24 de maio de 2014

Dez Anos

   Outro dia, um colega de classe perguntou-me como eram as aulas no curso de Filosofia e se eram muito diferentes das que temos no curso de Direito. Não me lembro o que lhe respondi; devo ter falado qualquer banalidade. Entretanto, a pergunta não me saiu da cabeça.
   Pensando no assunto, dei-me conta que, neste ano, completa-se uma década de minha formatura como bacharel no curso de Filosofia da Universidade Federal do Paraná.
    Dez anos. Tempo suficiente para eu ter refletido sobre as aulas que tive.
   Resolvi dar uma resposta mais satisfatória ao colega de turma. Para não entrar em picuinhas, optei por descrever como foi a primeira aula das diversas que tive ao longo dos anos da graduação. Disso, suponho, é possível se ter uma noção de como eram as lições de filosofia e no que elas diferiam das aulas que temos no curso de Direito.

   No dia sete de março do ano dois mil, às oito horas e quarenta minutos, após algumas informações dos representantes do Centro Acadêmico, teve início minha primeira aula de filosofia no Anfiteatro 100 da Universidade Federal do Paraná.
   O professor ingressou no recinto portando uma pasta de couro marrom e sentou-se na mesa que ocupava o centro da arena. Chamava-se Luiz Alves Eva.
   Disse que, naquele semestre, suas aulas seriam expositivas. Sem se levantar, retirou da pasta uma semente e a lançou, ao acaso, para longe de si. A semente caiu a dois passos da mesa.
   A classe permanecia em um silêncio atroz. Todos os olhos voltavam-se para o chão.
   Aos poucos, milagrosamente, a pequena semente começou a brotar no piso de madeira do Anfiteatro. Folhinhas espremidas rompiam o tegumento e lançavam-se verticalmente procurando a luz.
   Um minuto depois, via-se o pequeno caule verde surgindo abaixo das folhas. A haste orgânica, com certo vagar - por cerca de 5 minutos - aumentou de tamanho até atingir a altura do joelho de Eva. Neste ponto, ganhou firmeza e sua ponta bifurcou-se.
   O broto ganhava feições de árvore, embora as folhas ainda fossem desproporcionalmente maiores que os tímidos galhos.
   Ao longo da hora seguinte de aula a planta ganhou altura, alcançando o teto; seu tronco central robusteceu-se, ultrapassando um metro de diâmetro, as raízes romperam os tacos de madeira e alastraram-se por toda a área em frente ao quadro negro e os galhos ramificaram-se aos milhares, edificando uma enorme copa sobre a arena e sobre os alunos.
   Neste instante, suspendeu seu crescimento vertiginoso. A mesa e o professor estavam cobertos pela sombra da árvore. Milhares de folhas moviam-se quase que imperceptivelmente sobre aquele par de seres imóveis. Então, tudo parou. Até o tempo. Silêncio. O professor nos encarou por alguns instantes e, antes que alguém dissesse algo, a árvore começou a envelhecer. O tronco ganhou sulcos profundos e os galhos retorceram-se em ângulos de artrose chegando mesmo a estalar. Folhas caíram tímidas, como anunciando o último outono, cobrindo o piso de madeira.
   A morte parecia comer a árvore por dentro. Foi quando, em um dos galhos, brotou um figo. O fim da aula aproximava-se.
   O professor Eva levantou-se, apanhou o fruto, colocou-o sobre a mesa e, antes de sair com sua pasta - repetindo o gesto milenar de uma ancestral sua, que habitara o Jardim do Éden -, ofereceu-o aos alunos. Quem quisesse, poderia pegá-lo.
   Assim foi minha aula inaugural de filosofia e até o dia de minha formatura, há dez anos atrás, a árvore ainda imperava, silenciosa, no anfiteatro 100.
  Hoje em dia, às vezes, ao encontrar-me com colegas de turma daquela época verificamos que trazemos no bolso a semente do fruto que comemos daquela figueira.

   Este é um texto de agradecimento aos professores Vinicius Berlendis de Figueiredo, Paulo Vieira Neto, Pedro da Costa Rego, Eduardo Barra, Bento Prado Neto, Maria Izabel Limongi, Luiz Alves Eva, Breno Hax Júnior, César Augusto Ramos, André Duarte, Joel Alves de Souza e Alexandre Gomes Pereira.