30 de julho de 2017

O Trágico das Horas

     A conversa miúda da burocracia… Há uma lei para isso, publicada no Diário Oficial, assinada pelo Presidente da República. Ela determina que, num ambiente burocrático, as pessoas devem se tratar com urbanidade. Descumprida, o desurbano pode responder processo administrativo… o que é um aborrecimento sem fim. Advogados, produção de provas, testemunhas, intimações, constrangimentos com colegas, audiências gravadas em vídeo, recursos, fofocas… Tudo por quê? Por uma desurbanidade às vezes inofensiva.

     Mas a lei não diz exatamente o que é urbanidade. E esse não-dito alimenta o pavor no espírito burocrático. Na dúvida, em secretaria sorri-se sempre um sorriso pré-moldado. Os burocratas, para alimentar as conversas nos recintos oficiais, tiram de seus paletós assuntos ordenados pela estação do ano: “Está frio”… “Está um calor hoje!”…. “Essa época seca é brava… tem que se hidratar”… “E essa chuva, heim?”…

     Evita-se qualquer aprofundamento em questões pessoais, assuntos controversos, julgamentos mais assertivos, opiniões mais incisivas, tudo a fim de se garantir que os diálogos se mantenham na área cinzenta da urbanidade.

     Mas ninguém sabe ao certo o que é essa urbanidade imposta por lei… então ela se torna uma censura velada, cujos critérios são desconhecidos, cujas fronteiras cada um fantasia e cuida para nunca os transpor.

     O limite da urbanidade não foi traçado, é verdade, mas todos sabem que ele está lá, em algum lugar. As pessoas vão prestando atenção nos assuntos que dão certo, que não geram atritos ou discórdias e, sempre que possível, em suas conversas cotidianas, mantém-se nessa zona de conforto, dentro da lei.

     Aos poucos, esses assuntos pré-fabricados tornam-se a norma. Viram um consenso, uma convenção e, por hábito, quem vive em secretaria passa a evitar assuntos diferentes, mesmo que inofensivos, mesmo que urbanos, atendo-se apenas àqueles já aprovados pelos costumes burocráticos.

        Há uma sólida jurisprudência formada no que diz respeito às conversas cotidianas de secretaria.

     Passa-se anos confabulando sobre as mesmas coisas num cartório burocrático. Não pela profundidade e riqueza do assunto escolhido, mas pelos limites impostos por uma lei imprecisa que cerceia, silenciosamente, os diálogos, as interações dos indivíduos na burocracia.

     A censura não apenas cala, ela tolhe o espírito, convenciona o comportamento.

     No entanto, outro dia, uma colega de trabalho fez-me uma pergunta inesperada.

     Eu havia acabado de chegar para iniciar meu expediente e ainda me livrava do capacete e jaqueta quando Kenia lançou a indagação: “O que é a tragédia? Por que uma tragédia é capaz de mudar uma pessoa?”.

     Havia algo de revolucionário naquela pergunta, algo de subversivo, que fugia ao ordinário dos assuntos de secretaria. Olhei para os lados desconfiado...

     A tragédia… Lembrei-me da Poética de Aristóteles. Do que me recordava do texto, a característica da tragédia era justamente a mudança pela qual passa o personagem. Talvez não fosse a tragédia – o evento trágico em si – que efetuasse as mudanças nas pessoas. Talvez fossem os acontecimentos encadeados para a mudança é que se tornassem trágicos… quando vistos retrospectivamente. A tragédia talvez só recebesse esse nome se houvesse alguma mudança no personagem.

     Talvez a tragédia não mude ninguém… talvez sejam as mudanças nas pessoas é que tornem os acontecimentos trágicos.

     No fundo, não sabia o que responder à colega. O computador em minha mesa pedia que eu pressionasse as teclas Ctrl + Alt + Del para iniciar. Parei por um instante e apenas ponderei que o importante era que houvesse alguma mudança, para que a tragédia tivesse algum sentido.

     Kenia, como Aristóteles, considerou as possíveis mudanças engendradas por eventos trágicos. Discutimos sobre exemplos em que as tragédias trouxeram o melhor ou o pior nos indivíduos envolvidos.

     Ao final, a colega concluiu que homens e mulheres podem desenvolver diversas facetas de humanidade após passarem por tragédias.

     Não ousei discutir. Suponho que Aristóteles e Kenia estejam certos em suas análises poéticas.

     Sem violar a urbanidade, sem desrespeitar a lei, concluímos a conversa inesperada e retornamos ao trabalho… mas aquela discussão me ficou na cabeça.

     Se a mudança é o que caracteriza a tragédia, então, com certeza, ao longo da peça, do texto, devem existir indícios, pistas, resquícios de que uma mudança se anuncia.

     Assim é com Édipo Rei. Sófocles, ao longo do texto, nos mostra a força do caráter do monarca, sua rigorosa observância às leis tebanas, narra as mensagens dos oráculos, as suspeitas de Jocasta… então os acontecimentos, aos poucos, trazem a história do personagem, e o Rei, que desconhecia seu próprio passado, desconhecia quem verdadeiramente era, passa a saber. Eis a mudança que torna os acontecimentos trágicos. Édipo passa da ignorância para o conhecimento… descobre que é assassino do pai e amante da mãe… e não suporta a descoberta.

     Depois da mudança vemos que ela estava anunciada desde o início; que Sófocles deixara uma trilha de indícios sobre a tragicidade dos eventos narrados.

     Assim parecem ser as tragédias se estivermos falando de dramaturgia… mas e na vida? Haveriam indícios das mudanças operadas nas pessoas que vivem alheias à trama da própria existência? É possível ver, nos eventos cotidianos, a mudança que se avizinha e a tragédia não anunciada?

      É possível olhar para nossas rotinas, nesse dia-a-dia burocrático, pleno de urbanidades, e perceber, antes das mudanças, o que de trágico há em nós? O que há de trágico nos outros?

     Dias depois da conversa com Kenia e com essas caraminholas rondando meus pensamentos, comecei a ler um livro chamado “As horas”, do escritor Alex Andrade.

     O texto rompeu a urbanidade censora do cotidiano.

     O livro é uma sequência de pequenas tragédias do dia-a-dia. Tragédias que se iniciam e se findam no espaço de horas. Nelas somos sempre lembrados que os indícios das mudanças – dessas mudanças trágicas – estão nas coisas banais de nossas vidas: Nos minutos que contamos no relógio, numa carta de amor, num poema lido em voz alta, numa bituca de cigarro, numa parede fria, num telefonema, num jogo de videogame, no tilintar de moedas, num guarda-chuva esquecido, numa casa abandonada, no olhar de um porteiro, etc.

     Essas pequenas coisas, no trágico das horas, trazem as mudanças possíveis nos personagens. Vemos as pessoas mudarem nas histórias do livro, em torno desses pequenos acontecimentos. Os contos que compõem a obra fazem-nos refletir sobre nossas próprias tragédias cotidianas e as pistas que nos levaram até elas. Mas como em toda tragédia, só percebemos que são trágicas, depois da mudança que se opera no personagem, depois da mudança a que nós, os leitores de nossas tramas, nos sujeitamos.


       Tenho que falar desse livro com minha colega de trabalho. Amanhã, na urbanidade das horas burocráticas.


15 de julho de 2017

Sobre as Coisas Não Acontecidas

      Aquilo que não acontece, que não é visto nem sentido, que não repipoca nesse mundo de tanta coisa sucedida, tem uma história, tem corpo, tem espírito, tem trejeito e gingado. O que não acontece tem um passado, um presente e se desdobra pra frente no tempo. O não-acontecido, mesmo sem a acontecência das coisas que ocorrem no mundo, dá um jeito de ficar na memória e nos anseios das gentes. Ah, sim! Ô! O que não acontece, a bem dizer, é quase como se fosse um acontecimento.

