinha pulado numa piscina? Mais de catorze anos, com certeza. Muito antes de arranjar seu emprego na Secretaria de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, antes de namorar Tereza, antes de se separar de Tereza, antes de mudar-se para o apartamento em Niterói. Por que nunca fora a uma piscina com Tereza?
     De olhos abertos, deitado em sua cama, Baal só via o breu… um breu desses tão ortodoxos que ignorava, por completo, a ideia de claridade, um breu que talvez só seja dado aos cegos ver.
     Teve medo, parecia que o que lhe faltava não era luz, mas a vista.
     Desde pequeno, nutria o pavor de ficar cego. Depois que lhe contaram, quando criança, que a urina do sapo cegava, Baal nunca mais passou perto do anfíbio e evitava, com firmeza de propósito, lagos e lagoas. O mesmo aconteceu quando lhe disseram que não devia olhar diretamente para o sol, sob pena de nunca mais enxergar nada. Tornou-se uma criança que desconfiava dos dias ensolarados.
     Nem mesmo os conhecimentos científicos aprendidos na escola serviram para afastar suas desconfianças. O pavor da cegueira encurralou muito de sua infância.
     “O dia já deveria estar nascendo”, considerou no negrume do cômodo. As luzes da cidade, a essa hora, já era para estarem estampadas no teto de seu quarto. Pensou se não seria noite ainda, se o sonho não lhe teria furtado a noção do tempo. Afastou como pôde a ideia da cegueira e a lembrança do sapo.
     Tinha impressão de que estava acordado. Mas acordara mesmo, ou só agora começava a dormir? De olhos abertos na escuridão, calculava se não estava apenas imerso num repouso inquieto, em que os estados mentais da vigília e do sono se confundiam. Piscou. O breu de dentro era igual ao breu de fora. Estava acordado, refletiu sem muito rigor lógico.
     Apalpou o próprio corpo e sentiu a regata e o velho calção com que se deitara na noite anterior. Niterói andava quente nessa estação do ano. No sonho estava de terno e gravata borboleta. Apalpou o pescoço e não a encontrou.
     Não dormia bem já fazia alguns dias. Andava angustiado com tudo, qualquer bobeira lhe apertava o peito. Uma palavra com a qual encucasse, se a ouvisse na boca de algum infeliz ou a lesse perdida num relatório, bastava para lhe dar palpitações.
     Era como se sua angústia andasse a esmo, procurando qualquer coisa com que implicar. Baal sentia que já não possuía nenhum controle sobre esse sentimento.
     No dia anterior mesmo, no restaurante por quilo, ao pagar por sua refeição, pediu à caixa que incluísse em sua comanda um bombom, desses que ficam dispostos sobre o balcão, ao lado de chicletes e balas. Escolheu um Sonho de Valsa. Pois o modo como o doce estava embrulhado o angustiou. Não o abriu, meteu-o no bolso. O chocolate poderia derreter, é verdade, mas desse jeito não olhava para aquele plástico retorcido nas pontas. No trabalho, deixou o bombom sobre a sua mesa e, sempre que olhava o embrulho, sentia um aperto no peito e um suor frio parecia querer lhe escorrer pelas têmporas. A mera perspectiva de destorcer as duas extremidades da embalagem, para liberar o doce, o desacalmava. Mirando o bombom, soltou a gravata borboleta com a qual sempre ia para o escritório e enfiou o doce numa gaveta, para conseguir trabalhar. Mas mesmo agora, em seu quarto, no escuro, longe do trabalho, ao lembrar do doce engavetado, o ar lhe parecia faltar.
     Essas angústias se acumulavam há dias.
     Não era para menos que suas noites fossem intranquilas.
     No breu, retomou o ar, ajeitou-se na cama, fechou os olhos como se dormisse e a piscina voltou a aparecer, toda branca, com manchas branco-escuro e branco-claro. Estava pranchado no piso da piscina, com queixo e peito colados no azulejo. No fundo, junto com Baal, havia algumas folhas secas de Aroeira. Já não sentia o aperto no peito. Respirou, deixando as narinas inflarem.
     Ergueu-se no fundo da piscina e tateou, com os pés descalços, os encontros dos azulejos frios e secos.
     - “Ô cacete… que diabo...”.
     Era o sonho que voltava, ou ele que acordava com os olhos cerrados?
     Como podia aquilo? Baal via mais de olhos fechados, sonhando, que com eles abertos.
     Estava num sono leve, sabia que estava dormindo. Nesse lusco-fusco onírico, abriu os olhos e voltou à escuridão de seu quarto. Fechou-os e voltou ao fundo esbranquiçado da piscina.
     Abriu de novo os olhos. Trevas. Ergueu-se da cama, foi apalpando seu caminho pelo quarto até a janela e percebeu, desapontado, que tudo na cidade estava escuro, os prédios, as avenidas, a baía de Guanabara, nem no céu havia uma estrela sequer acesa. Tudo era breu. Tocou o vidro, imaginando que, em algum momento veria o tênue reflexo de seus dedos na superfície transparente. Em vão.