      Para começar essa conversa sobre inocorrências, sem muitos desacordos, vamos pegar como ponto de partida um não-acontecido célebre. Quando Drummond nos conta que "No meio do caminho tinha uma pedra/tinha uma pedra no meio do caminho/Nunca me esquecerei desse acontecimento" tá falando, na verdade, é de não-acontecências, de coisas que não se passaram, de pessoas que não foram nem voltaram por aquele trilheiro; está falando de desabaladas carreiras que não desceram por ali, de gente que não se perdeu, indo passar por aquelas bandas. E de não acontecerem essas viagens todas, ficou a pedra no meio do caminho. É esse mundo de coisa desacontecida, de gente que não foi e nem voltou, de carros de bois que não rodaram, de fugas que por ali não passaram, que o poeta não consegue esquecer.

      Não é da pedra parada que o poeta fala. É do que a pedra imóvel sugere. Espero que ao menos nisso, estejamos de acordo, caro leitor.

      Então, o não acontecido está ai. Quase igual à coisa que acontece, inegável como uma pedra.

      Agora, gente teimosa tem aos montes. Podem até dizer que não, podem dizer que o não-acontecido, justamente por essa falta de acontecência, não tem jeito de ser, mas eu não arredo. Não. Nesse ponto eu sou igual ao poeta, não tenho como contar tudo o que não aconteceu, mas posso apontar onde estão as marcas deixadas pelo do inocorrido: "tinha uma pedra no meio do caminho". E quem descordar eu sinto, mas vou ter que declarar equivocado. Porque eu não tenho como negar - seria entrar em desavença séria comigo mesmo - que eu vejo as coisas que não acontecem. Eu as vejo e elas estão aí, se desdobrando na frente dos nossos olhos. Pelamordedeus. O que não acontece deixa rastro - olha! -, vai deixando marcas por tudo que é canto que não passou, por onde não foi, em quem não viu. É só seguir o trilheiro do não-acontecido para saber tudo daquilo que não foi…

      Taí para quem quiser ver. Tá lá a pedra de Drummond que não me deixa mentir. Agora, uma coisa é certa: essa história do insucedido só é contada de maneira enviezada, no avesso das coisas que acontecem. É preciso olhar com cuidado a pedra no meio do caminho para ver as comitivas que por ali não passaram, as jornadas que nem começaram, os andarilhos que não arrastaram os sapatos puídos pela poeira daquela via estreita... Mas estão todos ali, naquela pedra: inocorridos.

      Olhe ao redor, leitor do céu! Veja! O amor que não se teve coragem de viver fica marcado no oco, no vazio com que se experimenta as outras emoções. Pode ver, tá lá, no coração do arrependido todo o amor não acontecido, em todos os detalhes.

      No enterro do jovem, o luto é essa não-acontecência. É ela que ocupa o velório. O desamparo é dela, de tudo o que não se sucedeu na vida finda tão cedo.

      É a pedra dura de Drummond. Vou ali, caro leitor, pegá-la do meio do caminho. Ei-la, a pedra, maciça. Tu vês? Sentes? Enxergas nela o não acontecido? Dize-me que não e eu a taco para longe, para fora do caminho! Pronto! E agora, olha o caminho sem a pedra... vês agora tudo o que não aconteceu?

      Estamos de acordo que existe o não acontecido?

      E por que falo desse tanto de coisa insucedida?

      É justa a pergunta. Ando, de fato, às voltas com esse assunto.

      É que outro dia me cruzou o caminho um livro. Era como a pedra de Drummond: um compêndio de inocorrências, ali, parado em meu caminho. Nele, como no poema, minam sinais de coisas que não se sucederam. São insucedidos os mais inusitados, um atrás do outro: a história da performance de um artista que nunca ninguém assistiu; a história de uma caixa de música que nunca ninguém ouviu; a história de uma fortuna que nunca ninguém gastou; a história de uma cidade dentro de uma montanha, que nunca ninguém visitou, por não existir nem a cidade, nem a montanha; a história de um crime com uma única testemunha, o próprio assassino, que não se lembra se o assassinato ocorreu; a história de uma ladra arrependida, que não consegue levar adiante seu arrependimento e acaba por não conseguir nunca se arrepender; a história de um recado escrito numa folha de papel, que quem recebeu nunca decifrou; a história de um homem que se lembra de tudo o que os outros lhe falam, palavra por palavra, mas não consegue se lembrar de nada do que ele mesmo falou.

      Nesse curioso e pequeno tomo as inocorrências vão se avolumando, vão se condensando nas páginas do livro, tal qual as inocorrências de Itabira se adensaram na pedra do poeta mineiro. O que é um livro, então, transmuta-se num totem em tributo às coisas não sucedidas.

      Tinha uma pedra no meio do caminho.

      O livro, como a pedra de Drummond, me fez recordar que a Máquina do Mundo, essa engrenagem que se abre de maneira assombrosa e faz as coisas acontecerem, produz também o desacontecido. Ela engendra o que não é. Dela sai mesmo o que nunca aconteceu, nem nunca acontecerá, dela sai, inclusive, a maior e mais incontornável das inocorrências: Deus.

      Eis o curioso título do livro que me cruzou o caminho: "Deus ex Machina" (Deus saído da Máquina), de Victor Paes... o livro das coisas não acontecidas, como a pedra de Itabira.


      Por isso, caro leitor, por conta dessa leitura, ando às voltas com o não-acontecido.


25 de junho de 2017

Fotografias da Corcova


MAR PORTUGUÊS

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena".

Fernando Pessoa

       O Brasil tem as costas e a corcunda mergulhadas no Oceano Atlântico.

       Pegue um mapa mundi qualquer e veja lá se esse território gigante não tem a canastra e o cupim bem molhados pelo azul que inunda o globo.

       E esse jeito de deitar-se no mundo, de se acomodar no planeta, deu ao Brasil um grande litoral, cheio de praias. Ipanema, Copacabana, Praia Grande, Brava, Jurerê, do Espelho, do Forte, do Rosa, da Pipa, do Futuro… O mundo fala de nós pelas nossas costas.

       Agora, por mais que tenha um mar sem fim rebentando noite e dia em suas areias e em sua carcova, existem brasileiros que vão nascer, crescer e morrer sem nunca ver o mar que banha o País.

       Vão ouvir falar das praias, é certo. Pela tevê, nas novelas e filmes, pelo rádio, por fotografias, pelas histórias que outros lhes contarem, mas sentir o repuxo das marés debaixo do solado dos pés, o gosto salobro da sopa onde boia o mundo, não vão.

       Isso porque o Brasil não é só a costa. Esse País tem um dentro, tem suas entranhas. E nesse interior do País, que se espalha por milhares de quilômetros América Latina adentro, tem gente.

       As tripas do Brasil são secas e são úmidas, têm catinga e floresta, chapadas e cânions onde não chega o Atlântico. As entranhas ficam longe da costa. Por dentro, no fundo, o País não é só praia.

       Eu mesmo, moro no Cerrado, no planalto central do Brasil. Há quantos anos não vejo o mar? Perdi a conta. Eu perco a conta das coisas que não acontecem.

       E o mar, há muito, não me acontece. O que me encharca é o ar seco e quase parado, a vegetação rasteira, o horizonte infinito de uma geografia plana e de solo vermelho, cobertos por um céu alto. O Cerrado é uma vastidão árida e sem marolas.

       Foi com esse espírito ressequido pelo inverno sul mato-grossense que, semana retrasada, ouvi a história de uma menina que não conhecia o mar. Uma menina que, como eu, morava longe da costa, habitava algum canto do interior do País.

       Confesso-lhes que meu coração – que há muito não pensava no oceano – apertou um tanto ao ouvir aquele causo de um mar não visitado. Eu perco a conta das coisas que não me acontecem, mas me aflige o que não acontece aos outros.

       Fiquei sabendo que aquela menina de cabelos vermelhos – um vermelho cor de crepúsculo - colecionava postais de cidades litorâneas, recortes de revistas com figuras de praias… ela sabia que brotavam coqueiros nas areias e que os coqueiros davam cocos. E chorava de vontade de conhecer as águas que banhavam o espinhaço do Brasil.

        As fotos, que ela guardava numa caixinha, tinham o mar e as ondas, mas não tinham as marés e a brisa.

       Então, essa menina me segredou que num passeio escolar à lagoa da cidade comprou um coco verde, igual aos que vira pendurados nos coqueiros à beira-mar, nas fotografias e postais.

       Só que ela não comprou o coco como nós compramos nossas coisas, trocando dinheiro por tralhas. Não. A menina, na verdade, adotou um coco, como quem recebe uma esperança, um afeto, um desejo.

       Aquele coco, no fundo, já era dela antes de brotar no coqueiro, antes dela sacar seu dinheirinho da carteira, antes do passeio à lagoa. Aquele coco já havia brotado e amadurecido nos seus sonhos.

       E, de maduro, o coco caiu na sua vida como uma promessa, como uma semente de um mar que logo, logo iria brotar.

       Só que longe da praia, o coco mudou de cor, de tamanho e secou… a menina viu, dia a dia, secar o mar que havia no coco.

       E do sonho que era aquele coco, a menina despertou... Longe da costa brasileira, com o mar dentro de si cada vez maior.

       Não sei se depois que conversamos a menina foi ver o oceano. Espero reencontrá-la um dia para saber.

       Essa história, quem me contou foi Ninfa Parreiras. Na verdade, na verdade, ela me leu em voz alta o seu livro “Com a Maré e o Sonho”. Para mim, ficou sendo uma história contada, porque toda vez que leio o texto, lembro é da voz de Ninfa Parreiras desfiando a narrativa.



16 de junho de 2017

Um lugar chamado Samarone

Cicatrizes fecham
Mas renascem
Na memória.

Samarone

      Há dez anos meti-me a percorrer o Brasil de ônibus. Naquela época, tinha umas parcas economias, um diploma de bacharel em filosofia e mais nada. Dessas três coisas que detinha, a única que me era de alguma serventia prática era esse “mais nada”; era ele que me dava certa perspectiva de vida, que me libertava. Era com esse “mais nada” que algo poderia ser feito. Então, para ocupar esse grande descampado que se espraiava diante de mim, achei por bem pegar a estrada e ser passageiro pelo tempo que o dinheiro poupado permitisse.

      O “mais nada” deu-me um vazio a ser preenchido, as escassas economias asseguraram as passagens de ônibus e a filosofia - sejamos justos com a filosofia - aplacou a solidão dessa jornada.

         Já havia cruzado mais de três mil quilômetros de caatinga, cerrado e floresta, contemplando esse país pelas janelas amplas dos ônibus e pelas rodoviárias escondidas em lugares pouco atrativos dos municípios brasileiros, quando decidi deixar o Estado do Piauí e ir ter com o Ceará.

          Não me lembro o nome da viação responsável pelo remendo de automóvel em que eu e mais trinta e poucas almas sacolejávamos, para poder dar nome aos bois aqui neste texto e fazer uma justiça tardia contra a prestadora dos serviços, mas o fato é que o ônibus quebrou. Era noite e o motorista teve que encostar a viatura no município mais próximo e aguardar o reparo do automóvel.

          Estávamos na divisa entre os dois Estados. Estacionamos na cidade de Chaval. Lembro-me que à época o nome do lugar me soou poético, diferente dos nomes indígenas, de santos ou de acidentes geográficos que costumam batizar os povoados brasileiros, Chaval era um vocábulo estranho, que parecia ter sido inventado.

       Saindo da rodovia estadual e entrando no perímetro urbano, notei que as ruas do pequeno município, mal iluminadas, estavam tomadas de gente, de saias e de pernas.

         Nas praças, mulheres andavam em grupos, algumas vigiavam crianças que corriam soltas no espaço público, outras conversavam sentadas nos bancos ou nos meios-fios, com as pernas cruzadas, invadindo a rua. Na frente das casas, sentadas em cadeiras baixas, de plástico, mais mulheres se reuniam. Dentro dos bares, mulheres serviam outras mulheres que bebiam cerveja no balcão.

            O ônibus manobrava pela cidade e não se via homens pelas ruas de Chaval.

           Uma vez desembarcado, resolvi caminhar pelas redondezas, pois o mecânico estava em outro município e demoraria um tempo para chegar. Batendo perna por aquele lugar perdido no interior do nordeste, constatei, de fato, tratar-se de uma cidade habitada apenas por mulheres e crianças. Se varões haviam, estavam enfurnados dentro das casas, pois nas pequenas lojas, nos postos de gasolina, nas lanchonetes e padarias, nas motos e carros que cruzavam as ruas daquele lugar, somente se viam mulheres.

             Sentei-me num canto da praça e observei a gente de Chaval vivendo sua vida feminina. Havia uma presença masculina naquele cotidiano, é inegável, mas era como se os homens só estivessem ali como memória nas cabeças, nos atos, no andar, no falar, no beber, no viver daquelas mulheres e crianças.

            Haviam homens, mas homens ausentes.

            Aquilo me pareceu um mistério, uma realidade tirada de lendas pagãs. Um lugar inventado.

            Retornei à rodoviária, entrei no ônibus que acabara de ser consertado e segui meu rumo.

         À medida que me afastava daquela cidade, Chaval deixava de ser um lugar no mundo e tornava-se um lugar em minha alma. Um lugar com o frescor de um pequeno mistério.

           Longe de Chaval mais de três mil quilômetros, o dinheiro para as passagens de ônibus acabou, o “mais nada” que eu tinha se preenchera com recordações de pessoas e lugares como aquela cidade na divisa do Ceará com o Piauí. Deixei de ser passageiro. Acomodei-me num canto, numa repartição pública.

        Uma década depois dessa peregrinação e fatigado com as repetições tediosas e chãs da burocracia onde hoje me encontro, às vezes revisito esse lugar chamado Chaval, onde meu espírito se reaviva com a lembrança de que há algo inescrutável na realidade.

      Hoje tenho um trabalho que me fixou numa subseção da administração pública no Cerrado brasileiro, um diploma de bacharel em filosofia e, de novo, mais nada. Esse “mais nada” de agora me põe em viagens por lugares imaginários.

         Numa dessas visitas aos recôncavos de minha alma, para além de Chaval, para além desse lugar de mistérios femininos, descobri um via nova, uma estrada para um lugar que até então eu desconhecia, com um nome estranho e poético chamado Samarone.

       Fui parar em Samarone como parei em Chaval. Desavisado. Talvez porque algo em mim se quebrara, como o ônibus na divisa entre o Piauí e o Ceará.

        Samarone tem a concretude do mistério feminino de Chaval. Tem o cheiro fresco da incógnita que se desdobra diante de nossos olhos abertos. É um lugar habitado por pessoas que não estão mais ali, exceto pelas maneiras como são lembradas, como os homens de Chaval.

        Pelas vias de Samarone, pelas vias em formas de versos, encontramos gentes, gentes as mais diversas que estão ali, mas estão ausentes.

          “Algumas perguntas são prematuras
            Como o irmão que nasceu antes
            E não vingou”.

          Vim parar nesse lugar chamado Samarone porque algo em mim se quebrou. Agora, aos poucos, como Chaval, Samarone torna-se um lugar em meu espírito.

        

                Observação: os versos que transcrevi nesse texto foram retirados do livro “A Invenção do Deserto”, de Samarone Lima. Vale a leitura? Vale a jornada!

4 de dezembro de 2016

Silêncio de Botequim

De acordo com um provérbio africano,
se você quer ir rápido, vá sozinho.
Mas se você quer ir longe, vá acompanhado.
Nós temos um longo caminho à nossa frente;
nós só poderemos percorrê-lo se formos juntos".