     As ruas estavam negras, não havia carros, nada.
     Baal tentou abrir a janela, pois começava a suspeitar que, talvez, não houvesse mais o “fora”, queria sentir a brisa do mundo que não via. A janela estava emperrada. Forçou-a, mas a fraqueza do sono ainda não passara. Largou mão e permaneceu em pé, diante de um retângulo que imaginava na escuridão.
     Enquanto tentava divisar algo, ouviu um estrondo no meio do quarto, como se um armário tivesse caído na sua cama. Levou um susto porque o escuro, quando fala, anuncia sempre algo pavoroso. Chegou a dar um pulo, movido pelo instinto de sobrevivência. Agradeceu às trevas por não deixar ninguém testemunhar aquela descompostura. Refez-se e tateou em direção ao barulho que acabara de ouvir, buscava um pedaço do teto que talvez tivesse se desprendido, algo pesado, afundado no colchão. Não encontrou nada. Ao redor do móvel, tudo parecia inalterado. Sentou-se na cama, cabreiro.
     Aquele barulho, se estivesse dormindo, certamente o teria acordado. Parou por um instante para aceitar a verdade de seu raciocínio. Por exclusão, com certeza estava desperto, agora não poderia haver mais dúvidas quanto a isso… e não enxergava... E se estava em estado de vigília e ouvira aquele barulho, tinha que haver algo caído em sua cama, era real.
     Tateou, tateou e não encontrou nada. Além de cego, pensou Baal, delirava?
     Deitou-se. O delírio era outro medo que tinha desde pequeno… porque ver coisas demais, afinal de contas, era também uma forma de cegueira.
     Pensou em Tereza, se ela estivesse ali, explicaria o que estava acontecendo. Tereza sabia ancorar as coisas na realidade e, desse ponto fixo, com o auxílio de uma lógica incisiva, esclarecia qualquer assunto a qualquer um. Tereza era como Arquimedes: “Dê-me um ponto de apoio e uma alavanca e moverei o mundo”.
     Tereza não estava ali e a realidade, por isso, tornava-se movediça. Recapitulou alguns seriados médicos que vira na TV, tentado lembrar o que poderia causar cegueira temporária ou delírios. Coágulos, envenenamento, fungos… só lhe ocorriam essas expressões vagas, sem muita serventia. Com um sorriso no rosto, Baal recordou-se das caras e bocas que fazem os atores, fingindo estarem cegos e delirantes, as expressões dessas duas condições são parecidas, até… além disso, nenhum diagnóstico.
     Perdido nesses pensamentos, fechou os olhos e, como se o sonho voltasse, viu-se novamente com os pés sobre os azulejos. Para sua surpresa, dentro da piscina alguém havia jogado uma caixa. Era uma caixa de metal pesada que, com o impacto, chegou a abrir uma fenda no piso.
     Era aquilo que caíra em sua cama…e viera parar em seu sonho. Sonhava? Parecia tão desperto… Como aquilo podia ter varado sua cama e entrado em seu sonho? Sonhava? Tateou o objeto frio, estava um tanto amassado pela queda. Era uma caixa de metal maciça, pesadíssima… queria ver tirar aquele trambolho de aço de dentro da piscina.
     Empurrou-o, mas o objeto não se moveu. Olhou para o céu para ver se enxergava seu colchão furado e a escuridão de seu quarto, mas onde deveria haver céu, somente céu havia.
     Como podia algo cair na sua cama… e aparecer em seu sonho?
     Numa das faces do objeto metálico, Baal achou uma porta emperrada. Tentou abri-la, para espiar o que tinha dentro. Em vão.
     Analisou a tranca. Como toda a estrutura de metal amassara um pouco com a queda, criou-se uma pequena fresta na região da fechadura e, inspecionando o mecanismo, Baal percebeu que se tratava de uma tranca diferente. Havia uma lingueta por dentro... só dava para vê-la pela fresta mínima que o amassado no metal criara. Quando a luz conseguia se esgueirar por aquela fenda, refletia na chapa de metal fixada por dentro da caixa. Aquele ferrolho é que precisava ser puxado. Só com essa lingueta retraída seria possível puxar o manete que ficava do lado de fora e abrir a caixa. Não havia chave.
     Era um negócio de doido, uma caixa que tinha que ser aberta por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Tentou puxar o ferrolho pelo vão criado com a leve deformação da estrutura metálica, mas suas unhas sequer entravam na fenda, de ínfima que era. Ao tentar algum apoio contra a superfície da caixa, sua mão escapou e, com isso, Baal bateu os dedos no manete de metal. A dor lancinante o acordou.
     Viu-se, de novo, no breu de seu quarto. Colocou os dedos na frente dos olhos, mas não enxergou nada. Tocou-os, apertou-os. A mão não doía.
     Pensou no sonho que acabara de ter, a piscina, a caixa de metal, a tranqueta. Tereza não ia dar conta de explicar aquilo, de ancorar a caixa de metal, o barulho, na realidade.
     Olhou em direção à janela, mas o breu era tanto que parecia não haver fora. Ergue-se, decidiu ir à cozinha tomar um copo d'água. Tateou seu caminho até a porta e onde ela deveria estar, não estava. Tateou um pouco mais à esquerda e à direita, supondo uma margem de erro, mas não a encontrou.
     Ampliou o raio das apalpadelas que dava na parede, agora supondo estar no lugar errado do quarto. Nada. Até o momento em que, a certa altura inesperada da parede, sentiu uma superfície gelada e lisa. Nunca tinha visto aquilo ali.
     Era uma prancha de metal longa e chata, talvez tivesse dois metros de comprimento e, pelo menos, cinquenta centímetros de largura. De espessura, talvez tivesse um centímetro. Tratava-se de um objeto pesado. Apalpando-o, ponderou como poderia estar suspenso na parede. Com cautela, buscou movê-lo, sem sucesso.
     Numa das extremidades, vindo de trás da chapa de metal, notou um lume esbranquiçado, frio como a luz da lua e tão tímido, mas tão tímido, que quase não se notava, não fosse a absoluta escuridão que o envolvia. Não era exatamente uma luz… era uma fraqueza nas trevas, como o último lugar onde o vaga-lume piscou, antes de acender novamente mais adiante.
     Queria enxergar de onde brotava aquela aura, mas a chapa estava muito próxima da parede. Forçou a bochecha e a têmpora direita contra a alvenaria e tentou visualizar melhor o lume, mas com as pálpebras deformadas, não conseguia ver com nitidez.
     Tentou dobrar o metal para ampliar o vão e deixar mais luz passar, agarrou-se à chapa de metal, pressionou os pés contra a parede e puxou, mas o ferro não se curvou.
     Parou para pensar numa outra abordagem. Deu um passo para trás, como que para visualizar melhor o problema, mas assim que se afastou o lume sumiu e diante de si só via o breu.
     Sentou no chão que tinha abaixo de si e ali mesmo se esticou. Estava preso, foi a conclusão a que chegou. Onde fora parar a porta de seu quarto e o que era aquela chapa?
     - “E agora, Tereza?” - perguntou-se Baal.
     Em breve teria que ir trabalhar. Por um lado, aquela escuridão não era de todo má. O simples fato de pensar no seu terno tweed, em escolher uma gravata borboleta, a lembrança do bombom em sua gaveta, a trajeto de metrô até o trabalho, a lembrança dos relatórios de pesca, com palavras repetidas, que andavam em cardumes pelas folhas da burocracia, o exauriam. O cotidiano o esvaziava. Sentia-se mais vazio e seco que a piscina com que acabara de sonhar. Encarcerado naquele cômodo, ao menos, evitava essas gasturas do dia-a-dia.
     Fechou os olhos e, esgotado pela frustração, dormiu.
     Seus sonhos o levaram, mais uma vez, para dentro da piscina vazia, ao lado da caixa de metal, metido num terno tweed e gravata borboleta, descalço.
     Notou, então, algo de estranho naquele lugar, algo que sempre estivera ali, desde sempre, mas que só agora o incomodava. Não sabia dizer exatamente o quê.
     Alguma coisa nos azulejos da piscina chamava a sua atenção.
     O que era? A temperatura, a forma? O fato de estarem secos?
     Não, não era nada daquilo. Era algo que estava na sua frente, mas lhe escapava.
     Passou a mão ao longo daquelas pequenas superfícies vitrificadas, na esperança de agarrar o buraco no seu espírito. O que era? Mentalmente, foi descartando os elementos que via à sua volta, um a um: o cofre, a rachadura no chão, a borda da piscina, a temperatura, os rejuntes… Com esse exercício mental, de exclusão, ficou apenas com um elemento.
     O que de fato o incomodava naquilo tudo, ainda que de maneira imprecisa, era a brancura da piscina… Contemplou os azulejos por alguns instantes e notou que formavam um mundo lácteo e havia alguma coisa de morte naquele mundo esbranquiçado, era como se daquela claridade espiassem as trevas.
     Era como a alvura da lua, essa aura prateada que, com certa familiaridade, vaga pela escuridão dos céus, tal qual um fantasma.
     Era… O absurdo conectou os pontos… era a brancura que vira no breu de seu quarto, refletida na chapa de ferro.
     Olhou a caixa de metal pousada sobre os azulejos e dela aproximou-se para verificar sua hipótese. No vão amassado da porta viu a lingueta. Era quase impossível discerni-la com precisão, somente um filete de luz se espremia pela brecha e mal refletia na superfície da trava.
     Baal ficou embasbacado.
     O que lhe escapava era o inconcebível. Agora, sonhando, via a barra de ferro que o prendia dentro do seu quarto.