Kofi Annan

     Campo Grande é uma cidade que se espraia pela planura do Cerrado. É como um grande pedaço de charque cortado fino e aberto no ar seco. As quadras são imensas, quase intransponíveis; entre uma esquina e outra parece que se desdobra um deserto. As calçadas sem sombras, sob o calor do Planalto Central, estão sempre vazias. A ausência de gente indo e vindo pelas vias torna a urbe impessoal; um corpo que caminha é sempre estranho na paisagem.
     Não há testemunhas em Campo Grande. As coisas acontecem em segredo e só depois de algum tempo é que o segredo se espalha, já distorcido, às vezes aumentado, outras, sufocado.
     Dia desses eu estava sentado num bar, olhando a rua vazia, devia ser lá por quatro horas da tarde, quando notei uma menina caminhando pela calçada, com uma pasta de plástico debaixo do braço e um rolo de durex enfiado no pulso, como um bracelete. De onde ela viera?
     Campo Grande tem dessas coisas. Por mais plana que seja a cidade, por mais que a vista alcance longe, quando notamos uma pessoa andando, nunca temos certeza de onde ela apareceu. Tem-se a impressão de que os solitários corpos que caminham pelas ruas vazias surgem do nada e no nada se esvaem.
     Essa menina tinha cabelos negros e compridos, que estavam um pouco desarrumados, vestia uniforme escolar, meio surrado, que indicava que ela provavelmente estudava no período matutino e não trocara de roupa desde o final das aulas. Era magra, seu corpo mirrado mal preenchia a camiseta e a calça, cujos panos oscilavam igual bandeiras à medida que caminhava. No pulso esquerdo, o rolo de durex dançava solto, quase escapando pela mão, mas a menina habilmente erguia o antebraço e dobrava a munheca quando a fita queria escapulir. Aquela criança não tinha mais de treze anos de idade, suponho, e vagava sozinha pelas ruas desertas de Campo Grande.
     Pois essa pequena figura feminina parou perto de um poste na esquina, tirou um papel de dentro da pasta e ali o colou com a fita durex. Caminhou incontáveis passos até chegar ao poste que ficava no meio da quadra e repetiu a operação. Fez o mesmo no poste da outra esquina, perto do bar onde eu estava.
     Havia uma certa tristeza no seu jeito de andar, o seu corpo parecia retesado. Notei que, de tão miúda, ela quase não tinha sombra. Quando passou por mim, vi que chorava, tinha um semblante sombrio, o nariz irritado pela coriza do choro, a boca arqueada para baixo e os lábios firmemente apertados. Debaixo do sol quente, alguns fios de cabelo colavam no suor e nas lágrimas do rosto.
     Sozinha, ela seguia seu rumo, com sua pulseira improvisada, parando a cada poste, pregando os papéis que levava dentro da pasta. De quadra em quadra, aquela figura quase sem sombra sumiu pelas esquinas da cidade.
     Sentado no bar, notei o vazio reocupar a rua. Era como se a passagem da menina nunca tivesse ocorrido. O que será que ela tanto pregava? Por que chorava? Não dei muita importância a esses pensamentos, transmitiam um jogo de futebol na televisão, algum campeonato europeu com times cheios de jogadores e técnicos estrangeiros. Como será que se comunicavam? Entendiam o que uns gritavam para os outros, ou o que cantavam as torcidas? Por que será que ainda faziam distinções entre campeonato inglês, alemão, francês, espanhol, se os times, de fato, eram torres de Babel?
     Com o final da partida, ao olhar para rua, a curiosidade, mais uma vez, despontou em meu espírito. Por quse duas horas a dúvida hibernara. O que eram aqueles cartazes?
     Já começava a escurecer e, de meu posto, não era possível ver o que havia nos papéis. Levantei-me e fui até a esquina. No poste, um cartaz que não fazia muito sentido: Nele estava estampada a foto da própria menina. No início, foi difícil reconhecê-la, pois naquela fotografia seus olhos cintilavam, ela sorria um sorriso imenso, acenava para a câmera e tinha a cabeça coberta por um véu muçulmano, hijab, de cor turquesa. Não lembrava a figura triste que passara na frente do bar mas, com certeza, era a mesma menina. A informação, escrita numa redação um pouco truncada, com erros de grafia, era de que aquela criança estava desaparecida, sumira na tarde daquele dia, fora vista pela última vez saindo da escola, família aflita, telefone de contato, chamava-se “Najwa”, recém-chegada da Síria, falava pouco o idioma português.
     Em frente ao poste, de pé, olhei para o rumo que a menina havia tomado, mas só havia a rua.
     Por que ela pregava fotos de si mesma, informando seu próprio desaparecimento, pedindo que a encontrassem?
     Anotei o telefone e voltei para o bar.
     Na TV, apresentadores discutiam o jogo que terminara há pouco. Quem havia sido o melhor jogador da partida? O meio-campo colombiano, do time espanhol ou o atacante croata do time italiano?
     Pensando sobre o cartaz, concluí que não era de todo estranho.
     De fato, aquela menina feliz da fotografia desaparecera. Por certo sumiu quando deixou seu País, seus amigos, seus costumes, vindo desembarcar nessa terra desconhecida onde não se vê gente pelas ruas. Com certeza, a família a queria de volta, alegre, sorridente. Quem mais sentia sua falta era a própria Najwa. Tinha saudades de si mesma, da Najwa que sorria com olhos brilhantes e que vestia hijabs coloridos. Talvez por isso, com o pouco português que aprendera, tenha redigido aquele pedido de ajuda, por isso saíra aquela tarde, sob o sol do Cerrado, sozinha, colando cartazes, na esperança de que alguém, nesse mundo estrangeiro, a encontrasse.
     Voltei a olhar a rua e, por ela, pelos postes, não passou uma viva alma. Um ou outro carro transitava pela via, alheio às calçadas. Aqueles cartazes não seriam lidos. Ninguém caminha pelas ruas de Campo Grande, não há testemunhas nessa cidade. Ninguém encontrará aquela menina sorridente que desapareceu de uma família síria. Ninguém saberá que está perdida.
       A ignorância é uma bênção.
     Liguei para o número do cartaz. Após alguns toques, ouvi uma mensagem num idioma desconhecido. Enquanto ouvia aquela entoação estranha de sons misteriosos, os comentaristas esportivos concluíram que o melhor jogador da partida havia sido um lateral romeno, do time italiano.



21 de novembro de 2016

Rememorações

Aos amigos Regina e Guilherme,
que andam a lançar âncoras de ar,
Ícaros melhorados.


     Há algo no silêncio das árvores que seduz os que amam profundamente. É um silêncio misericordioso e benevolente, que parece atrair as confissões dos amantes, sem impor-lhes o fardo do julgamento. Pelo seu amplo vão sem paredes, sustentado por uma coluna central em cujos veios correm a seiva da vida, não se agarram culpas ou preconceitos; e existem amores que, talvez, somente nessa quietude indolente – livre de morais e costumes – encontram abrigo.

     O sussurro das folhas secas e o frescor do chão, protegido pelas sombras, acalentam as almas que ali buscam refúgio. “Vinde a mim”, parecem dizer as árvores aos que amam livremente – visto que são os amores livres que se aventuram nas profundezas do sentimento.

     As raízes subterrâneas tornam firme o solo, como os alicerces das catedrais, e sobre elas edifica-se o terno silêncio. Pois sim, a ternura exige firmeza.

     Sob o sol ou sob a lua, os galhos e folhas das árvores formam lindos vitrais, que pontilham os corpos dos que ali se entregam. Foi assim com o Cristo, antes da crucificação. Prevendo a morte, angustiou-se ao pé de uma oliveira e ali ponderou o valor de sua vida, que certamente, como homem, amava, e o valor de sua amada fé. Sob a sombra da catedral de galhos e folhas retorcidas, a balança oscilava tênuamente… valia a pena morrer pelo que acreditava? O fiel equilibrava com maestria as opções do Cristo, que, com o peito apertado, precisava se decidir. Deveria se submeter ao sacrifício anunciado nas profecias? “O suor tornou-se como grossas gotas de sangue a escorrer-lhe por terra”, diz-nos Lucas sobre a angústia do Deus tornado homem. Ali, suponho, sob o silêncio arbóreo, o Cristo escolheu morrer de amor.

     Recordam os cristãos, todos os anos, a decisão tomada por esse homem sob as folhas da oliveira.

     Milênios depois, num ato muito mais humilde, mas que ecoa o amor nazareno, amaram-se os amantes de Wislawa Szymborska, sob uma árvore, à beira de um lago:

Amaram-se debaixo da aveleira
sob sóis de orvalho
com folhas secas e terra
grudadas no cabelo

Ajoelhados à beira do lago,
as folhas retiraram,
e reluzentes, como estrelas,
os peixes se aproximaram”.