     Era a mesma barra de ferro! Tinha certeza! Em proporções diferentes, é verdade, mas era a mesma, não havia dúvidas. Aquele ferrolho o encarcerava dentro da caixa de metal, dentro de seu quarto!
     Quem poderia descansar com sonhos desses? Tentou, mais uma vez, abrir a caixa afundada na piscina, tocar na lingueta de ferro que o aprisionava, mas o vão era muito estreito. Operou o manete da caixa repetidas vezes, forçando-o, mas a porta seguia fechada. Era preciso abri-la por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Aquilo não fazia sentido. Sentiu um aperto no peito, dificuldade para respirar, seus pés descalços suavam. Olhava em volta e a brancura dos azulejos o oprimia. O simples fato de ver a caixa de metal onde poderia estar aprisionado dava-lhe palpitações.
     Em meio a este sonho perturbador, despertou.
     Deitado no chão, ouvia sua respiração ofegante no quarto escuro.
     Foi até a chapa de metal e espiou o vão onde ela encostava na parede. Viu a luz pálida e não teve dúvidas. Era a luz refletida, fantasmagórica, dos azulejos da piscina. A certeza que teve em seu sonho, tinha-a agora em seu quarto.
     Se Tereza estivesse ali, iria mostrar-lhe aquele lume e diria: “Olha, é a mesma luz do meu sonho! Estamos presos numa caixa de metal”. Tereza não acreditaria.
     Ponderou a posição da chapa de ferro e concluiu que deveria empurrá-la horizontalmente, da direita para a esquerda, pois, se de fato fosse a lingueta, era assim que deveria ser aberta.
     Quase não havia como segurar a borda da chapa, estava muito colada à alvenaria e era fina demais para um apoio firme das mãos. Como deu, empurrou a trava com todas as suas forças e a bicha se moveu. Mas foi só soltá-la que ouviu um solavanco. A chapa voltou para o seu lugar, como se fosse um ferrolho de pressão.
     Pensou… pensou. De repente, poderia arranjar um calço, algo que segurasse a chapa de metal aberta. Assim, calculou, voltaria a dormir, a sonhar e, da piscina, abriria o manete e libertar-se-ia daquele quarto. Precisava apenas de algo que pudesse usar para calçar o ferrolho e evitar que a chapa voltasse à sua posição original.
     O único objeto naquele quarto que poderia servir ao propósito era sua cama.
     No escuro, manobrou o móvel, mas a chapa de metal estava muito distante do chão e da parde perpendicular a ela para que a cama pudesse servir de calço. Além disso, a espessura da traveta era fina por demais e, com certeza, escaparia com o peso do móvel.
     Era impossível, com os recursos que dispunha, escapar daquele enigma. Para sair dali teria que estar dentro e fora do quarto ao mesmo tempo…. Teria que estar dentro do quarto para empurrar o ferrolho de pressão e teria que estar fora do quarto, dentro da piscina, em seu sonho, para operar o manete.
     Agora estava dentro do quarto. Seria possível que estivesse também lá fora? Ou somente ia para a piscina quando dormia, em seus sonhos? Poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou estava em um lugar de cada vez?
     E ainda que estivesse nos dois lugares ao mesmo tempo, precisaria que seus dois “eus” tentassem abrir a caixa ao mesmo tempo, a lingueta e em seguida o manete, sincronizados.
     “E então, Tereza?” - pensou em voz alta - “dá-me agora um ponto de apoio, uma alavanca!”
     Lembrou-se do bombom guardado em sua gaveta. Para abrir a embalagem era preciso que a mão direita e a mão esquerda operassem juntas, destorcendo o papel, uma para cada lado, simultaneamente… era uma boa metáfora para a tranca da caixa de metal, pensou...
     “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, veio-lhe à mente o versículo bíblico, que, no caso, parecia profético.
     Como saber o que seu outro eu estava fazendo do outro lado da caixa? Se é que lá estava. Quando girar o manete e quando empurrar a chapa de metal?
     Para ter certeza, precisaria abrir a porta do quarto ou da caixa de metal…. E olhar… mas para isso precisaria estar em dois lugares ao mesmo tempo.... Lembrou-se do experimento de um físico nascido em Viena, chamado Schrödinger. Tereza gostava de ciências e lhe falava dessas coisas.
     Nessa experiência, que na realidade tinha sido um experimento mental em que nenhum bicho foi realmente exposto a perigo algum (pois suponho que o austríaco amava a natureza), bota-se numa caixa um animal e, junto com ele, um elemento químico que tem 50% de chances de matá-lo após certo tempo. Fecha-se a caixa e se aguarda.
     - “A gente aprendeu a pensar que, nesse caso, o bicho tem 50% de chance de estar vivo e 50% de chances de estar morto. Ou seja, a gente pensa sempre que ou o bicho morreu ou ele ainda está vivo”… foi como Tereza havia explicado a Baal, muitos anos antes.
     - “Só que esse físico, Schrödinger defendia que, decorrido o tempo, até que se se retirasse a tampa para verificar o estado do bicho, na verdade, ele poderia estar vivo e morto, simultaneamente. Isso, do ponto de vista estatístico” - Tereza era capaz de explicar qualquer coisa.
     Baal lembrou-se dessa conversa que tivera com Tereza. Estavam num elevador, quando a energia do edifício acabou.
     Enquanto esperavam, Tereza comentou que poderiam aguardar pelo resgate por até sete dias, já que não tinham água. No oitavo dia, as chances de sobrevivência do corpo humano, sem qualquer hidratação, caíam para 50%. Se ficassem presos ali por oito dias, os bombeiros, quando fossem resgatá-los, saberiam que eles poderiam estar simultaneamente vivos e mortos, segundo o experimento de Schrödinger.
     Foi assim que Baal ficou sabendo da existência do físico austríaco: preso num elevador com Tereza.
     Aplicando-se o exercício mental ao caso de Baal, até o exato instante em que abrisse aquela porta, ele poderia estar dentro e fora da caixa ao mesmo tempo… Isso alimentava alguma esperança, mas o constructo mental de Schrödinger, como explicara Tereza, era mera especulação estatística. Não servia para abrir caixas.
     Não bastava ser estatisticamente possível estar em dois estados de consciência ao mesmo tempo. Era preciso que, com cem por cento de certeza, estivesse consciente do que fazia acordadopara abrir a lingueta – e do que fazia sonhandopara girar o manete. A consciência, ao menos a sua consciência, de nada lhe servia de maneira probabilística, somente de maneira efetiva.
     “A consciência precisa ser, de fato, senão não me serve” - pensou Baal.
     Desde Descartes a coisa tinha sido assim. “Penso, existo”, sem desvios estatísticos.
     No escuro, ouviu o ronronar de um gato. Era o seu gato, Erwin, por certo, que sempre via passar pela janela. Estava habituado a vê-lo, com o canto do olho, desfilar pela soleira da porta e ao redor do quarto. Na maior parte do tempo, Erwin não era um gato, mas um vulto familiar.
     Esse último pensamento sobre o gato alimentou em Baal uma leve enxaqueca.
     No final de seu relacionamento com Tereza, vigiavam os vultos um do outro, evitando-se. Se Baal ia para a cozinha, Tereza, onde quer que estivesse, aguardava o vulto do marido indicar que já se deslocara para outro cômodo, para só então ir pegar o copo de água que queria. O mesmo fazia Baal. Até o ponto em que eles mesmos tornaram-se vultos, alheios um ao outro e ignoravam-se, ainda que no mesmo quarto.
     Agora, no escuro, Erwin era uma sombra que se perdia na sombra maior da noite.
     Chamou o felino, mas foi ignorado. Não importava, estavam ambos presos dentro daquele cômodo.
     Era preciso uma solução para o problema. Voltou a deitar-se. Imaginou o vulto do gato movendo-se pelo quarto escuro. Ouviu-o ronronar.
     Ao som do felino, adormeceu e logo estava dentro da piscina.
     O dia se esvaía em seu sonho. Sombras se projetavam nas paredes de azulejos. O que era branco ganhava tons carmesinados com o crepúsculo. Tentou sair das cercanias daquelas paredes, mas elas eram por demais fundas e os azulejos por demais lisos. Baal pulou pelos cantos da piscina, deslizando as unhas e os cotovelos do terno tweed pelas paredes. As tentativas frustradas serviram apenas para desolá-lo e fazê-lo sentir-se, cada vez mais, como uma das embarcações de Calderari, afundada numa praia sem mar.
     Estava preso dentro da caixa e dentro da piscina… pensou. Mesmo que escapasse de dentro da primeira, sairia para o interior da segunda.
     Sentou-se. Os pés descalços no chão, via a piscina vazia e a caixa de metal. Numa das paredes azulejadas viu a silhueta de um gato. Olhou para as bordas, mas não viu o bicho, devia estar fora do alcance da vista. A inclinação do sol pintava um gato nos azulejos.
     Olhou bem aquela sombra. Era uma sombra conhecida, já a vira inúmeras vezes. Era o seu gato, Erwin, que há pouco ronronava no quarto.
     Chamou o gato, “Erwin! Erwin!”, na esperança de que o bicho apontasse na beira da piscina, mas ele não veio.
     Duas prisões o encarceravam.
     Nas duas, vivia na companhia das sombras.
     A sua libertação dessas prisões dependia de estar em dois lugares distintos ao mesmo tempo, vivendo de maneira sincronizada… Quais as chances? Qual a lógica?
     A consciência não era um evento estatístico. “Penso, existo”.
     Vendo o gato estampado na parede que se avermelhava com o pôr do sol, lembrou-se da sombra de Tereza, no dia em que partiu, oscilando na soleira da porta.
     Decidiu viver um cárcere de cada vez.