     Agora, a poetiza polonesa aflige-se com a fragilidade desse amor. Ela sabe que, ao contrário da decisão de Cristo, a escolha desses amantes, sob a aveleira, talvez não viva para sempre, talvez se esvaia com o tempo, não suporte os milênios, apague-se da memória de ambos, até que não haja mais nenhum resquício daquele amor.

     Não existirão disputas acadêmicas sobre o sentimento que fez tremer aqueles corpos sob a aveleira, não se derramará sangue por aquela lembrança, não se erguerão templos por aquele evanescente evento, sabe a polonesa.

      Por isso, aquele amor, a poetiza quer salvá-lo, não quer que se perca.
 
     Szymborska invoca então a piedade de quem presenciou aquele ato sob o domo de galhos e folhas. Pede encarecidamente a uma andorinha que não deixe que os amantes se esqueçam do amor vivido sob o vitral de orvalho.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

O reflexo das árvores
nas marolas esfumaçado,
andorinha, faz com que nunca
seja por eles olvidado”.

     Mas como? Como pode uma andorinha, essa testemunha oculta, manter viva a lembrança de um momento? Como pode aquele passarinho fixar no elemento volátil da memória as tênues recordações que, para os amantes, ainda estão tão frescas e presentes quanto o cheiro das folhas, da terra, quanto as nuvens do céu? Como, meu Deus, prender uma nuvem e evitar que ela se perca na imensidão do firmamento?

     Szymborska sabe que aquilo que pede à andorinha é tarefa das mais ousadas ao espírito: Apreender o inapreensível. Tocar o intocável, como quis Ícaro, com suas asas de cera.

     Apesar da impossibilidade da empreitada, a piedade de Szymborska é maior, e ela invoca a andorinha, com as qualidades que o pequeno pássaro irá precisar para capturar a memória volátil. Como a deusa Atenas, Szymborska concede à andorinha as virtudes necessárias para que a ave alcance seus propósitos.

Andorinha, espinho de nuvem,
âncora do ar,
Ícaro melhorado (...)”

     Szymborska se dá conta de que a lembrança da andorinha talvez sirva como uma âncora para o barco fátuo de recordações dos amantes, um espinho no qual fique agarrada a memória. Szymborska  inventa um jeito, metafórico, de prender as reminiscências que, por certo, vão se esvair. Ao ver uma andorinha, “âncora do ar”, “espinho de nuvem”, cruzar o céu, talvez eles rememorem aquele instante sob a aveleira.

     Então, ao final do poema, Szymborska, com o coração cheio de piedade por aqueles amantes, começa a lançar inúmeras âncoras e espinhos para que a memória não seja levada pelo tempo, para que, ao se deparar com as mais simples contingências do cotidiano, os amantes rememorem aquele momento debaixo dos vitrais de orvalho:

andorinha caligrafia,
ponteiro sem os minutos (…)

andorinha silêncio agudo,
luto alegre,
auréola dos amantes,
tem piedade deles”.

     Tantas âncoras e espinhos são lançados para segurar quela lembrança: “caligrafia”, “ponteiro sem os minutos”, “silêncio agudo”, “luto”, “auréola dos amantes”… quando um daqueles amantes, dos quais se apieda Szymborska, num futuro distante, estiver contemplando um relógio, aguardando o tempo passar, quando estiver lendo um texto com uma linda caligrafia, quando alguém amado se for, quando vir dois amantes alegres andando pela rua, nesses pequenos acontecimentos estará agarrada, ancorada uma lembrança e virá à sua mente a tarde em que se amaram sob a aveleira: “O reflexo das árvores/nas marolas esfumaçado (...)”.

      Szymborska sabe, como o Cristo na noite que antecedeu a crucificação, que a memória precisa de migalhas para seguir, que ela precisa ser pregada em elementos que a resgatem do esquecimento: "Isto é o meu corpo, que será entregue por vós. Fazei isto em minha memória".
 
     O que mais poderia fazer Szymborska? Com essas âncoras lançadas, a poetiza encerra o poema, como o fez, nas aventuras dos “Velhos Marinheiros”, de Jorge Amado, o capitão Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, único, dentre os velhos marinheiros, a prever os ventos, a lançar todas as amarras, todas as âncoras, todos os “strings” todas as espias, todas as manilhas, todos os ferros e salvar o seu navio.

     Rememorar, rememorar, lançar aos amantes pequenos espinhos onde se agarrarem as memórias, é o que pode a piedade de Szymborska.

     Ao verter o poema Upamiętnientie (Rememoração) para o português, a tradutora Regina Przybycien lançou mais uma âncora, mais um espinho de nuvem, para que o amor sob a aveleira, descrito por Szymborska não se perdesse, para que a própria poesia fosse rememorada.

Coração de andorinha
tem piedade deles”.

     Essas âncoras do poema de Szymborska, esses espinhos, não encontram melhor tradução em imagens que as fotografias “monotrípticas” do amigo Guilherme Ghizoni, espinhos de nuvens nos quais se agarram as mais voláteis memórias, âncoras de ar.

     Emociona-me ver amigos buscando o inalcançável, Ícaros melhorados.

     Abaixo, o poema traduzido por Regina Przybycien e um dos "monotrípticos" de Guilherme Ghizoni:

Rememoração

Amaram-se debaixo da aveleira
sob sóis de orvalho
com folhas secas e terra
grudadas no cabelo.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

Ajoelhados à beira do lago,
as folhas retiraram,
e reluzentes, como estrelas,
os peixes se aproximaram.

Coração de andorinha
tem piedade deles.

O reflexo das árvores
nas marolas esfumaçado,
andorinha, faz com que nunca
seja por eles olvidado.

Andorinha, espinho de nuvem,
âncora do ar,
Ícaro melhorado,
fraque ascendido ao céu,
andorinha caligrafia,
ponteiro sem os minutos,
protopássaro gótico,
estrabismo nos céus,

andorinha silêncio agudo,
luto alegre,
auréola dos amantes,
tem piedade deles.

(SZYMBORSKA, Wislawa, Um amor feliz, Companhia das Letras, 2016. Trad. Regina Przybycien)

http://www.ghisoni.com.br/Monotripticos/

Fotografia: Guilherme Ghizoni

19 de novembro de 2016

O Homem Quântico

Not here! - not here! I have been here too many years,
Have Stumbled about the darkened room for a door,
Seeing only the phantom shafts the moonlight clears,
The broken bars of silver along the floor.

(...) And I am alone.
Not here, old shadows – I know you, all too well!

Edmund Wilson Jr.