     Talvez agora conseguisse dormir.


27 de outubro de 2016

O Poço

Move-se toda uma cidade, mas não se move um poço.”

I Ching

     Sobre o chão duro e seco caíram as picaretas, as pás e os homens. Os homens e suas ferramentas… Onde uns acabavam, onde as outras começavam, não se distinguia, como no quadro de Braque.
         Estavam todos imbuídos num destino – todas as coisas, todos os seres, todos os seres das coisas, todas as coisas dos seres, todo o ser dos seres, todas as coisas das coisas. Ao todo, o que se tinha ali era tudo e tudo tinha como destino o fundo.
        Cavavam um buraco no mundo. Braços, carnes, ferros, cabos, pernas, paus, ombros. Desabavam sobre a rasura impenetrável do solo e a cada golpe, um novo fundo.
           Os metais gritavam contra a dureza do que é raso.
           E as rasuras se iam amontoando ao redor do fundo.
           E os homens e as picaretas e as pás, sujos de terra, se afundavam no próprio destino.

          No solo seco, povoado de pedras, procuravam água.
          Não sabiam quando o fundo seria fundo o bastante.
          Ao meio dia, começaram a descer baldes amarrados pelas alças por cordas puídas, para retirar o raso de dentro do buraco.
        As cordas dobravam-se e abriam sulcos nas beiradas do furo feito na terra, como rugas numa pele ressecada. Os baldes voltavam pesados de rocha e seca. 
          A aridez era ampla e era também funda.
         Olhei para dentro do buraco e o sol já não alcançava os homens que buscavam seus destinos. Não mais se divisava o que era o que, o breu da terra os engolira.
          E a terra tem uma escuridão particular, que não é só a falta de luz… é um escuro de entranhas, como se estivéssemos dentro de um bicho vivo, é um escuro que nos sente. Quem já esteve fundo o bastante numa gruta, conhece a sensação. De vez em quando, é possível sentir o breu se mexer.
          Lá no fundo das vísceras, ouvia-se o barulho dos metais contra o chão duro.
          Afundavam-se os homens e suas ferramentas.
          De tempos em tempos emergiam dois corpos empoeirados e suados, arfando, e logo outros dois se abismavam para continuar enchendo os baldes de terra.
        Eu tinha, então, oito anos e começava a duvidar da empreitada. Via a mesma dúvida nos rostos dos homens que despontavam exaustos de dentro do buraco, no som das picaretas, no modo como as pás se inclinavam, nos baldes amassados cheios de terra seca, nas cordas tensionadas, mas aos oito anos, sentia que duvidava sozinho.

         Eu estava excluído daquela atividade de homens adultos com ferramentas. Eles estavam todos unidos entre si, pelo mesmo destino, pelos mesmos receios, pelo mesmo cansaço e o que os unia, não me alcançava.

         No meio da tarde, um grito. Colocamos todos nossas cabeças dentro da boca daquele buraco. No fundo, segurando uma pá, enxerguei meu pai. Os homens, ao redor do furo, olharam em silêncio para o abismo, como se qualquer barulho os atrapalhasse a enxergar. Logo avistaram algo e o grito se replicou.
          Eu forçava a vista, mas só via o breu. O que todos eles viam que eu não? De repente, lá no fundo da terra seca, no escuro, um brilho. Você olha, mas não tem certeza do que vê. Era a água que minava. Uma água impossível.