     Um pouco antes de despertar, Baal sonhava com uma piscina. Era uma construção retangular, funda e vazia, aberta no chão, estava limpa, como se a tivessem acabado de lavar, azulejos polidos e tudo. O curioso – digo, o que chamava atenção de Baal em sua piscina onírica – é que dentro dela não havia uma gota d'água.
     Dava-lhe um mal-estar ver a piscina esgotada, um sentimento de desolação, de abandono e, ao mesmo tempo, aquele espaço amplo e desocupado, incitava na alma a sensação de liberdade. Era como ver barcos tombados na areia de uma praia deserta, sem mar, secando a céu aberto, tal qual as pinturas a óleo de Calderari.
     No sonho, Baal corria descalço, com terno tweed e gravata borboleta, estendia os braços como se fossem asas cheias de penas e pulava dentro daquele buraco quadrangular. Chegou a sentir seu pé direito dando um último impulso contra a borda da piscina, os dedos em forma de garra, acompanhando o arco da sola, para ganhar altura e mais alcance. Prendeu a respiração, como se mais ar nos pulmões o ajudasse a flutuar. Dada a profundidade daquele vão, o voo e a queda foram longos. Baal mergulhou no vazio e bateu seu peito contra o piso duro e frio de azulejos brancos.
     Com essa pancada nos pulmões, Baal acordou, quase sem fôlego.
     Abriu os dois olhos e tudo estava escuro.
     Ficou confuso. Não era um escuro qualquer, não era o escuro do seu quarto, era um escuro outro. Acordara, ou desmaiara? Tinha certeza de que a piscina não passara de um sonho. Quando fora a última vez que realmente tinha pulado numa piscina? Mais de catorze anos, com certeza. Muito antes de arranjar seu emprego na Secretaria de Pesca do Estado do Rio de Janeiro, antes de namorar Tereza, antes de se separar de Tereza, antes de mudar-se para o apartamento em Niterói. Por que nunca fora a uma piscina com Tereza?
     De olhos abertos, deitado em sua cama, Baal só via o breu… um breu desses tão ortodoxos que ignorava, por completo, a ideia de claridade, um breu que talvez só seja dado aos cegos ver.
     Teve medo, parecia que o que lhe faltava não era luz, mas a vista.
     Desde pequeno, nutria o pavor de ficar cego. Depois que lhe contaram, quando criança, que a urina do sapo cegava, Baal nunca mais passou perto do anfíbio e evitava, com firmeza de propósito, lagos e lagoas. O mesmo aconteceu quando lhe disseram que não devia olhar diretamente para o sol, sob pena de nunca mais enxergar nada. Tornou-se uma criança que desconfiava dos dias ensolarados.
     Nem mesmo os conhecimentos científicos aprendidos na escola serviram para afastar suas desconfianças. O pavor da cegueira encurralou muito de sua infância.
     “O dia já deveria estar nascendo”, considerou no negrume do cômodo. As luzes da cidade, a essa hora, já era para estarem estampadas no teto de seu quarto. Pensou se não seria noite ainda, se o sonho não lhe teria furtado a noção do tempo. Afastou como pôde a ideia da cegueira e a lembrança do sapo.
     Tinha impressão de que estava acordado. Mas acordara mesmo, ou só agora começava a dormir? De olhos abertos na escuridão, calculava se não estava apenas imerso num repouso inquieto, em que os estados mentais da vigília e do sono se confundiam. Piscou. O breu de dentro era igual ao breu de fora. Estava acordado, refletiu sem muito rigor lógico.
     Apalpou o próprio corpo e sentiu a regata e o velho calção com que se deitara na noite anterior. Niterói andava quente nessa estação do ano. No sonho estava de terno e gravata borboleta. Apalpou o pescoço e não a encontrou.
     Não dormia bem já fazia alguns dias. Andava angustiado com tudo, qualquer bobeira lhe apertava o peito. Uma palavra com a qual encucasse, se a ouvisse na boca de algum infeliz ou a lesse perdida num relatório, bastava para lhe dar palpitações.
     Era como se sua angústia andasse a esmo, procurando qualquer coisa com que implicar. Baal sentia que já não possuía nenhum controle sobre esse sentimento.
     No dia anterior mesmo, no restaurante por quilo, ao pagar por sua refeição, pediu à caixa que incluísse em sua comanda um bombom, desses que ficam dispostos sobre o balcão, ao lado de chicletes e balas. Escolheu um Sonho de Valsa. Pois o modo como o doce estava embrulhado o angustiou. Não o abriu, meteu-o no bolso. O chocolate poderia derreter, é verdade, mas desse jeito não olhava para aquele plástico retorcido nas pontas. No trabalho, deixou o bombom sobre a sua mesa e, sempre que olhava o embrulho, sentia um aperto no peito e um suor frio parecia querer lhe escorrer pelas têmporas. A mera perspectiva de destorcer as duas extremidades da embalagem, para liberar o doce, o desacalmava. Mirando o bombom, soltou a gravata borboleta com a qual sempre ia para o escritório e enfiou o doce numa gaveta, para conseguir trabalhar. Mas mesmo agora, em seu quarto, no escuro, longe do trabalho, ao lembrar do doce engavetado, o ar lhe parecia faltar.
     Essas angústias se acumulavam há dias.
     Não era para menos que suas noites fossem intranquilas.
     No breu, retomou o ar, ajeitou-se na cama, fechou os olhos como se dormisse e a piscina voltou a aparecer, toda branca, com manchas branco-escuro e branco-claro. Estava pranchado no piso da piscina, com queixo e peito colados no azulejo. No fundo, junto com Baal, havia algumas folhas secas de Aroeira. Já não sentia o aperto no peito. Respirou, deixando as narinas inflarem.
     Ergueu-se no fundo da piscina e tateou, com os pés descalços, os encontros dos azulejos frios e secos.
     - “Ô cacete… que diabo...”.
     Era o sonho que voltava, ou ele que acordava com os olhos cerrados?
     Como podia aquilo? Baal via mais de olhos fechados, sonhando, que com eles abertos.
     Estava num sono leve, sabia que estava dormindo. Nesse lusco-fusco onírico, abriu os olhos e voltou à escuridão de seu quarto. Fechou-os e voltou ao fundo esbranquiçado da piscina.
     Abriu de novo os olhos. Trevas. Ergueu-se da cama, foi apalpando seu caminho pelo quarto até a janela e percebeu, desapontado, que tudo na cidade estava escuro, os prédios, as avenidas, a baía de Guanabara, nem no céu havia uma estrela sequer acesa. Tudo era breu. Tocou o vidro, imaginando que, em algum momento veria o tênue reflexo de seus dedos na superfície transparente. Em vão.
     As ruas estavam negras, não havia carros, nada.
     Baal tentou abrir a janela, pois começava a suspeitar que, talvez, não houvesse mais o “fora”, queria sentir a brisa do mundo que não via. A janela estava emperrada. Forçou-a, mas a fraqueza do sono ainda não passara. Largou mão e permaneceu em pé, diante de um retângulo que imaginava na escuridão.
     Enquanto tentava divisar algo, ouviu um estrondo no meio do quarto, como se um armário tivesse caído na sua cama. Levou um susto porque o escuro, quando fala, anuncia sempre algo pavoroso. Chegou a dar um pulo, movido pelo instinto de sobrevivência. Agradeceu às trevas por não deixar ninguém testemunhar aquela descompostura. Refez-se e tateou em direção ao barulho que acabara de ouvir, buscava um pedaço do teto que talvez tivesse se desprendido, algo pesado, afundado no colchão. Não encontrou nada. Ao redor do móvel, tudo parecia inalterado. Sentou-se na cama, cabreiro.
     Aquele barulho, se estivesse dormindo, certamente o teria acordado. Parou por um instante para aceitar a verdade de seu raciocínio. Por exclusão, com certeza estava desperto, agora não poderia haver mais dúvidas quanto a isso… e não enxergava... E se estava em estado de vigília e ouvira aquele barulho, tinha que haver algo caído em sua cama, era real.
     Tateou, tateou e não encontrou nada. Além de cego, pensou Baal, delirava?
     Deitou-se. O delírio era outro medo que tinha desde pequeno… porque ver coisas demais, afinal de contas, era também uma forma de cegueira.
     Pensou em Tereza, se ela estivesse ali, explicaria o que estava acontecendo. Tereza sabia ancorar as coisas na realidade e, desse ponto fixo, com o auxílio de uma lógica incisiva, esclarecia qualquer assunto a qualquer um. Tereza era como Arquimedes: “Dê-me um ponto de apoio e uma alavanca e moverei o mundo”.