        Os homens, as ferramentas, os baldes e as cordas comemoravam, sibilando soltos pelo ar. “Encontraram-se”, pensei. “Era o encontro com o destino”. Um destino do qual eu não participara, um que não me pertencia, não me alcançava. E no meio daquela alegria, aos oito anos, senti-me só e sem rumo.

         Entre esse evento de minha infância e o que lhes quero narrar, passaram-se dez anos… uma silenciosa adolescência.
       Lembro-me ainda dos ruídos dos ônibus e das pessoas que chegavam e saíam do terminal rodoviário, o chiado de destinos que se cruzavam, sem jamais se tocarem.
          Estávamos eu e meu pai, de pé, aguardando a partida da condução que levaria meu irmão mais novo, S., para São Paulo, onde cursaria Economia.
        Enquanto S. despachava as suas bagagens, notei meu pai perdido em pensamentos. Agora aquilo, por certo, era curioso – ao menos para mim –, porque meu pai é um homem que vive sempre no presente, no momento, não muito dado a devaneios. O passado, como a poeira de um carro de bois, parece nunca alcançá-lo e o futuro parece trotar sempre no limite das rédeas que o presente segura com firmeza. Os pensamentos de meu pai sempre tiveram esse aprumo de um condutor de carro de bois.
           Vê-lo daquele jeito, ruminando ideias longínquas, dava até um desassossego. Mas, como todos os estranhamentos que já vivi com meu pai, não me perdi em especulações. Empilhei mais aquela estranheza entre as coisas desconhecidas.
           S. despachou suas malas e retornou para nossa companhia.

       Como sempre ocorreu nas esperas em família, ficamos os três fisicamente próximos, de pé, formando um pequeno triângulo a uns dez metros do ônibus, mas sem trocar palavra. Por entre nós, circulavam apenas os sons da rodoviária. Meu irmão vigiava o motorista, meu pai seguia perdido em seus pensamentos e eu os olhava. Não podíamos estar mais distantes, mas mantínhamos a proximidade física.
         Às vezes, em alto-mar, vemos alguns gravetos à deriva, sem se tocarem, mas flutuando sempre juntos. As olas do mar, os ventos, as marolas das embarcações, nada os afasta nem os aproxima e por onde quer que vaguem naquela vastidão dos oceanos, por alguma razão, vagam próximos uns dos outros.
           Assim é que esperamos as esperas em família, derivamos juntos, sem nos tocar.

           Logo foi feita a chamada dos passageiros com destino a São Paulo.
         Cada um dos três moveu-se um pouco, apenas para sinalizar com o corpo que era chegada a hora da partida, mas sem sair do lugar. Foi como uma marola entre os gravetos.
           Passado esse leve tremor, meu irmão quebrou o silêncio.
           - “Eu vou lá”.
          Aquela frase trouxe meu pai de volta ao presente. Recompôs-se e disse:
           - “Tá bom. Então… boa viagem. Cuidado, heim”.
           S. embarcou no ônibus e o triângulo se desfez.
          Ficamos eu e meu pai olhando o automóvel manobrar, ouvindo os ruídos das rodas, do motor e o apito da ré que se misturavam ao burburinho da rodoviária.
        Quando olhei para ele, notei que, apesar de tentar se conter, um de seus olhos estava mareado. Não chegou a chorar, mas foi possível ver o brilho de uma lágrima trepidar em sua vista.
       Foi como ver aquela água antiga minar no fundo do poço cavado na terra seca, reluzindo na escuridão.
           Era uma água impossível.
           Desviei rápido o olhar.
           Eu jamais vira meu pai chorar. Jamais o vira sequer oscilar em razão dos ventos das emoções. Por falta de maior interesse ou simples imaturidade, sempre o tive como o solo seco e duro que se vê na rasura de um terreno árido.
           Sempre imaginei que todos os japoneses eram assim.
       Imaginava que ele - como os outros imigrantes - abandonara sua terra natal, sua família, sua cultura, seus amigos e viera embrenhar-se no Cerrado brasileiro aos vinte e poucos anos de idade justamente por conta dessa secura de emoções, pela aridez do seu caráter. Por isso estranhei a lágrima.
         Mas, tal qual o devaneio testemunhado havia poucos minutos e como tudo o mais que sempre envolveu o comportamento paterno, classifiquei aquilo como desconhecido e voltei minha atenção aos ruídos da rodoviária. Empilhei aquele pensamento no canto das coisas inescrutáveis… como empilho os livros que já tentei ler mil vezes, mas me são tão estranhos que, quando vejo, estou apenas lendo as palavras, sem ter qualquer ideia do que se passou nos parágrafos anteriores… Macbeth, Finnegans Wake, Tractatus… a pilha de minhas incompreensões se agiganta, mas eu aprendi a resignar-me diante dela.

         Só que, ao contrário de tudo o mais, aquela lágrima oscilando no olho de meu pai, perturbou-me.
       Aquele quase choro não fazia sentido. Meu irmão ia para São Paulo... São Paulo! Coisa de quatrocentos quilômetros. Não era o bastante para aquela lágrima, ao menos não nos olhos daquele japonês de cinquenta anos avesso às sentimentalidades, não na aridez daquele caráter.
          Enquanto caminhávamos para o carro, deixando para trás as plataformas dos ônibus, as gentes e os ruídos, eu tentava entender de onde minara aquela água. Que devaneios tinham sido aqueles, tão profundos, que cavaram tanto a alma de meu pai a ponto de encontrar aquela lágrima?
        Como sempre, não consegui pensar em uma resposta e, como sempre, no silêncio de minha adolescência, não me ocorreu perguntar.
          Assim como fantasio que sempre terei tempo para ler os livros que não li, costumo acreditar que sempre poderei perguntar as questões que não formulei.
            Retornamos ao carro e às nossas vidas.

           Durante dez anos pensei naquela lágrima.

         Em minha solidão, costumo me demorar em minhas ignorâncias. Costumo dar-me tempo, como se o tivesse às pampas. Dez anos é o tempo que passo ruminando as dúvidas cativas. Os livros não lidos se acumulam, as perguntas silenciadas se enfileiram.

         Um dia, concluí que jamais teria a resposta se não interrogasse meu pai especificamente sobre aquele assunto.

           Peguei um avião e fiz uma visita aos meus pais.

          Num momento a sós que tive com ele, na sala de jantar da casa onde eu crescera, perguntei-lhe por que naquele dia, há uma década, ele chorara na rodoviária ao se despedir do seu filho mais novo.

        Olhou-me por um instante. Ele sabia do que eu estava falando. Eu sabia que ele sabia. Aquela quase lágrima não se apagara de suas lembranças.

         Recostou-se na cadeira e fitou longamente um ponto fora da janela da sala, como se relembrasse os pensamentos nos quais se perdera naquele dia longínquo, entre os ruídos das plataformas de ônibus. Depois mirou-me como se pensasse na melhor maneira de dizer o que se passava em sua cabeça.

          Contou-me uma história curta.

          Explicou-me que era o filho homem mais novo de sua família – uma família rural do Japão – e que, aos vinte e três anos, decidira migrar para o Brasil.

          Em suas primeiras palavras, senti que ele cavava um solo duro e seco.

       Contou-me dos motivos que o levaram a tomar aquela decisão, de como se sentia no Japão quando jovem, seus receios, suas expectativas. Descreveu-me como, aos vinte e três anos, colocou todas essas coisas na balança para fazer a escolha de largar tudo para trás e contornar o globo.

          A picareta estalava contra o terreno árido.

          Eu ouvia.

        - “É… foram essas coisas que eu pensei quando S. estava indo embora para São Paulo” - disse, querendo dar um desfecho àquela conversa.

          Parou a narrativa. Olhou-me. Sabia que não era só aquilo. Era preciso cavar mais fundo.

        Fiquei em silêncio, boiando ao seu lado como um graveto no mar. É assim que esperamos as coisas em família.

         Após alguns momentos, entendendo que o meu silêncio era o silêncio da espera, retomou o fio da meada.

          Desceram os baldes atados às cordas para retirar a secura do fundo.

         Contou-me que no dia de sua partida do Japão, pouco antes de embarcar, seu pai lhe teria dito:

         - “Sinto que essa é a última vez que nos veremos”.

        E foi a primeira vez que o viu chorar. Disse-me que estranhou as lágrimas nos olhos de seu pai, mas, aos vinte e três anos de idade, não deu razão às palavras do velho emocionado. Sentia em seu íntimo que era muito jovem e que, em algum momento, retornaria ao Japão e à sua família. Sentia que tinha tempo. Por fim, explicou-me:

       - “Naquele dia, na rodoviária, lembrei-me da despedida de meu pai. Percebi que, aos cinquenta anos de idade, despedindo-me do S., meu filho mais novo, eu jamais retornara ao Japão. O tempo passou mais rápido que eu esperava. Ele estava certo. Naquele dia, lembrei da última vez que vi meu pai.”.

         Parou novamente a narrativa e, olhando-me, concluiu: “Por isso eu chorei”.


        Era a água impossível que minava. Então, mais uma vez, na sala de casa, lembrei-me dos homens que vi cavarem um poço, quando tinha oito anos de idade.