     Tereza não estava ali e a realidade, por isso, tornava-se movediça. Recapitulou alguns seriados médicos que vira na TV, tentado lembrar o que poderia causar cegueira temporária ou delírios. Coágulos, envenenamento, fungos… só lhe ocorriam essas expressões vagas, sem muita serventia. Com um sorriso no rosto, Baal recordou-se das caras e bocas que fazem os atores, fingindo estarem cegos e delirantes, as expressões dessas duas condições são parecidas, até… além disso, nenhum diagnóstico.
     Perdido nesses pensamentos, fechou os olhos e, como se o sonho voltasse, viu-se novamente com os pés sobre os azulejos. Para sua surpresa, dentro da piscina alguém havia jogado uma caixa. Era uma caixa de metal pesada que, com o impacto, chegou a abrir uma fenda no piso.
     Era aquilo que caíra em sua cama…e viera parar em seu sonho. Sonhava? Parecia tão desperto… Como aquilo podia ter varado sua cama e entrado em seu sonho? Sonhava? Tateou o objeto frio, estava um tanto amassado pela queda. Era uma caixa de metal maciça, pesadíssima… queria ver tirar aquele trambolho de aço de dentro da piscina.
     Empurrou-o, mas o objeto não se moveu. Olhou para o céu para ver se enxergava seu colchão furado e a escuridão de seu quarto, mas onde deveria haver céu, somente céu havia.
     Como podia algo cair na sua cama… e aparecer em seu sonho?
     Numa das faces do objeto metálico, Baal achou uma porta emperrada. Tentou abri-la, para espiar o que tinha dentro. Em vão.
     Analisou a tranca. Como toda a estrutura de metal amassara um pouco com a queda, criou-se uma pequena fresta na região da fechadura e, inspecionando o mecanismo, Baal percebeu que se tratava de uma tranca diferente. Havia uma lingueta por dentro... só dava para vê-la pela fresta mínima que o amassado no metal criara. Quando a luz conseguia se esgueirar por aquela fenda, refletia na chapa de metal fixada por dentro da caixa. Aquele ferrolho é que precisava ser puxado. Só com essa lingueta retraída seria possível puxar o manete que ficava do lado de fora e abrir a caixa. Não havia chave.
     Era um negócio de doido, uma caixa que tinha que ser aberta por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Tentou puxar o ferrolho pelo vão criado com a leve deformação da estrutura metálica, mas suas unhas sequer entravam na fenda, de ínfima que era. Ao tentar algum apoio contra a superfície da caixa, sua mão escapou e, com isso, Baal bateu os dedos no manete de metal. A dor lancinante o acordou.
     Viu-se, de novo, no breu de seu quarto. Colocou os dedos na frente dos olhos, mas não enxergou nada. Tocou-os, apertou-os. A mão não doía.
     Pensou no sonho que acabara de ter, a piscina, a caixa de metal, a tranqueta. Tereza não ia dar conta de explicar aquilo, de ancorar a caixa de metal, o barulho, na realidade.
     Olhou em direção à janela, mas o breu era tanto que parecia não haver fora. Ergue-se, decidiu ir à cozinha tomar um copo d'água. Tateou seu caminho até a porta e onde ela deveria estar, não estava. Tateou um pouco mais à esquerda e à direita, supondo uma margem de erro, mas não a encontrou.
     Ampliou o raio das apalpadelas que dava na parede, agora supondo estar no lugar errado do quarto. Nada. Até o momento em que, a certa altura inesperada da parede, sentiu uma superfície gelada e lisa. Nunca tinha visto aquilo ali.
     Era uma prancha de metal longa e chata, talvez tivesse dois metros de comprimento e, pelo menos, cinquenta centímetros de largura. De espessura, talvez tivesse um centímetro. Tratava-se de um objeto pesado. Apalpando-o, ponderou como poderia estar suspenso na parede. Com cautela, buscou movê-lo, sem sucesso.
     Numa das extremidades, vindo de trás da chapa de metal, notou um lume esbranquiçado, frio como a luz da lua e tão tímido, mas tão tímido, que quase não se notava, não fosse a absoluta escuridão que o envolvia. Não era exatamente uma luz… era uma fraqueza nas trevas, como o último lugar onde o vaga-lume piscou, antes de acender novamente mais adiante.
     Queria enxergar de onde brotava aquela aura, mas a chapa estava muito próxima da parede. Forçou a bochecha e a têmpora direita contra a alvenaria e tentou visualizar melhor o lume, mas com as pálpebras deformadas, não conseguia ver com nitidez.
     Tentou dobrar o metal para ampliar o vão e deixar mais luz passar, agarrou-se à chapa de metal, pressionou os pés contra a parede e puxou, mas o ferro não se curvou.
     Parou para pensar numa outra abordagem. Deu um passo para trás, como que para visualizar melhor o problema, mas assim que se afastou o lume sumiu e diante de si só via o breu.
     Sentou no chão que tinha abaixo de si e ali mesmo se esticou. Estava preso, foi a conclusão a que chegou. Onde fora parar a porta de seu quarto e o que era aquela chapa?
     - “E agora, Tereza?” - perguntou-se Baal.
     Em breve teria que ir trabalhar. Por um lado, aquela escuridão não era de todo má. O simples fato de pensar no seu terno tweed, em escolher uma gravata borboleta, a lembrança do bombom em sua gaveta, a trajeto de metrô até o trabalho, a lembrança dos relatórios de pesca, com palavras repetidas, que andavam em cardumes pelas folhas da burocracia, o exauriam. O cotidiano o esvaziava. Sentia-se mais vazio e seco que a piscina com que acabara de sonhar. Encarcerado naquele cômodo, ao menos, evitava essas gasturas do dia-a-dia.
     Fechou os olhos e, esgotado pela frustração, dormiu.
     Seus sonhos o levaram, mais uma vez, para dentro da piscina vazia, ao lado da caixa de metal, metido num terno tweed e gravata borboleta, descalço.
     Notou, então, algo de estranho naquele lugar, algo que sempre estivera ali, desde sempre, mas que só agora o incomodava. Não sabia dizer exatamente o quê.
     Alguma coisa nos azulejos da piscina chamava a sua atenção.
     O que era? A temperatura, a forma? O fato de estarem secos?
     Não, não era nada daquilo. Era algo que estava na sua frente, mas lhe escapava.
     Passou a mão ao longo daquelas pequenas superfícies vitrificadas, na esperança de agarrar o buraco no seu espírito. O que era? Mentalmente, foi descartando os elementos que via à sua volta, um a um: o cofre, a rachadura no chão, a borda da piscina, a temperatura, os rejuntes… Com esse exercício mental, de exclusão, ficou apenas com um elemento.
     O que de fato o incomodava naquilo tudo, ainda que de maneira imprecisa, era a brancura da piscina… Contemplou os azulejos por alguns instantes e notou que formavam um mundo lácteo e havia alguma coisa de morte naquele mundo esbranquiçado, era como se daquela claridade espiassem as trevas.
     Era como a alvura da lua, essa aura prateada que, com certa familiaridade, vaga pela escuridão dos céus, tal qual um fantasma.
     Era… O absurdo conectou os pontos… era a brancura que vira no breu de seu quarto, refletida na chapa de ferro.
     Olhou a caixa de metal pousada sobre os azulejos e dela aproximou-se para verificar sua hipótese. No vão amassado da porta viu a lingueta. Era quase impossível discerni-la com precisão, somente um filete de luz se espremia pela brecha e mal refletia na superfície da trava.
     Baal ficou embasbacado.
     O que lhe escapava era o inconcebível. Agora, sonhando, via a barra de ferro que o prendia dentro do seu quarto.
     Era a mesma barra de ferro! Tinha certeza! Em proporções diferentes, é verdade, mas era a mesma, não havia dúvidas. Aquele ferrolho o encarcerava dentro da caixa de metal, dentro de seu quarto!
     Quem poderia descansar com sonhos desses? Tentou, mais uma vez, abrir a caixa afundada na piscina, tocar na lingueta de ferro que o aprisionava, mas o vão era muito estreito. Operou o manete da caixa repetidas vezes, forçando-o, mas a porta seguia fechada. Era preciso abri-la por dentro e por fora, ao mesmo tempo.
     Aquilo não fazia sentido. Sentiu um aperto no peito, dificuldade para respirar, seus pés descalços suavam. Olhava em volta e a brancura dos azulejos o oprimia. O simples fato de ver a caixa de metal onde poderia estar aprisionado dava-lhe palpitações.
     Em meio a este sonho perturbador, despertou.
     Deitado no chão, ouvia sua respiração ofegante no quarto escuro.
     Foi até a chapa de metal e espiou o vão onde ela encostava na parede. Viu a luz pálida e não teve dúvidas. Era a luz refletida, fantasmagórica, dos azulejos da piscina. A certeza que teve em seu sonho, tinha-a agora em seu quarto.
     Se Tereza estivesse ali, iria mostrar-lhe aquele lume e diria: “Olha, é a mesma luz do meu sonho! Estamos presos numa caixa de metal”. Tereza não acreditaria.
     Ponderou a posição da chapa de ferro e concluiu que deveria empurrá-la horizontalmente, da direita para a esquerda, pois, se de fato fosse a lingueta, era assim que deveria ser aberta.
     Quase não havia como segurar a borda da chapa, estava muito colada à alvenaria e era fina demais para um apoio firme das mãos. Como deu, empurrou a trava com todas as suas forças e a bicha se moveu. Mas foi só soltá-la que ouviu um solavanco. A chapa voltou para o seu lugar, como se fosse um ferrolho de pressão.
     Pensou… pensou. De repente, poderia arranjar um calço, algo que segurasse a chapa de metal aberta. Assim, calculou, voltaria a dormir, a sonhar e, da piscina, abriria o manete e libertar-se-ia daquele quarto. Precisava apenas de algo que pudesse usar para calçar o ferrolho e evitar que a chapa voltasse à sua posição original.
     O único objeto naquele quarto que poderia servir ao propósito era sua cama.
     No escuro, manobrou o móvel, mas a chapa de metal estava muito distante do chão e da parde perpendicular a ela para que a cama pudesse servir de calço. Além disso, a espessura da traveta era fina por demais e, com certeza, escaparia com o peso do móvel.
     Era impossível, com os recursos que dispunha, escapar daquele enigma. Para sair dali teria que estar dentro e fora do quarto ao mesmo tempo…. Teria que estar dentro do quarto para empurrar o ferrolho de pressão e teria que estar fora do quarto, dentro da piscina, em seu sonho, para operar o manete.
     Agora estava dentro do quarto. Seria possível que estivesse também lá fora? Ou somente ia para a piscina quando dormia, em seus sonhos? Poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo, ou estava em um lugar de cada vez?
     E ainda que estivesse nos dois lugares ao mesmo tempo, precisaria que seus dois “eus” tentassem abrir a caixa ao mesmo tempo, a lingueta e em seguida o manete, sincronizados.
     “E então, Tereza?” - pensou em voz alta - “dá-me agora um ponto de apoio, uma alavanca!”
     Lembrou-se do bombom guardado em sua gaveta. Para abrir a embalagem era preciso que a mão direita e a mão esquerda operassem juntas, destorcendo o papel, uma para cada lado, simultaneamente… era uma boa metáfora para a tranca da caixa de metal, pensou...
     “Não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita”, veio-lhe à mente o versículo bíblico, que, no caso, parecia profético.
     Como saber o que seu outro eu estava fazendo do outro lado da caixa? Se é que lá estava. Quando girar o manete e quando empurrar a chapa de metal?
     Para ter certeza, precisaria abrir a porta do quarto ou da caixa de metal…. E olhar… mas para isso precisaria estar em dois lugares ao mesmo tempo.... Lembrou-se do experimento de um físico nascido em Viena, chamado Schrödinger. Tereza gostava de ciências e lhe falava dessas coisas.
     Nessa experiência, que na realidade tinha sido um experimento mental em que nenhum bicho foi realmente exposto a perigo algum (pois suponho que o austríaco amava a natureza), bota-se numa caixa um animal e, junto com ele, um elemento químico que tem 50% de chances de matá-lo após certo tempo. Fecha-se a caixa e se aguarda.
     - “A gente aprendeu a pensar que, nesse caso, o bicho tem 50% de chance de estar vivo e 50% de chances de estar morto. Ou seja, a gente pensa sempre que ou o bicho morreu ou ele ainda está vivo”… foi como Tereza havia explicado a Baal, muitos anos antes.
     - “Só que esse físico, Schrödinger defendia que, decorrido o tempo, até que se se retirasse a tampa para verificar o estado do bicho, na verdade, ele poderia estar vivo e morto, simultaneamente. Isso, do ponto de vista estatístico” - Tereza era capaz de explicar qualquer coisa.
     Baal lembrou-se dessa conversa que tivera com Tereza. Estavam num elevador, quando a energia do edifício acabou.
     Enquanto esperavam, Tereza comentou que poderiam aguardar pelo resgate por até sete dias, já que não tinham água. No oitavo dia, as chances de sobrevivência do corpo humano, sem qualquer hidratação, caíam para 50%. Se ficassem presos ali por oito dias, os bombeiros, quando fossem resgatá-los, saberiam que eles poderiam estar simultaneamente vivos e mortos, segundo o experimento de Schrödinger.
     Foi assim que Baal ficou sabendo da existência do físico austríaco: preso num elevador com Tereza.
     Aplicando-se o exercício mental ao caso de Baal, até o exato instante em que abrisse aquela porta, ele poderia estar dentro e fora da caixa ao mesmo tempo… Isso alimentava alguma esperança, mas o constructo mental de Schrödinger, como explicara Tereza, era mera especulação estatística. Não servia para abrir caixas.
     Não bastava ser estatisticamente possível estar em dois estados de consciência ao mesmo tempo. Era preciso que, com cem por cento de certeza, estivesse consciente do que fazia acordadopara abrir a lingueta – e do que fazia sonhandopara girar o manete. A consciência, ao menos a sua consciência, de nada lhe servia de maneira probabilística, somente de maneira efetiva.
     “A consciência precisa ser, de fato, senão não me serve” - pensou Baal.
     Desde Descartes a coisa tinha sido assim. “Penso, existo”, sem desvios estatísticos.
     No escuro, ouviu o ronronar de um gato. Era o seu gato, Erwin, por certo, que sempre via passar pela janela. Estava habituado a vê-lo, com o canto do olho, desfilar pela soleira da porta e ao redor do quarto. Na maior parte do tempo, Erwin não era um gato, mas um vulto familiar.
     Esse último pensamento sobre o gato alimentou em Baal uma leve enxaqueca.
     No final de seu relacionamento com Tereza, vigiavam os vultos um do outro, evitando-se. Se Baal ia para a cozinha, Tereza, onde quer que estivesse, aguardava o vulto do marido indicar que já se deslocara para outro cômodo, para só então ir pegar o copo de água que queria. O mesmo fazia Baal. Até o ponto em que eles mesmos tornaram-se vultos, alheios um ao outro e ignoravam-se, ainda que no mesmo quarto.
     Agora, no escuro, Erwin era uma sombra que se perdia na sombra maior da noite.
     Chamou o felino, mas foi ignorado. Não importava, estavam ambos presos dentro daquele cômodo.
     Era preciso uma solução para o problema. Voltou a deitar-se. Imaginou o vulto do gato movendo-se pelo quarto escuro. Ouviu-o ronronar.
     Ao som do felino, adormeceu e logo estava dentro da piscina.
     O dia se esvaía em seu sonho. Sombras se projetavam nas paredes de azulejos. O que era branco ganhava tons carmesinados com o crepúsculo. Tentou sair das cercanias daquelas paredes, mas elas eram por demais fundas e os azulejos por demais lisos. Baal pulou pelos cantos da piscina, deslizando as unhas e os cotovelos do terno tweed pelas paredes. As tentativas frustradas serviram apenas para desolá-lo e fazê-lo sentir-se, cada vez mais, como uma das embarcações de Calderari, afundada numa praia sem mar.
     Estava preso dentro da caixa e dentro da piscina… pensou. Mesmo que escapasse de dentro da primeira, sairia para o interior da segunda.
     Sentou-se. Os pés descalços no chão, via a piscina vazia e a caixa de metal. Numa das paredes azulejadas viu a silhueta de um gato. Olhou para as bordas, mas não viu o bicho, devia estar fora do alcance da vista. A inclinação do sol pintava um gato nos azulejos.
     Olhou bem aquela sombra. Era uma sombra conhecida, já a vira inúmeras vezes. Era o seu gato, Erwin, que há pouco ronronava no quarto.
     Chamou o gato, “Erwin! Erwin!”, na esperança de que o bicho apontasse na beira da piscina, mas ele não veio.
     Duas prisões o encarceravam.
     Nas duas, vivia na companhia das sombras.
     A sua libertação dessas prisões dependia de estar em dois lugares distintos ao mesmo tempo, vivendo de maneira sincronizada… Quais as chances? Qual a lógica?
     A consciência não era um evento estatístico. “Penso, existo”.
     Vendo o gato estampado na parede que se avermelhava com o pôr do sol, lembrou-se da sombra de Tereza, no dia em que partiu, oscilando na soleira da porta.
     Decidiu viver um cárcere de cada vez.

     Talvez agora conseguisse dormir.